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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

DIREITO E EDUCAÇÃO

Profa. Mestre em Planejamento e Políticas Públicas, Pedagoga, Bacharel em Direito e Doutora em Educação,
Maria Aparecida Nascimento da Silva



Para discorrer o tema "Direito e Educação" é importante evidenciar a Constituição Federal de 1988 que exerce significativa influência normativa no seio da sociedade no Brasil.
Profa. Msc. Maria Aparecida Nascimento da Silva






Se fizermos uma retrospectiva histórica desde as origens da civilização humana, sempre existiu alguma forma de educar, pois o ser humano é o único ser vivo capaz de observar, julgar e buscar soluções de problemas numa perspectiva crítica, inerente ao seu meio social, político e cultural. Nesse contexto, todos nós, com a convivência humana, estamos exercendo o papel de educadores, agimos com base na reflexão, a partir de ações conscientes e intenções definidas. Assim, obviamente a educação não está focalizada exclusivamente na escola, aplica-se a todas as áreas do conhecimento empírico, filosófico, teológico e científico.
Mas, em função da complexidade e condições que se contextualizam no ato de educar, os doutrinadores sentiram a necessidade de discutir algumas problematizações que se destacam no âmbito educacional, no que se refere à educação de cunho científico que o Estado deve oferecer.
Assim vale mostrar o Artigo 6° da Constituição Federal de 1988 que evidencia: São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Os direitos sociais são aqueles que objetivam garantir aos indivíduos condições materiais, sendo essas indispensáveis para o pleno gozo dos seus direitos. Assim sendo, exigem do Estado uma intervenção na ordem social que possibilite assegurar a justiça distributiva. Tal justiça se efetiva por meio de atuação estatal com a finalidade de diminuir as desigualdades sociais, por isso exigem custos e, portanto geralmente se realiza a longo prazo.
Fonte da imagem:www.advogadosantacatarina.com.br
Vale ressaltar que esses direitos se originaram da Revolução Industrial no século XIX e, ao mesmo tempo, a evolução tecnológica passou a substituir o homem pela máquina, surgindo o desemprego em massa e o grande excedente de mão-de-obra. Assim fluíram as diversas desigualdades sociais, fazendo com que o Estado se visse diante da necessidade de proteção ao trabalho e a outros direitos como: a saúde, a educação, ao lazer, entre outros.
O artigo 6º da Constituição Federal de 1988 se refere de forma genérica aos direitos sociais por excelência, como o direito à saúde, ao trabalho, ao lazer entre outros. Partindo desse pressuposto comprova-se que os direitos sociais buscam a qualidade de vida dos indivíduos.
A Constituição Federal de 1988 se preocupou com os direitos sociais do brasileiro quando regimentou uma série de dispositivos que garantem ao cidadão todo o básico necessário para a sua existência digna.
Tais fundamentos permitem compreender que por direito social entende-se toda e qualquer condição que viabiliza a qualidade de vida ao ser humano, objetivando seus avanços como cidadão nos diversos âmbitos da sociedade do qual está integrado. Então é relevante salientar o eixo norteador de nossa reflexão: a educação. Essa se caracteriza como um processo social. Sua especificidade está relacionada ao fato de ser uma ação em que a sociedade constrói situações de aprendizagem e tem como finalidade a adaptação do indivíduo às várias formas de entender sua própria realidade e intervir sobre ela.
Nesse sentido o direito à educação significa o direito de cada pessoa ao desenvolvimento pleno, ao preparo para o exercício da cidadania, bem como a qualificação para o trabalho. Constitui, assim, a ação educativa, um ato político intencional, que sistematiza e programa experiências de aprendizagem, com objetivo de incentivar os indivíduos a se relacionarem de certa maneira, e se sentirem na sociedade de acordo com os condicionantes sócio-políticos dos diversos relacionamentos.
Para José Libâneo (1991), educar é conduzir de um estado ao outro, é modificar em certa direção o que é suscetível de educação. O ato pedagógico pode, então, ser definido como atividade sistemática de interação entre as pessoas. Interação essa que se configura numa ação exercida sobre o sujeito, visando a provocar neles mudanças tão eficazes que os transformem em elementos ativos dessa própria ação exercida. Exigem-se, aí, três componentes: um agente (alguém, um grupo, um meio social); uma mensagem (conteúdo, métodos, habilidades, etc.); e um educando (alunos, uma geração etc.). Ele ressalta que o especificamente pedagógico está na imbricação entre a mensagem e o educando, propiciado pelo agente.
Nessa mesma direção, Dermeval Saviani (1980) define educação como um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora no seio da prática social global.
Fonte:www.senado.gov.br
Paulo Freire diz que educação “é possível para o homem, porque este é inacabado. A educação, portanto, implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem. O homem deve ser sujeito de sua própria educação” (1979).
Libâneo, Saviani e Freire evidenciam que a educação é promovida pela escola, por outras instituições não formais e por meios de comunicação de massa e outras agências sociais.
Concluindo, educação não é um ato isolado, exclusivamente individualizado, é um ato que exige comunicação, de interesses recíprocos de aperfeiçoamento. De modo que o conhecimento não se processa de maneira estática, mas como criação grupal, mediatizado pelo diálogo entre as pessoas, bem como pelo compromisso político e competência técnica dos governantes em geral, considerando que é um direito legalmente constituído, sendo dever do Estado cumprir com eficiência o processo de transmissão, assimilação e produção do conhecimento científico que perpassa no cotidiano da sala de aula, nas diversas unidades de ensino de todas as regiões de nosso país.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A FILOSOFIA PRECEDE A EDUCAÇÃO?



