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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

QUEM É MICHEL SERRES?





Humberto Calloni

Filósofo
Doutor em Educação

Professor da Rede Pública Federal no Brasil

Edição
Gerson N. L. Schulz



Michel Serres
O livro "Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo: conversas com Bruno Latour", editado pelo Instituto Piaget, em Portugal, nos ajuda, em grande parte, a conhecer, compreender ou interpretar o pensamento filosófico que constitui o conjunto das reflexões de Michel Serres[1] e sua extensa produção. E é sobre este livro, resultado de uma longa entrevista (durante dois anos) com Bruno Latour (filósofo, antropólogo e professor de sociologia em Paris e Califórnia), que gostaria de tentar repassar uma idéia – pálida, limitada, é verdade –, mas que acredito significativa acerca deste octogenário filósofo francês.[2]

Apesar de sua vasta produção teórica, cuja variedade temática contempla não somente a filosofia, a educação, a literatura, a pintura, a escultura, mas notadamente a ciência e a cultura, Michel Serres é acusado, mesmo por seus pares, de possuir um estilo literário assaz hermético, de difícil compreensão, "estranho": de fazer associações livres, inesperadas, imprevisíveis.

Efetivamente, Michel Serres abandona de vez o uso do tecnicismo conceitual no âmbito de suas reflexões ao perceber que aí também se aloja a possibilidade de divisão, do conflito e da exclusão. Utiliza-se da linguagem padrão, comum, coloquial, dando, porém, a ela, um tratamento refinado, aliando seriedade e elegância, síntese e movimento, o que nos obriga ao uso frequente do dicionário curial. Daí seu estilo, sua marca pessoal, sua independência em relação ao jargão acadêmico, dos verbos e substantivos e também do sentido de sua aparente obscuridade.

Para Serres, a filosofia exige liberdade de pensamento, independência e mesmo solidão... Deve estar associada aos grandes problemas da humanidade, ou melhor, "às grandes questões globais" do ser humano e do mundo (do planeta) em que vive. Ela tem por tarefa a urgente reflexão das relações globais, interdisciplinar, ser criativa, "inventiva" e, "nem senhora nem escrava [...]", ela "procura ajudas, adjuvantes ou valores por todo o lado onde pode, mas... independente"; "inventar o espaço do transcendental, quero dizer, do condicional, das futuras invenções possíveis"; a filosofia tem a tarefa de procurar e fornecer respostas "não apenas aos problemas técnicos – e muitas vezes corporativos – da arte e da ciência: espaço, tempo, história e conhecimento, métodos e demonstrações..., mas ainda, e talvez, sobretudo, às questões simples e inevitáveis, vitais, que sempre levantamos desde a nossa infância e que nunca tiveram respostas senão no plano da filosofia" [e que aí permaneceram?]: "o que dizer da morte individual e coletiva, da violência, do corpo, da pele, dos sentidos, do mar, da pobreza...?". Do mal?


Não queiramos enquadrar Serres numa determinada corrente de pensamento teórico. Ele foge às demarcações, às etiquetas que paralisam o pensamento e criam divergências, preconceitos, rivalidades, ódios, competições e exclusões. Seu método de análise recua diante da função crítica da filosofia, da "filosofia da suspeita", para avançar naquilo que a filosofia tem como predicado essencial: a "invenção das invenções possíveis". De qualquer forma é conhecedor da história da filosofia e, como amante das culturas grega e latina, ele não se recusaria de pertencer à tradição filosófica. Mas adverte que "o valor da história da filosofia, sobretudo para a formação, depende de a abandonarmos depois de nos sacrificarmos a ela. Dediquei-me extensamente a trabalhos sobre Leibniz, Descartes, Lucrécio, Nietzsche ou Kant e a um imenso esforço de edição... creio ter ganhado com isso a liberdade de pensar por mim mesmo", ao arrepio da Academia.

Mas se seu estilo é algo difícil, mesmo exclusivo, talvez seja porque a base de sua reflexão, seu processo de demonstração (onde pretende a unicidade, a clareza, a economia [das palavras], o fechamento, saturação e síntese), advém de um modo de raciocínio matemático, melhor dizendo: inspirado na matemática das estruturas. Seus conhecimentos em matemáticas clássica e moderna, física antiga e moderna, ciências humanas, literatura e história das religiões, permitem ao filósofo um salto estilístico raramente comparável, embora nem por isso original (eis que muitos são os filósofos que recorrem ao conto, à alegoria, à poesia a fim de elucidar seus propósitos, como é o caso dos pré-socráticos, passando por Platão e Aristóteles, Kant, Hegel, etc.). Para Serres, "a filosofia fala a várias vozes, como em fuga e contraponto, serve-se de uma linguagem multivalente, como a matemática, exprime-se por parábolas polissêmicas e, por meio desse pluralismo, produz sentido".

