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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

QUEM É MICHEL SERRES?





Humberto Calloni

Filósofo
Doutor em Educação

Professor da Rede Pública Federal no Brasil

Edição
Gerson N. L. Schulz



Michel Serres
O livro "Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo: conversas com Bruno Latour", editado pelo Instituto Piaget, em Portugal, nos ajuda, em grande parte, a conhecer, compreender ou interpretar o pensamento filosófico que constitui o conjunto das reflexões de Michel Serres[1] e sua extensa produção. E é sobre este livro, resultado de uma longa entrevista (durante dois anos) com Bruno Latour (filósofo, antropólogo e professor de sociologia em Paris e Califórnia), que gostaria de tentar repassar uma idéia – pálida, limitada, é verdade –, mas que acredito significativa acerca deste octogenário filósofo francês.[2]

Apesar de sua vasta produção teórica, cuja variedade temática contempla não somente a filosofia, a educação, a literatura, a pintura, a escultura, mas notadamente a ciência e a cultura, Michel Serres é acusado, mesmo por seus pares, de possuir um estilo literário assaz hermético, de difícil compreensão, "estranho": de fazer associações livres, inesperadas, imprevisíveis.

Efetivamente, Michel Serres abandona de vez o uso do tecnicismo conceitual no âmbito de suas reflexões ao perceber que aí também se aloja a possibilidade de divisão, do conflito e da exclusão. Utiliza-se da linguagem padrão, comum, coloquial, dando, porém, a ela, um tratamento refinado, aliando seriedade e elegância, síntese e movimento, o que nos obriga ao uso frequente do dicionário curial. Daí seu estilo, sua marca pessoal, sua independência em relação ao jargão acadêmico, dos verbos e substantivos e também do sentido de sua aparente obscuridade.

Para Serres, a filosofia exige liberdade de pensamento, independência e mesmo solidão... Deve estar associada aos grandes problemas da humanidade, ou melhor, "às grandes questões globais" do ser humano e do mundo (do planeta) em que vive. Ela tem por tarefa a urgente reflexão das relações globais, interdisciplinar, ser criativa, "inventiva" e, "nem senhora nem escrava [...]", ela "procura ajudas, adjuvantes ou valores por todo o lado onde pode, mas... independente"; "inventar o espaço do transcendental, quero dizer, do condicional, das futuras invenções possíveis"; a filosofia tem a tarefa de procurar e fornecer respostas "não apenas aos problemas técnicos – e muitas vezes corporativos – da arte e da ciência: espaço, tempo, história e conhecimento, métodos e demonstrações..., mas ainda, e talvez, sobretudo, às questões simples e inevitáveis, vitais, que sempre levantamos desde a nossa infância e que nunca tiveram respostas senão no plano da filosofia" [e que aí permaneceram?]: "o que dizer da morte individual e coletiva, da violência, do corpo, da pele, dos sentidos, do mar, da pobreza...?". Do mal?


Não queiramos enquadrar Serres numa determinada corrente de pensamento teórico. Ele foge às demarcações, às etiquetas que paralisam o pensamento e criam divergências, preconceitos, rivalidades, ódios, competições e exclusões. Seu método de análise recua diante da função crítica da filosofia, da "filosofia da suspeita", para avançar naquilo que a filosofia tem como predicado essencial: a "invenção das invenções possíveis". De qualquer forma é conhecedor da história da filosofia e, como amante das culturas grega e latina, ele não se recusaria de pertencer à tradição filosófica. Mas adverte que "o valor da história da filosofia, sobretudo para a formação, depende de a abandonarmos depois de nos sacrificarmos a ela. Dediquei-me extensamente a trabalhos sobre Leibniz, Descartes, Lucrécio, Nietzsche ou Kant e a um imenso esforço de edição... creio ter ganhado com isso a liberdade de pensar por mim mesmo", ao arrepio da Academia.

