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quinta-feira, 15 de maio de 2014

MATRIARCADO - PRIMEIRA FORMA DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL

Matriarchy - First Form of Social Organization


Prof. Dr. Oscar Luis Brisolara

Professor do Instituto de Letras 
e Artes da Universidade Federal do Rio Grande - FURG
Autor do livro: Sancta Lucrezia dei Catannei

Texto publicado originalmente em:


*Aqui reproduzido sob licença do autor

[...] Este trabalho se propõe descrever a linguagem enquanto objeto de uma experiência numinosa e arcaica. Esta experiência da linguagem está profunda e inextricavelmente ligada a uma certa concepção arcaica de tempo, a uma certa concepção arcaica de Ser e de Verdade. [...] a linguagem do aedo, i. e., a canção que ao mesmo tempo é veículo de uma concepção do mundo e suporte de uma experiência numinosa. (TORRANO, (2011), Teogonia. p. 14).


Professor
Dr.
Oscar Luis Brisolara

O objeto desta explanação é o matriarcado. Quando se fala em matriarcado, entende-se um grupo social ginecocrático, em que o poder é institucionalmente exercido pelas mulheres, de modo especial pelas mães de uma comunidade. Além do mais, a linha sucessória e hereditária dá-se pelo lado feminino.

Etimologicamente, o termo matriarcado forma-se do radical latino mater (mater, matris = mãe) e do radical grego arque (ἀρχή, ἀρχῆς = poder), sendo, portanto, um termo híbrido.



Há uma forte hipótese originada no século XIX segundo a qual os primeiros sistemas de governo, de modo especial no ocidente, tenham sido matriarcados. Um antropólogo e jurista suíço, Johann Jakob Bachofen (1815 – 1887), foi o primeiro pesquisador a lançar uma obra que apresenta esse ponto de vista. Trata-se do livro Myth, Religion, and Mother Right, publicado pela Universidade da Basiléia, onde Bachofen lecionou Direito Romano de 1841 a 1845.

Creta - Grande Deusa –
Deusa das Serpentes
O autor suíço reuniu uma série de documentos, tentando demonstrar que todas as sociedades humanas começaram a organizar-se a partir das mulheres e em torno delas.

A seguir, a partir de 1861, o arqueólogo britânico Sir Arthur Evans dedicou-se às escavações da civilização Minoica, que se desenvolveu na Ilha de Creta, no Mar Egeu, entre os séculos XXX e XV a. C., cujos primeiros habitantes remontam a, pelo menos, 128.000 anos a. C. Evans afirmou, a partir de suas descobertas, que a civilização aí desenvolvida, tratava-se de uma sociedade matriarcal. Chegou a essa conclusão a partir da descoberta de que esse povo cultuava exclusivamente divindades femininas. 

Pesquisas posteriores sobre a Civilização Minoica revelaram que, além de haver um culto unicamente voltado a entidades femininas, apareciam também mulheres retratadas em funções sacerdotais, administrativas e políticas. 

Esses primeiros estudos serviram de base para pesquisadores do século XX, especialmente da lituana Marija Gimbutas, que desenvolveu relevantes estudos sobre o Neolítico e a Idade de Bronze na Europa Antiga, tendo como tema central a religião da Deusa Mãe, trabalho que concluiu na Universidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. 

As três obras mais relevantes da autora são: "The Goddesses and Gods of Old Europe" ("As Deusas e Deuses da Antiga Europa"); "The Language of the Goddesses" ("A Linguagem das Deusas") e "The Civilization of the Goddess" ("A Civilização da Deusa"). 

Nessas obras, a autora desenvolveu estudos sobre a família e os padrões familiares, as estruturas sociais, a arte, a natureza, a alfabetização e os conhecimentos das comunidades europeias na Idade do Bronze, mas, de modo todo especial, a religião, em que esses povos dão primazia aos cultos das divindades femininas. Segundo sua interpretação, essas sociedades ginecocratas (γυνή, γυναικός = mulher e κράτος = poder) eram pacíficas, acolhiam os homossexuais e gozavam de bom desenvolvimento econômico. 

O culto da Grande Mãe é o ritual religioso mais importante de toda a Civilização Minoica. Essa divindade é um arquétipo. É mãe de todos os homens e de tudo quanto existe na terra, mas é, essencialmente, mãe de todos os deuses. Segundo Jean Tulard:

O traço mais original da religião cretense parece ter sido uma predileção pelos símbolos. Tal simbolismo atribui um valor emblemático a todo o material sagrado e, como o símbolo é suficiente para criar uma ambiência divina, não se torna necessário que o deus seja visível. Esse simbolismo de um caráter particular, no entanto, se casa perfeitamente com um incontestável antropomorfismo. (TULARD, 1962, p.50-51).
Essa divindade feminina é senhora do céu, da terra, do mar, dos homens e dos infernos. Apresenta-se sob a forma de pomba, de árvore, de âncora, mas a sua forma preferencial é a de serpente. É símbolo de harmonia, paz e amor. Seu traço fundamental é a fecundidade.