A forma e o conteúdo do pensamento filosófico de Michel Serres estão decisivamente ligados à sua experiência de vida e à sua formação, à sua produção de sentidos.  A matéria de suas reflexões tem, portanto, uma relação fecunda com as suas vivências pretéritas e presentes e que também se lançam para um futuro, onde a sua filosofia se debruça como uma utopia do possível e no horizonte da paz. Mas o ruído de fundo, eis um de seus achados, é a indelével experiência da violência que o homem comete contra si e contra a Natureza, o planeta Terra: contra a Gaia. Ainda jovem, presenciou várias guerras e o dissabor de verificar que a ciência ocultava em seu interior a possibilidade concreta da destruição. "Depois da bomba atômica, tornava-se urgente repensar o otimismo científico, diz-nos o filósofo. E mais: "Peço aos meus leitores que ouçam o deflagar deste problema em todas as páginas dos meus livros. Hiroxima continua a ser o único objeto da minha filosofia".



É interessante observar, porém, que, para Michel Serres, o método de abordagem de um determinado tema resulta do próprio objeto de investigação, sendo por isso variável, flexível, constituindo-se ao longo do percurso. Ou seja, é o objeto de análise que determina a forma de abordá-lo. A análise nunca é linear, nem inaugurada por um conceito que possa abarcar o conjunto de inserções derivativas e que ilumine o caminho percorrido. Sua forma de incursão é sempre relacional, prepositiva, inventiva no sentido de provocar respostas objetivas aos problemas cruciais do nosso tempo. "[...] nunca cheguei a um começo, a uma origem, a um princípio de explicação único, tendo classicamente todas as coisas de estar em coerência ou fazer sistema, ou sentido, mas a um conjunto bem diferenciado, mas organizado de relações". "Permite-me", insiste o filósofo, "fazer notar que cada um dos meus livros descreve uma relação, muitas vezes exprimível por uma preposição singular?"

Trata-se, portanto, do modo inicial de abstração de Serres que lhe confere essa singularidade de pensamento. Ou seja, não abstrai a partir de um conceito, mas "ao longo de uma relação, de uma ligação". Ligação, nó, interface: "Entre sempre me pareceu, e ainda me parece, uma preposição de importância capital". Daí, mais uma vez, e em grande parte, a dificuldade de compreendermos o seu pensamento. Pois sua forma de deslocamento é francamente física: vetorial. "Nunca abstraio a partir de uma coisa ou de uma operação, mas ao longo de uma relação, de uma ligação. A leitura dos meus livros pode parecer difícil porque isso se altera e movimenta constantemente". "Penso vetorialmente. Vetor: veículo, sentido, direção, seta do tempo, índice de movimento ou de transformação. Portanto, cada gesto difere, evidentemente".


Novamente, quando Serres pensa o tempo, "a seta do tempo", não o pensa de maneira linear, tal como um tempo que vem do passado, chega ao presente e se projeta para um futuro. O tempo presente, para o filósofo, não é um conjunto de "agoras", nem uma linha contínua, ininterrupta. É fundamental a noção do tempo em Serres, para entendermos a forma de deslocamento que se opera a partir da idéia de relação, de interface ou de intercomunicação. Neste sentido, segundo o autor, o tempo não se escoa, mas flui caoticamente, "de maneira extraordinariamente complexa, inesperada, complicada [...]". Segundo seu próprio exemplo, o tempo pode ser comparado à dança das chamas de uma fogueira: ora altas, ora cortadas, ora inesperadas, ora verticais. Há fluxos de tempo. Percolação: filtro, "onde um dado fluxo passa e outro não". Nesse sentido, não somos nós que passamos pelo tempo, mas são os elementos, formas, culturas, etc., que se aproximam, que se tornam próximos. O tempo "dobra-se", "amarrota-se". Com estas metáforas, Serres imprime à idéia de tempo qualidades ou simultaneidades (pontos de contatos de ordem significativa; elementos do conhecimento da física atual já presentes de antiguidade de Lucrécio, por exemplo) que ao conceito clássico e linear de tempo não seria possível realizar. É por isso que o filósofo estabelece um diálogo familiar com Lucrécio ou Plutarco, de quem é estudioso, porque elementos significativos na literatura destes autores estão em sintonia com a física moderna. Daí a interface, a simultaneidade operada pelo tempo em que Lucrécio ou Plutarco seriam contemporâneos. Ou seja, a idéia de tempo formulada por Serres e que ainda será, segundo o autor, explorada, em livro específico, não permite que o passado se perca numa superação intransponível, mas se vivifica em elementos "contemporâneos", atuais, presentes.