Mas se seu estilo é algo difícil, mesmo exclusivo, talvez seja porque a base de sua reflexão, seu processo de demonstração (onde pretende a unicidade, a clareza, a economia [das palavras], o fechamento, saturação e síntese), advém de um modo de raciocínio matemático, melhor dizendo: inspirado na matemática das estruturas. Seus conhecimentos em matemáticas clássica e moderna, física antiga e moderna, ciências humanas, literatura e história das religiões, permitem ao filósofo um salto estilístico raramente comparável, embora nem por isso original (eis que muitos são os filósofos que recorrem ao conto, à alegoria, à poesia a fim de elucidar seus propósitos, como é o caso dos pré-socráticos, passando por Platão e Aristóteles, Kant, Hegel, etc.). Para Serres, "a filosofia fala a várias vozes, como em fuga e contraponto, serve-se de uma linguagem multivalente, como a matemática, exprime-se por parábolas polissêmicas e, por meio desse pluralismo, produz sentido".

A forma e o conteúdo do pensamento filosófico de Michel Serres estão decisivamente ligados à sua experiência de vida e à sua formação, à sua produção de sentidos.  A matéria de suas reflexões tem, portanto, uma relação fecunda com as suas vivências pretéritas e presentes e que também se lançam para um futuro, onde a sua filosofia se debruça como uma utopia do possível e no horizonte da paz. Mas o ruído de fundo, eis um de seus achados, é a indelével experiência da violência que o homem comete contra si e contra a Natureza, o planeta Terra: contra a Gaia. Ainda jovem, presenciou várias guerras e o dissabor de verificar que a ciência ocultava em seu interior a possibilidade concreta da destruição. "Depois da bomba atômica, tornava-se urgente repensar o otimismo científico, diz-nos o filósofo. E mais: "Peço aos meus leitores que ouçam o deflagar deste problema em todas as páginas dos meus livros. Hiroxima continua a ser o único objeto da minha filosofia".



É interessante observar, porém, que, para Michel Serres, o método de abordagem de um determinado tema resulta do próprio objeto de investigação, sendo por isso variável, flexível, constituindo-se ao longo do percurso. Ou seja, é o objeto de análise que determina a forma de abordá-lo. A análise nunca é linear, nem inaugurada por um conceito que possa abarcar o conjunto de inserções derivativas e que ilumine o caminho percorrido. Sua forma de incursão é sempre relacional, prepositiva, inventiva no sentido de provocar respostas objetivas aos problemas cruciais do nosso tempo. "[...] nunca cheguei a um começo, a uma origem, a um princípio de explicação único, tendo classicamente todas as coisas de estar em coerência ou fazer sistema, ou sentido, mas a um conjunto bem diferenciado, mas organizado de relações". "Permite-me", insiste o filósofo, "fazer notar que cada um dos meus livros descreve uma relação, muitas vezes exprimível por uma preposição singular?"

Trata-se, portanto, do modo inicial de abstração de Serres que lhe confere essa singularidade de pensamento. Ou seja, não abstrai a partir de um conceito, mas "ao longo de uma relação, de uma ligação". Ligação, nó, interface: "Entre sempre me pareceu, e ainda me parece, uma preposição de importância capital". Daí, mais uma vez, e em grande parte, a dificuldade de compreendermos o seu pensamento. Pois sua forma de deslocamento é francamente física: vetorial. "Nunca abstraio a partir de uma coisa ou de uma operação, mas ao longo de uma relação, de uma ligação. A leitura dos meus livros pode parecer difícil porque isso se altera e movimenta constantemente". "Penso vetorialmente. Vetor: veículo, sentido, direção, seta do tempo, índice de movimento ou de transformação. Portanto, cada gesto difere, evidentemente".