Gerson Nei Lemos Schulz

Texto originalmente publicado na Revista Conhecimento Prático Filosofia N. 29 - Abril de 2011 da editora Escala
www.conhecimentopratico.com.br/filosofia


Até hoje é questão de debate a pergunta: "quem surgiu primeiro: a Filosofia ou a Educação?" defendo que desde o dia em que o homem olhou a sua volta e se perguntou: o que é a vida? Para onde se vai após a morte? Por que as coisas queimam? Nasceu a filosofia.
Conhecimento Prático Filosofia N. 29
Com o passar do tempo e a organização dos homens em tribos e cidades, isso graças à sistematização do conhecimento sem o qual não teriam conseguido sair de sua vida nômade, surgiu a educação. Moacir Gadotti diz (História das Idéias Pedagógicas), que a educação pré-histórica era oral e passada de pai para filho na família. Educação era práxis. Aprendia-se a usar o arco, usando-o. O aprendizado de um indivíduo era voltado à resolução de problemas do cotidiano. Por não haver escolas, a educação não era burocrática.
Mas foi na Grécia que apareceu a filosofia enquanto ciência de altos estudos e também a escola. Os filósofos produziam conhecimento, mas o ensinavam na escola. Então indagar sobre a natureza das coisas era praticar filosofia enquanto atividade de busca de respostas (sistematização) aos fenômenos do mundo, e educação era ensinar saberes. Um exemplo da influência da filosofia sobre a educação é a crença geocêntrica de Aristóteles (322 a.C.) que só foi desfeita em 1609 por Galileu. Isto quer dizer que, por 1931 anos o mundo conhecido acreditou que a Terra era o centro do sistema solar. Isso era, inclusive, ensinado em todas as escolas ocidentais.
Quanto à filosofia, pode-se afirmar que Homero (autor da Odisséia) atribuiu ao Ocidente um modelo de homem (antropologia), uma ética (a dos heróis) e um berço (as origens da Grécia) e Hesíodo contribuiu com a Teogonia, modelos que foram ensinados geração após geração na educação Ocidental.
De acordo com Giovanni Reale (História da Filosofia), Tales de Mileto (VII a.C.), reconhecidamente o primeiro a questionar a origem de todas as coisas, mudou para sempre a história da educação. Pitágoras (530 a.C.) também fundou uma escola de Filosofia que tinha um fundo místico e religioso (crença na reencarnação das almas) e na "perfeição" dos números (depois desmistificada pela descoberta do número irracional). Mas foi Platão (427 a.C.), fundador da Academia, um dos mais influentes pensadores do mundo Ocidental, pois em sua escola surgiram alguns princípios da universidade. Outros nomes como Agostinho, Tomás, Montaigne, Marx, Nietzsche, Foucault, também deram sua contribuição para nortear as atividades da educação ao longo da história.
Para concluir, outra influência da filosofia sobre a educação: se Comte (1798) pensou o Positivismo com a escola centrada na autoridade do professor e avaliações tradicionais; Foucault (1926) mostrou que esse modelo de escola é semelhante à prisão porque os alunos são controlados por inspetores e professores e há avaliações que nem sempre mostram quem sabe mais, e podem funcionar como mecanismo de cooptação. Logo, se pensar precede ensinar, a filosofia precede a educação.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