O Tempo que "flui"


Talvez fique agora mais clara a participação da literatura, da narrativa mítica, da poesia, do conto, da metáfora ou de parábolas na estrutura do pensamento filosófico de Michel Serres. Pois embora sua construção teórica esteja amparada por uma racionalidade, esta não exclui as sensações originadas do conjunto da nossa estrutura biológica onde interagem elementos que desaguam na história do nosso desenvolvimento interpretativo do real, desde a narrativa mítica até o racionalismo científico, de maneira que pode haver tanto mito na ciência quanto ciência no mito. Eis alguns elementos que a idéia de tempo pode sugerir contemporaneidade. Portanto, não excluir o que aparentemente oferece margem ao diferente, à alteridade. A ciência, em suma, não pode e não deve arvorar-se em única detentora da razão, ou seja, ela não contempla a totalidade do racional. Assim também, onde a filosofia não pode dar as respostas procuradas, a literatura pode concorrer a seu favor. Eis o que o filósofo diz a este respeito: "o summum da filosofia pode assentar numa pequena narrativa. Terá sido o Evangelho que me ensinou isso, com o seu uso constante de parábola?". E mais: "A filosofia é suficientemente profunda para fazer compreender que a literatura é mais profunda do que ela".  Mas não pensemos que há nestas frases qualquer demérito a esta ou àquela filosofia. Serres é suficientemente filósofo para reinstalar o que muitas vezes damos por subsumido. A cultura tem essa qualidade, segundo o autor. Mestiçagem, mistura, comunicação, interdisciplinaridade, reciprocidade. Ciências e letras. Isto é, a ciência por si só não nos leva a refletir sobre o holocausto, a morte, a fome, a miséria, a exclusão, "o velho problema do mal", etc.; assim também as humanidades são convidadas ao saber científico. O tempo percolado nos permite a aproximação suficiente entre o sentimento e a razão, o ponto de reunião ou de relação que movimenta nossas perguntas há milênios e que ainda não obtemos respostas fora da filosofia clássica. Eis o desafio, portanto: o saber o que somos, como somos e para onde estamos nos encaminhando. Nós, todos os seres, os vivos e os inanimados, a humanidade, as árvores, os entes que voam, a Gaia sabedoria.

Estabelecer o nexo de totalidade entre as várias manifestações da vida e compreendermos as variações culturais como momento privilegiado de crescimento recíproco, eis a possibilidade da paz. A utopia derradeira é construída no compromisso global de um mundo (nossas vidas, presentes e futuras; nosso planeta) onde todos somos seus responsáveis, ainda que "já não depende de nós o fato de tudo depender de nós".

Para que não fiquemos estarrecidos com este último pensamento, procuremos refletir acerca do contingente e do necessário, do conjunto de requintes científicos e tecnológicos que atualmente permeiam nossas vidas. Estamos prestes a mapear a totalidade dos genes do nosso organismo e realizamos cirurgias intracorpóreas; do micro ao macrocosmo pretendemos um completo conhecimento e domínio. O elogio da modernidade cantado pelo Fausto era o elogio que fazia à ciência e seu poder de domínio das necessidades; assim também o cogito cartesiano descobre-se como uma razão separada e superior à Natureza. Em contrapartida, isto é, se podemos manipular os genes, nos comunicarmos em tempo real, navegarmos nos espaços micro e macrocósmicos, eis que o que antes se mostrava contingente mostra-se, agora, necessário. "Publicizou-se", isto é, integrou-se culturalmente o contingente, o dispensável à sobrevivência da humanidade de tal forma que o mesmo (o contingente, o que podíamos controlar) torna-se o necessário (o que ora nos controla). Controlar o que nos controla, administrar o que nos administra, prever o que, pelo recuo da providência, ainda podemos realizar na mira do saber e da ética. O descompasso entre as ciências e as humanidades ou da reflexão filosófica favoreceu a violação do nosso direito à vida e o direito da vida perpetuar-se no conjunto harmônico de sua realização. Talvez estejamos aprendendo uma nova sabedoria, ainda não de todo translúcida, mas certamente muito próxima para que passe desapercebida.

Por fim, por trás do rigor e do estilo efetivamente hermético, encontramos vários Serres, embora reconheçamos imediatamente sua idiossincrasia, que o torna único.  Creio que seria inócuo insistirmos em classificá-lo, exprimi-lo em função de enfoques teóricos pré-determinados, apesar de certo ecletismo.