Novamente, quando Serres pensa o tempo, "a seta do tempo", não o pensa de maneira linear, tal como um tempo que vem do passado, chega ao presente e se projeta para um futuro. O tempo presente, para o filósofo, não é um conjunto de "agoras", nem uma linha contínua, ininterrupta. É fundamental a noção do tempo em Serres, para entendermos a forma de deslocamento que se opera a partir da idéia de relação, de interface ou de intercomunicação. Neste sentido, segundo o autor, o tempo não se escoa, mas flui caoticamente, "de maneira extraordinariamente complexa, inesperada, complicada [...]". Segundo seu próprio exemplo, o tempo pode ser comparado à dança das chamas de uma fogueira: ora altas, ora cortadas, ora inesperadas, ora verticais. Há fluxos de tempo. Percolação: filtro, "onde um dado fluxo passa e outro não". Nesse sentido, não somos nós que passamos pelo tempo, mas são os elementos, formas, culturas, etc., que se aproximam, que se tornam próximos. O tempo "dobra-se", "amarrota-se". Com estas metáforas, Serres imprime à idéia de tempo qualidades ou simultaneidades (pontos de contatos de ordem significativa; elementos do conhecimento da física atual já presentes de antiguidade de Lucrécio, por exemplo) que ao conceito clássico e linear de tempo não seria possível realizar. É por isso que o filósofo estabelece um diálogo familiar com Lucrécio ou Plutarco, de quem é estudioso, porque elementos significativos na literatura destes autores estão em sintonia com a física moderna. Daí a interface, a simultaneidade operada pelo tempo em que Lucrécio ou Plutarco seriam contemporâneos. Ou seja, a idéia de tempo formulada por Serres e que ainda será, segundo o autor, explorada, em livro específico, não permite que o passado se perca numa superação intransponível, mas se vivifica em elementos "contemporâneos", atuais, presentes.

O Tempo que "flui"


Talvez fique agora mais clara a participação da literatura, da narrativa mítica, da poesia, do conto, da metáfora ou de parábolas na estrutura do pensamento filosófico de Michel Serres. Pois embora sua construção teórica esteja amparada por uma racionalidade, esta não exclui as sensações originadas do conjunto da nossa estrutura biológica onde interagem elementos que desaguam na história do nosso desenvolvimento interpretativo do real, desde a narrativa mítica até o racionalismo científico, de maneira que pode haver tanto mito na ciência quanto ciência no mito. Eis alguns elementos que a idéia de tempo pode sugerir contemporaneidade. Portanto, não excluir o que aparentemente oferece margem ao diferente, à alteridade. A ciência, em suma, não pode e não deve arvorar-se em única detentora da razão, ou seja, ela não contempla a totalidade do racional. Assim também, onde a filosofia não pode dar as respostas procuradas, a literatura pode concorrer a seu favor. Eis o que o filósofo diz a este respeito: "o summum da filosofia pode assentar numa pequena narrativa. Terá sido o Evangelho que me ensinou isso, com o seu uso constante de parábola?". E mais: "A filosofia é suficientemente profunda para fazer compreender que a literatura é mais profunda do que ela".  Mas não pensemos que há nestas frases qualquer demérito a esta ou àquela filosofia. Serres é suficientemente filósofo para reinstalar o que muitas vezes damos por subsumido. A cultura tem essa qualidade, segundo o autor. Mestiçagem, mistura, comunicação, interdisciplinaridade, reciprocidade. Ciências e letras. Isto é, a ciência por si só não nos leva a refletir sobre o holocausto, a morte, a fome, a miséria, a exclusão, "o velho problema do mal", etc.; assim também as humanidades são convidadas ao saber científico. O tempo percolado nos permite a aproximação suficiente entre o sentimento e a razão, o ponto de reunião ou de relação que movimenta nossas perguntas há milênios e que ainda não obtemos respostas fora da filosofia clássica. Eis o desafio, portanto: o saber o que somos, como somos e para onde estamos nos encaminhando. Nós, todos os seres, os vivos e os inanimados, a humanidade, as árvores, os entes que voam, a Gaia sabedoria.