AMOR LÍQUIDO




Gerson Nei Lemos Schulz




Esse é o título de um livro do sociólogo Zygmunt Bauman. Ele, quando fala de amor, mostra o porquê de ter escolhido esse apodo: "hoje em dia nos medimos pelo número (quantidade) de relações amorosas que temos".
Diz: "num mundo em que a seriedade de algo é representada apenas por números, e portanto só pode ser apreendida dessa maneira (a qualidade de um sucesso musical pela quantidade de discos vendidos, de um evento ou performance públicos pelo número de espectadores, de uma figura pública pelo número de pessoas em seu enterro, de intelectuais na opinião do público pelo número de citações e referências)", acrescento eu, não poderia ser diferente com os relacionamentos amorosos.
Zygmunt Bauman
Bauman cita as especialistas Adrienne Burgess e Caryl Rusbult que afirmam que o compromisso amoroso é uma conseqüência aleatória que depende "do nosso grau de satisfação com o relacionamento, se ele é viável; se continuar nele causará a perda de experimentar relações com outras pessoas; e se vale a pena investir, pois em um relacionamento se investe tempo, dinheiro, propriedades em comum, filhos." Eu acrescentaria: paciência e energia! Para elas um relacionamento é como comprar ações: "você compra, espera que dêem lucro e vende, senão derem lucro você se livra delas." Bauman ironiza essa visão capitalista de amor perguntando quando é que alguém jura lealdade às ações que acabou de comprar? Quando é que os investidores juram fidelidade a elas nos momentos de riqueza e de pobreza?
Bauman também trata das "relações de bolso" de Catherine Jarvie. Elas têm esse nome porque se pode dispô-las a qualquer hora. Uma "relação de bolso é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade." Na prática, uma vantagem desse relacionamento é que é você quem está no controle, é só deletar do msn ou do celular o número dela ou dele e pronto, acabou!
Para identificar a origem dessas relações "líquidas" ele distingue amor de desejo. Assim, diz que desejo é a vontade de consumir, absorver, devorar, ingerir, provar, explorar e satisfazer-se com os outros. Processo esse que gera refugos indigestos dos quais os "amantes" querem se livrar. Lembro, por exemplo, a camisinha depois do coito, a mancha de batom, o perfume, o outro(a).

Eros e Psiquê. www.oglobo.com


Já o amor "é vontade de cuidar e preservar o 'objeto' cuidado. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no 'objeto', e não vice-versa. É contribuir com o mundo, cada contribuição como traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é pedaço por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se doa ao 'objeto' amado. Amar diz respeito a auto-sobrevivência através da alteridade. Amor significa proteger, alimentar, abrigar, carícia, afago e mimo. Amar é estar a serviço, à disposição. Mas também pode ser responsabilidade e sacrifício."

O amor líquido escorrega entre os dedos...
Créditos da Foto: Gilson Lemos Schulz
Foto com direitos autorais
Proibida reprodução sem autorização
Concordo, mas pergunto: quem, na nossa sociedade do consumismo (onde relações também são produtos), quer amar? Nunca houve tantos divórcios! Ir a uma boate é como ir ao shopping: neste você pode escolher mercadorias, olhar, pegar, experimentar amostras grátis; naquelas você faz o mesmo com o próximo(a). A maioria vai à boate para ser consumidor e consumido tentando diminuir sua carência afetiva da ausência gerada pela busca do outro; que outro? Si mesmo como no espelho da bruxa de Branca de Neve: espelho, espelho meu... Busca essa baseada no bem-estar egoísta ensinado nos catálogos shoptime que nos ilude a procurar a pessoa perfeita que só existe... na novela!

sábado, 9 de julho de 2011

O QUE É PSICOPEDAGOGIA?

Gerson Nei Lemos Schulz



Essa semana o Blog entrevistou a Psicopedagoga Alessandra Caldeira da Costa, Mestranda em Educação, Especialista em Aspectos Legais e Metodológicos, em Didática do Ensino Superior e Consultora educacional. Acompanhe.

Blog: Do que se trata a Psicopedagogia e porque a senhora escolheu esta profissão?