Em suma, verdade e beleza; conhecimento e piedade; ética e ciência; educação e vida; arte e previsão; utopia e possibilidade transitam na esteira da nossa finitude e seus opostos servem-nos de desafios permanentes. A simbiose de suas relações fertilizam novos sítios de saberes que prosperam na abertura de variantes objetivas que o fluxo do tempo percolado nos possibilita, como é o caso das ciências "duras" e humanidades. E por não excluir nada e ninguém, eis, portanto, a qualidade de toda formação: densa e leve a um só tempo.



[1] Michel Serres nasceu em Ager, França, em 1930. Bacharel em letras clássicas (latim e grego), matemática e filosofia. Além de licenciado nestas últimas, transita pela literatura, física, ciências e história das religiões. Atualmente, ocupa a 18º cadeira na Academia Francesa. Sua última visita ao Brasil deu-se em setembro de 1999, para o lançamento de seu livro "Luzes", em São Paulo. Dentre outras obras traduzidas para o português destacam-se: "O Terceiro Instruído", "Atlas", "O Contrato Natural", "A Comunicação", "Notícias do Mundo", "Hermes: uma filosofia das ciências", etc.
[2] O título original em francês de "Diálogo..." é Eclaircissements, constante de cinco entrevistas com Bruno Latour e traduzido em Portugal.  Entre os dias 16 e 18 de setembro de 1999, Michel Serres, além de participar do 1º Congresso Internacional do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Marcos-SP, também fez o lançamento de seu  livro de entrevistas com Bruno Latour, traduzido no Brasil. O livro "Luzes" (Unimarco Editora) tem o mesmo teor do que ora estamos apresentando.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

AS COSMOVISÕES DA FILOSOFIA



SEÇÃO: ESQUEMA 1


Dr. Gerson N. L. Schulz
Professor do Ensino Superior no Brasil




Você sabe o que é uma "cosmovisão"? Já ouviu falar em "positivismo", "materialismo-histórico", "fenomenologia", "genealogia" e "perspectivismo"? Não? Então, na "seção esquema 1" de hoje, tenha acesso a um vídeo sobre o assunto e a um quadro comparativo.

E, após assistir ao vídeo e ler o quadro, analise seus filmes prediletos, seus livros, desenhos e outros, e descubra baseado em qual das teses abaixo os autores se inspiraram para escrever, produzir e pintar.








POSITIVISMO
MATERIALISMO HISTÓRICO

FENOMENOLOGIA

GENEALOGIA
PERSPECTIVISMO

COMTE – DÜRKEIM

HEGEL – MARX

HUSSERL – WEBER

NIETZSCHE – FOUCAULT

LEIBNITZ – NIETZSCHE

Funcionalismo

Dialética

Estruturalismo

Hermenêutica

Ontologia

* A sociedade é natural, representa a natureza das relações humanas;
* A sociedade evolui naturalmente de acordo com as leis naturais coercitivas em relação aos sujeitos;
* Para conhecer a sociedade o cientista deve empregar o método científico de forma neutra, o sujeito que investiga apreende a verdade;
* As leis específicas de evolução da sociedade determinam as funções sociais de cada fato social, grupo ou instituição. Problemas sociais como a fome, a miséria ou o desemprego são disfunções sociais e precisam ser corrigidos para que o organismo funcione bem.

* A sociedade é histórica, resulta do movimento contraditório dos sujeitos em relação às estruturas sociais;
* A sociedade se transforma pela ação contraditória dos grupos sociais que agem condicionados por estruturas sociais historicamente dadas;
* Todo objeto está inserido numa totalidade histórica dada;
* Todo sujeito está limitado na apreensão do objeto pelo horizonte histórico que compartilha;
* A sociedade esta estruturada a partir das relações econômicas e sociais correspondentes a cada período histórico;
* Um dado desenvolvimento tecnológico e uma dada relação de produção comum geram distintas classes sociais;
* A luta das classes sociais está condicionada pelo horizonte histórico destas relações sociais sob o qual se realiza;
* A sociedade chegará ao grau máximo de desenvolvimento histórico, humano, social quando, finalmente, a luta de classes ficar insuportável entre proletários e burgueses e os primeiros tomarem os meios de produção, gerando o socialismo e depois, o último estágio, o comunismo.