Estabelecer o nexo de totalidade entre as várias manifestações da vida e compreendermos as variações culturais como momento privilegiado de crescimento recíproco, eis a possibilidade da paz. A utopia derradeira é construída no compromisso global de um mundo (nossas vidas, presentes e futuras; nosso planeta) onde todos somos seus responsáveis, ainda que "já não depende de nós o fato de tudo depender de nós".

Para que não fiquemos estarrecidos com este último pensamento, procuremos refletir acerca do contingente e do necessário, do conjunto de requintes científicos e tecnológicos que atualmente permeiam nossas vidas. Estamos prestes a mapear a totalidade dos genes do nosso organismo e realizamos cirurgias intracorpóreas; do micro ao macrocosmo pretendemos um completo conhecimento e domínio. O elogio da modernidade cantado pelo Fausto era o elogio que fazia à ciência e seu poder de domínio das necessidades; assim também o cogito cartesiano descobre-se como uma razão separada e superior à Natureza. Em contrapartida, isto é, se podemos manipular os genes, nos comunicarmos em tempo real, navegarmos nos espaços micro e macrocósmicos, eis que o que antes se mostrava contingente mostra-se, agora, necessário. "Publicizou-se", isto é, integrou-se culturalmente o contingente, o dispensável à sobrevivência da humanidade de tal forma que o mesmo (o contingente, o que podíamos controlar) torna-se o necessário (o que ora nos controla). Controlar o que nos controla, administrar o que nos administra, prever o que, pelo recuo da providência, ainda podemos realizar na mira do saber e da ética. O descompasso entre as ciências e as humanidades ou da reflexão filosófica favoreceu a violação do nosso direito à vida e o direito da vida perpetuar-se no conjunto harmônico de sua realização. Talvez estejamos aprendendo uma nova sabedoria, ainda não de todo translúcida, mas certamente muito próxima para que passe desapercebida.

Por fim, por trás do rigor e do estilo efetivamente hermético, encontramos vários Serres, embora reconheçamos imediatamente sua idiossincrasia, que o torna único.  Creio que seria inócuo insistirmos em classificá-lo, exprimi-lo em função de enfoques teóricos pré-determinados, apesar de certo ecletismo.

Em suma, verdade e beleza; conhecimento e piedade; ética e ciência; educação e vida; arte e previsão; utopia e possibilidade transitam na esteira da nossa finitude e seus opostos servem-nos de desafios permanentes. A simbiose de suas relações fertilizam novos sítios de saberes que prosperam na abertura de variantes objetivas que o fluxo do tempo percolado nos possibilita, como é o caso das ciências "duras" e humanidades. E por não excluir nada e ninguém, eis, portanto, a qualidade de toda formação: densa e leve a um só tempo.



[1] Michel Serres nasceu em Ager, França, em 1930. Bacharel em letras clássicas (latim e grego), matemática e filosofia. Além de licenciado nestas últimas, transita pela literatura, física, ciências e história das religiões. Atualmente, ocupa a 18º cadeira na Academia Francesa. Sua última visita ao Brasil deu-se em setembro de 1999, para o lançamento de seu livro "Luzes", em São Paulo. Dentre outras obras traduzidas para o português destacam-se: "O Terceiro Instruído", "Atlas", "O Contrato Natural", "A Comunicação", "Notícias do Mundo", "Hermes: uma filosofia das ciências", etc.
[2] O título original em francês de "Diálogo..." é Eclaircissements, constante de cinco entrevistas com Bruno Latour e traduzido em Portugal.  Entre os dias 16 e 18 de setembro de 1999, Michel Serres, além de participar do 1º Congresso Internacional do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Marcos-SP, também fez o lançamento de seu  livro de entrevistas com Bruno Latour, traduzido no Brasil. O livro "Luzes" (Unimarco Editora) tem o mesmo teor do que ora estamos apresentando.