Para entendermos o papel das divindades na civilização Neolítica e na Hera do Bronze, é necessário entender o mito como o entendiam as sociedades primitivas. Ele não tem o sentido que damos hoje à fábula, lenda ou ficção. Precisamos entendê-lo como nos apresenta Mircea Eliade:
[...] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. (ELIADE, (1972), Mito e realidade. p. 9).
Portanto, nesse sentido, o mito narra algo realmente ocorrido num tempo primordial, mediante intervenção de seres sobrenaturais. Ainda Torrano, nos capítulos prefaciais da Teogonia, falando da linguagem sagrada do mito diz:
A recitação de cantos cosmogônicos tinha o poder de pôr os doentes que os ouvissem em contato com as fontes originárias da Vida e restabelecer-lhes a saúde, tal o poder e impacto que a força da palavra tinha sobre seus ouvintes. (TORRANO, 2011, Teogonia. p. 19).


Gaia, by Anselm Feuerbach (1875)
De acordo com a crença grega, o universo, no princípio dos tempos, era vazio e sem vida, regido por um princípio assexuado e amorfo, denominado Caos (Χάος), que deu a origem e o começo a tudo quanto existe. Além do mais, uma noite (Νυξ) perene pairava sobre tudo. Nesse eterno vazio, surgiu Eros (Έρως), o desejo perene de movimento e mudança. Pela força de Eros, gerou-se no Caos, a primeira grande divindade, maternal e feminina apresentada na Teogonia de Hesíodo como Gaia.


É a terra mãe concebida como elemento primordial, enquanto que Deméter é a terra cultivada. Gaia é a mãe que gera e nutre todos os viventes e, por fim, acolhe as cinzas de todos os mortos. Conforme afirma ainda Torrano:
Evocada ou não, contemplada ou sem templo, a Deusa Mãe está presente e nos nutre. As feras, ainda que tenham perdido a inocência e a natural crueldade, são sempre as suas crias. (TORRANO, (2011), Teogonia, p. 9).

A Grande Mãe, caracterizada pelos gregos como Gaia (´H Γαῖα), originou-se de um processo partenogênico, isto é, sem qualquer intervenção de elemento masculino. Contém em si mesma a totalidade da criação e permanece em todos os seres e em todo o universo. Envolve todos os ciclos da vida, desde o nascimento, nutrição, crescimento e por fim a própria morte. Ela é a terra mesma.


O homem curvava-se diante do sagrado poder feminino que gerava a vida e perpetuava a espécie. Isso por milênios, sem que suspeitasse de que ele participava desse processo divino. Enquanto hordas de machos corriam pelos campos e florestas na busca de presas para alimentar a comunidade, as mulheres permaneciam nas aldeias com os filhos. Dedicavam-se ao cuidado das moradias, tomavam conta dos animais domésticos e mantinham uma pequena agricultura caseira.

Advieram, então, a Idade do Bronze e depois a Idade do Ferro, e as pacíficas sociedades matriarcais entraram em declínio. Tribos guerreiras e nômades trouxeram a violência e a devastação. E, por fim, o homem deu-se conta que rebanho que não tinha machos não se reproduzia. A concluir seu papel na reprodução humana foi apenas um passo a mais.

Instituíram, de aí por diante, o patriarcado, fundado na violência, na guerra e na destruição. Criou-se um panteão de deuses guerreiros em substituição ao reinado da Grande Mãe.

Esse processo originou um sistema que dava primazia à destreza e à força física, gerando uma civilização do logos e da razão. Seguiram-se até mesmo correntes materialistas, passando a negar a supremacia do espírito sobre a matéria. Essa é uma versão matriarcal da gênese das primeiras comunidades humanas que hoje é defendida como mais provável por muitos antropólogos.

       
* Mais textos deste autor em:



REFERÊNCIAS:

1.   BACHOFEN, Johann Jakob. (1887). Myth, Religion, and Mother Right. Basiléia: Editora da Universidade da Basiléia.

2.   ELIADE, Mircea. (1972). Mito e realidade. São Paulo: PERSPECTIVA.

3.   GIMBUTAS, Marija. (1974).The Goddesses and Gods of Old Europe. Los Angeles: University of California Press.

4.   ______. (1989). The Language of the Goddesses. Los Angeles: University of California Pres.

5.   ______. (1994)  The Civilization of the Goddess. Los Angeles: University of California Pres.

6.   HESÍODO. (2011). Teogonia. São Paulo. Iluminuras.

7.   TULARD, Jean. (1962). Histoire de la Crète. Paris : PUF.


terça-feira, 13 de maio de 2014

DESEJO DE ESPERANÇA


"Geralmente as coisas não são como


queremos que


sejam; porém, seria a vitória do nosso


egoísmo se fossem,


por isso celebro que, ao menos, temos a


esperança!"



Autor: Gerson Nei Lemos Schulz