* A sociedade é cultural, conforma-se de acordo com a vontade dos sujeitos;
* É inerente à sociedade a existência de uma estrutura própria de desenvolvimento cuja descoberta de sua dinâmica cabe ao cientista social ou ao filósofo;
* As alterações dos processos sociais são resultantes das ações de sujeitos ou grupos que se associam para fazer prevalecer sua vontade;
* Para cada objeto e para cada sujeito há inúmeras possibilidades de apreensão, não há verdade, mas interpretações relativas a cada sujeito sob seu ponto de vista;
*A relação entre sujeitos e grupos sociais é permeada pelas disputas de poder que determinam a realização dos projetos do grupo vencedor;
* A forma de funcionamento da sociedade resulta destas disputas.

* A sociedade é aquilo que se interpreta de si mesma;
* As alterações dos processos sociais são o resultado dos discursos que a própria sociedade produz, então não existem essências de classes ou estamentos sociais;
*A genealogia busca o valor da origem e a origem do valor;
* O poder não está na riqueza ou na pobreza de alguém porque o poder não é algo que se possua, que se venda, ele é uma relação;
* Tanto ricos e pobres podem exercer poder, a sociedade então se configura e se divide entre aqueles que exercem mais ou menos poder não sendo, necessariamente e o tempo todo, sempre apenas o grupo mais rico o grupo dominante;
* A genealogia não se preocupa em saber o que é certo ou errado do ponto de vista moral, lógico ou epistemológico, entende que a verdade é um discurso que é aceito por determinado período de tempo e que há várias verdades que se enfrentam podendo prevalecer uma ou várias delas, dependendo do poder do grupo que a elabora e do poder do discurso de verdade produzido. 


* A sociedade e todas as instituições dela derivadas são apenas uma invenção;
* A sociedade é fruto daquilo que é capaz de interpretar sobre si mesma e o parâmetro para isso é o poder de interpretação dos indivíduos;
* Qualquer das teorias científicas, filosóficas, históricas, sociológicas são apenas um ponto de
vista;
* A verdade é o ponto de vista do expectador e depende dos parâmetros que ele toma para elaborá-la;
*As ciências humanas e naturais são apenas construções culturais sujeitas ao contexto ontológico dos indivíduos.
* Não há certo e errado em campo algum do saber, o que há são interpretações;
* O próprio conhecimento é uma invenção;
* Não há fatos, somente interpretações;
* Não há mais sujeito, somente indivíduos;
* O perspectivismo não trabalha com a ideia de "normal" e "patológico", o "moral" e o "imoral", pois eles também são invenções;
* Aquilo que se chama "verdade" é sempre aquilo que se presta para resolver um problema até que apareça outra solução melhor;
* Para o perspectivismo é inútil tentar compreender a totalidade, pois o conhecimento é sempre um fragmento. É sempre "mutatis mutandis".


terça-feira, 25 de agosto de 2015

A ILUSÃO DA MAIS-VALIA




Gerson N. L. Schulz
Professor de Filosofia no Brasil




Apiacás com João Ramalho - SP
Foto do arquivo pessoal de Gerson Schulz
Era julho de 2015, meio dia. Eu estava tomando um café com sanduíche num bar popular na esquina da rua Apiacás com a João Ramalho, nas Perdizes, em São Paulo. Estava calor. Apesar de ser inverno, o dia estava ensolarado e com nuvens esparsas.

Eu admirava – com a perspectiva de um cliente – a destreza e a rapidez com que o garçom preparava lanches, servia coxinhas, pães de queijo, aquecia esfirras no micro-ondas e, quase ao mesmo tempo em que cortava laranjas para espremer e preparar o suco que eu havia pedido, conversava com seus clientes conhecidos que iam chegando para o almoço. Outro colega dele cortava limões para preparar bebidas. Outro cozinhava atrapalhado pelos vapores quentes que saiam das panelas.

De repente as mesas vazias se encheram rapidamente. Duas mulheres jovens, com uniformes azuis que pareciam ser comerciárias, solicitaram sanduíches para levar. Induzi que estavam em horário de almoço e não teriam sequer tempo para comer ali.

Os trabalhadores no bar Nova Lisboa - SP
Foto do arquivo pessoal de Gerson Schulz


Havia umas trinta mesinhas de quatro lugares naquele estabelecimento que rapidamente ficaram cheias. As pessoas que as ocuparam não eram muito diferentes. Eram, na maior parte, pessoas vestindo uniformes. Entregadores de gás, vendedores, operários de fábrica e oficinas mecânicas, garis. E eu estava lá e, por um momento, me perguntei: o que fazia ali? Uma vez que aquele não era meu universo!

Não por preconceito, mas porque não sou paulistano, não sou operário de serviço pesado e não deveria estar comento sanduíches gordurosos de boteco que fazem mal para a saúde de qualquer um, mas foi circunstancial...

O mais estranho era estar ali pensando que não devia estar ali e analisando, ao mesmo tempo, as cenas. Pensava sobre quem eram aquelas pessoas e como suportavam sua rotina de trabalho. Então me lembrei de Karl Marx (1818-1883) que afirmava que o capitalismo era nefasto porque espoliava os trabalhadores, ao explorar o único bem que eles têm, sua força de trabalho.

Karl Marx
A teoria de Marx diz que os donos dos meios de produção (os capitalistas), detêm o capital e como eles detêm os modos de produção (as máquinas, os implementos, as terras e etc.), eles pagam o salário ao trabalhador que, em troca, vende sua força de trabalho (barata) ao capitalista. Barata porque, para Marx, ninguém ganha o quanto merece!

Assim, na esteira de Marx, eu me perguntei, por exemplo: em quanto tempo um pedreiro, um entregador de mercadorias, um motorista, um lixeiro, um empregado qualquer daqueles ali, naquele dia, precisava trabalhar para produzir seu salário?

Marx, em "O Capital", calculou que o tempo da metade de um dia é o tempo necessário que qualquer operário leva para produzir a riqueza para o capitalista pagar o seu salário. Dessa forma, o restante do dinheiro do tempo trabalhado (da outra metade do dia), fica com os donos dos meios de produção. A esse excedente Marx chamou de "mais-valia".

Por isso, de acordo com Marx, quando a classe trabalhadora tomasse consciência dessa espoliação – do fato de que o patrão fica com o resto da produção de um dia de trabalho e com a produção de todos os outros dias de trabalho do mês inteiro, faria uma revolução e tomaria para si os meios de produção. Momento em que deixariam de existir as classes sociais e adviria o regime socialista. As fábricas e os comércios iriam para as "mãos" de seus "donos legítimos", os trabalhadores; e a exploração desapareceria da face da Terra porque se acabariam as classes sociais, desapareceriam ricos e pobres.

Mas hoje essa teoria soa romântica e me soou também quando eu olhei para aquelas pessoas no bar da esquina da Apiacás com a João Ramalho. As mãos endurecidas, a conversa sobre um de seus maiores lazeres (futebol), mas também sobre o quando já tinham trabalhado naquela manhã antes do almoço. Suas vidas rotineiras que tinham por objetivo ganhar seu salário para pagar aluguel, alimentos, transporte, roupas, mandar os filhos para a escola, certamente ruim, da periferia onde moram.

Trabalhadores do Brasil! Gente que passa (como em São Paulo) horas dentro de ônibus e metrôs lotados, em pé, suados! Será que sonham? Perguntei-me naquele meio dia. Sonham, sim, pois em uma mesa havia um trabalhador que sonhava em comprar um par de alianças a prestações e se casar.

É, mas a utopia de Marx e Engels não aconteceu em lugar algum. Nem nos países do Leste europeu houve o fim das classes sociais nem na ilha dos Castro e nem na Ásia. O que ocorreu e ocorre é uma experiência malfadada de fascismo sob a alegada "ditadura do proletariado" em Cuba, na China, Camboja, Vietnã e em outros lugares do mundo. A "ditadura do proletariado" de Marx (esse domínio da sociedade por parte dos trabalhadores e o fim das classes sociais) é um sonho que, na prática, se transformou em pesadelo para milhões no mundo real pela falta de liberdade, de democracia, pela insistência na ideia de economia planificada dos socialismos! E, na antiga União Soviética, até por escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade.

Mas a minha principal reflexão ali sentado junto àquele balcão de bar foi sobre o grau de justiça que há (ou não há) nos argumentos de Marx quando ele se preocupa com os trabalhadores. Então lembrei que se tem um grande problema em seus argumentos quando ele fala da mais-valia e lembrei também de um autor chamado Eugen Von Böhm-Bawerk (1851-1914) e de outro chamado Ludwig von Mises (1881-1973) que, separadamente, refutaram Marx e mostraram porque a mais-valia é um argumento falacioso.
Eugen Von Böhm-Bawerk

Para ambos, Marx não considerou que o capitalista tem que investir na produção, nas máquinas, nas matérias primas e pagar os salários dos empregados, tudo isso antes de receber o possível "lucro". Na prática, não há qualquer garantia de que o empregador receberá aquilo que investiu e mais um pouco (o capital necessário para continuar mantendo a produção). Assim, mesmo que o trabalhador fosse explorado e oprimido, ele já recebeu seu salário antes mesmo do capitalista iniciar a venda de suas mercadorias. Mas há exploração?

Eu penso que Marx acusa os capitalistas de apenas explorarem os trabalhadores, mas não diz que os capitalistas também precisam trabalhar, senão braçalmente, intelectualmente – realizando negócios para vender seus produtos a outros capitalistas, viajar para encontrar matérias-primas mais baratas, investir, se arriscar no mercado e pagar os impostos que os governos exigem para permitir que alguém inicie um negócio.

A teoria de Marx me levou a um exemplo incomum, mas não impossível. Vamos imaginar um pequeno produtor rural que tem um sítio onde produz hortaliças juntamente com sua família (esposa e filhos). Esse pequeno produtor precisa conseguir a terra (que pode ser sua por herança ou pode ser arrendada). Para produzir, ele precisa comprar as sementes, o adubo, os herbicidas, irrigar a lavoura. Suponhamos que em determinado período a safra foi maior do que ele pôde colher com a ajuda de seus próprios braços, da esposa e filhos e ele precise contratar um empregado para ajudá-lo. Ele negocia com o empregado um valor de $ 50,00 dinheiros por dia de serviço e lhe paga ao final da semana o combinado, ou seja, $ 250,00 dinheiros. Esse trabalhador, embora tenha trabalhado de segunda-feira a sexta-feira, ao fim da semana terá recebido seu pagamento, o pequeno produtor, não. Ele terá que esperar até o dia da feira-livre (no sábado) na cidade (onde geralmente ele vende seus produtos). Transportá-los (e com isso gastar tempo, combustível, dinheiro para alimentação de sua família durante o período de estadia fora de casa e etc.), e ainda torcer para conseguir vender todas as hortaliças na feira-livre. Ele assume algo que o trabalhador não pode assumir devido sua condição (e não assume porque não precisa), o risco.

O feirante poderá ou não conseguir vender todos os seus produtos. E mais, e se os outros concorrentes feirantes também tiveram superprodução naquele período? Isso significa que o preço das hortaliças, devido a grande oferta, será menor que na safra anterior, o lucro corre, assim, o risco de ser menor.

Ao seguir o raciocínio do feirante que contrata um empregado, seria possível dizer que um gerente de banco privado é um "oprimido" porque recebe salário e o pequeno produtor rural é um capitalista, algo que é um disparate porque um gerente de banco detém um poder de compra muito maior que o pequeno produtor rural.

Tênis de marcas famosas
fabricados em países que usam mão de obra
sabidamente escrava ou semi-escrava
como Cambodia e Vietnã
Fonte: arquivo pessoal de
Gerson Schulz

Mises aponta que, de acordo com Marx, todos os bens são fruto apenas do tempo gasto para produzi-lo e do trabalho do operário. Em outras palavras, Marx diz que uma mercadoria custa, por exemplo, $ 10,00 dinheiros apenas porque nela o trabalhador empregou um tempo socialmente gasto para produzi-la, mas há, para Mises nessa premissa, um erro. Nenhum produto vale apenas pelo tempo socialmente gasto pelo trabalhador para fabricá-lo. Pois se fosse assim, como poderíamos comparar o trabalho de um escultor com o trabalho de alguém que limpa a sarjeta? As pessoas pagam muito mais pela arte do escultor (como também pagam por uma garrafa de vinho caro ou por um quadro) do que a um faxineiro ou jardineiro que limpe suas casas ou gramado e, ao contrário do que diz Marx, isso nada tem que ver com o tempo socialmente gasto para produzir uma mercadoria ou prestar um serviço. Isso tem que ver com a relação psicológica que as pessoas mantêm com as mercadorias.

Marx também afirma em "O Capital" que a exploração existe porque a mercadoria rende ao capitalista muito mais além dos valores que ele gastou para produzi-la, mas Mises faz notar que ele esquece que a forma como as mercadorias são consumidas se transforma ao longo do tempo (e um dos fatores que lembro para mudar isso é a inflação), de forma que o preço de uma mercadoria hoje não será o mesmo amanhã. Marx, aqui, toma a parte pelo todo e quer forçar a conclusão a se tornar universal, mas ela continua valendo apenas para o âmbito particular.

O preço da mercadoria no mercado do futuro poderá ser maior, gerando mais dinheiro ao capitalista, mas também poderá ser, por infortúnio, menor, caso não seja vendido rapidamente. Isso, faço lembrar, sem abordar as mercadorias que são perecíveis e que precisam ser consumidas logo, mas que nem sempre são.

Marx comete outro erro quando, ideologicamente, quer instaurar o socialismo ao dizer que a exploração é a essência do capitalismo e por esse motivo ele deveria ser abolido. Isso não é verdade de acordo com um raciocínio simples e empírico. Suponhamos que um empresário que deseja abrir uma fábrica de sapatos faça o seguinte cálculo: "para abrir a fábrica eu (o empresário) preciso saber se ela dará lucro (do qual parte eu investirei na produção, parte pagarei os salários dos empregados e parte ficará para mim a fim de me sustentar juntamente com minha família). Como eu faço isso?" Ao fazer um exercício simples, por exemplo, suponha-se que para produzir um par de sapatos eu gaste $ 50 dinheiros. Para fazer esse cálculo é preciso saber ao menos os preços das matérias primas, o salário (em média) que terei que pagar a cada empregado participante do processo de produção, os meios de produção, seu desgaste natural e as matérias de produção auxiliares, preço das instalações, aluguéis e outros.

O outro fator é o capital variável que é a parte do capital usada pelo empresário para pagar os salários. O que Marx fez foi calcular o custo de produção e subtraí-lo do preço final do produto. Ele percebeu que ambos não eram iguais, pois havia um valor que aparecera como que por "mágica" sobre o produto. A esse produto, ele chamou "mais-valia". Porém, se na prática o empresário que quer montar uma fábrica de sapatos fizer o cálculo e, supomos que o cálculo apresente o resultado positivo de lucro como $ 20,00 dinheiros e eu somar a isso os $ 50,00 dinheiros, eu terei $ 80,00 dinheiros. O que Marx questiona é o surgimento dos $ 20,00 dinheiros e ele afirma que esse "plus" é força de trabalho não paga pelo capitalista e que é produzida pelo trabalhador. Isso na prática não é verdade porque nem sempre se terá $ 20,00 dinheiros para pagar o trabalho do assalariado, isso vai depender de uma série de condições independentes da vontade do capitalista como intempéries, custos de transporte, armazenamento; no caso dos sapatos, a moda, as tendências e etc. Outra variável que eu acrescento é o fato que todo empreendedor sabe, que por meses ou anos uma empresa costuma não dar lucro e, muitas vezes, o empreendedor tem que recorrer a empréstimos para cobrir até mesmo custos de produção ou salários. De certa forma, a mais-valia pode ocorrer, mas ela não é uma regra como Marx postulou, ela é uma exceção dentro do sistema capitalista.

Mises
Outro argumento que pode rebater a crítica marxiana à exploração capitalista quanto à mais-valia (considerando que Marx afirmou que o aumento da riqueza se dava em relação à exploração dos trabalhadores) é o fato empírico de que, nos dias atuais, percebe-se que as empresas que mais têm lucro no mercado não são aquelas que dispõem de grande montante de empregados (cuja força de trabalho, supostamente, geraria mais-valia para o capitalista), mas sim as que dispõem de poucos empregados.

Ora, se são as empresas que dispõem de poucos empregados que mais dão lucro, não tem sentido o argumento de Marx porque se demonstra aí que o capital gerado não advém de uma suposta exploração do trabalho do operário, o lucro tem, isto sim, outra fonte.

Nessa perspectiva, está certo, em parte, Böhm-Bawerk quando diz que "os socialistas desejam que os trabalhadores recebam mais do que trabalharam" e "mais do que receberiam se fossem empresários".

Eu divagava – sozinho ali no balcão – sobre esse assunto quando percebi que o garçom servia, apressado, uma bebida amarela em pequenos copos de vidro. Percebi que em todas as mesas estava presente aquela bebida, que cada vez mais ela era pedida. Fiquei curioso. Vendo-o apressado servindo, pedi desculpas por atrapalhá-lo e perguntei o que era aquilo. Ele me disse que era "batidinha", uma mistura de água, cachaça, suco de maracujá e açúcar. Eu disse: "ah...". Foi ali que percebi também que, esteja Marx errado ou não, os trabalhadores (especialmente aqueles que 'pegam no pesado') precisam se "drogar" bebendo álcool para aguentar o serviço a que estão submetidos todos os dias. Mas também pensei que os ricos também se drogam, só que com drogas mais caras como uísque doze anos e outras coisas... O fato é que nem o socialismo e nem o capitalismo nos fizeram felizes. Mas a pergunta que fica é: "o que nos faria felizes?"

Diante daquelas mãos calejadas dos trabalhadores. Dos rostos cansados. Da situação miserável de pobreza, espera por dias melhores e mais felizes e rotina monótona que assola nossas vidas medíocres, penso que naquele dia os operários no bar da Apiacás com a João Ramalho materializavam diante deste professor que vos escreve a situação prática que condiz com a frase predileta de um velho amigo meu que dizia: "só bebendo".


Referências

CARCANHOLO, Reinaldo. Sobre a Ilusória Origem da Mais-valia. In: Revista Crítica Marxista. São Paulo: v.16, p.76-95, 2003.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro 1, v. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.