A Psicopedagogia trabalha não só com síndromes, sintomas e dificuldades de aprendizagem, e sim, tem um enfoque preventivo, principalmente no segmento institucional abordando as práticas educativas que buscam trabalhar o educando antes que o sintoma apresentado vire síndrome, isto é, atuar com técnicas que auxiliam a criança ou adolescente a superar as barreiras que o estão impedindo de aprender, como também, orientar a prática do professor. No aspecto clínico, busca tornar viável a aprendizagem, seja ela qual for, respeitando o limite do educando e desenvolvendo as habilidades necessárias para vida social / escolar. Eu escolhi esta profissão porque tenho interesse e busco entender e auxiliar no mecanismo da aprendizagem, como ocorre frente aos limites e desafios da saúde e do comportamento.

Profa. Psicopedagoga Alessandra Caldeira, diretora da Educ+
em Bagé - RS
Blog: A senhora é natural de Bagé/RS, mas morou em Fortaleza/CE durante bastante tempo trabalhando na área educacional. Poderia comentar um pouco sobre essa experiência?

Trabalhar na área educacional em Fortaleza me trouxe uma bagagem profissional surpreendente. Fui muito bem recebida na minha área e reconhecida pelo trabalho desenvolvido. Quando cheguei à cidade fui procurar escola para meus filhos e para minha felicidade já fui convidada a fazer parte da equipe como Psicopedagoga Institucional, logo encontrei escola para os filhos, emprego, amigos e oportunidades. Com o trabalho desenvolvido nesta escola, me convidaram a atender clinicamente no Instituto Gestalt do Ceará e também, no assessoramento pedagógico da Editora FTD, desenvolvendo projetos, palestras e oficinas. Após, alguns anos nestas instituições, passei a fazer parte do quadro pedagógico do Colégio Farias Brito e da EducMais Consultoria e Treinamento, sendo que esta última dirijo uma filial em Bagé, RS. Como pude relatar foram anos de sucesso e reconhecimento profissional que, hoje, estão na minha história, pessoas e instituições que cultivo com amizade e parcerias.

Blog: Atualmente o Brasil ainda apresenta baixos índices de aproveitamento escolar. Nesse sentido, qual é o papel do pedagogo e do psicopedagogo frente ao processo de ensino-aprendizagem?

Podemos dizer que o que move a educação atualmente são os índices. Na década passada o enfoque do ensino era a metodologia, nesta, o enfoque é a avaliação. Mas, tanto os professores como os psicopedagogos, ou ainda qualquer atuação da área, precisam entender em seu papel de atuação é que não podemos ver como dois sistemas separados (metodologia e avaliação), pois um é consequência do outro. O trabalho pedagógico e psicopedagógico deve se dá com um “olhar inovador e coerente”, adequando em suas práticas tendências educacionais e não esquecendo as bases que movem esse entendimento que deve ser “a relação professor/aluno” e a “ética nas interrelações”. Não tem como colocar uma receita milagrosa, pois contamos com uma diversidade de realidades que somente uma prática com comprometimento, pesquisa e um pouco de ousadia, nos direcionará para uma melhor qualidade, retenção de alunos e bons resultados.

Blog: A senhora, além de professora e psicopedagoga, também é Consultora Educacional, o que faz o consultor em educação e em quais setores atua?

O Consultor de Educação pode atuar em pesquisas, palestras, oficinas, cursos e projetos; no setor educacional, social, cultural e ambiental. E onde sua criatividade, competência e imaginação permitirem.

Blog: Hoje em dia muito se fala em ética na educação, mas também se sabe que o Brasil, em geral, ainda paga mal seus professores do ensino básico; sendo assim, a senhora pensa que é possível o poder público exigir do professor que forme um cidadão ético e compromissado com o bem estar social enquanto, em alguns municípios há docentes recebendo R$ 50,00 de salário?

Infelizmente a realidade para muitos é cruel, mas tenho que ser mais racional do que emocional para responder, pois não podemos firmar nossa ética e nossas atitudes na atuação errada de terceiros (poder público). Embora essa situação, precisamos manter nossa postura de profissionais da educação e buscarmos mais e o melhor, não nos acomodarmos e exigir reconhecimento pelo trabalho realizado. Esta situação é tão antiga quanto a profissão, mas não temos que ter vergonha e sair do conformismo.

Blog: Com base em sua experiência poderia fazer, rapidamente, um comparativo entre a situação educacional do nordeste e da região sul do Brasil?

Os princípios educacionais são os mesmos em todo país, o que muda são as regionalizações de alguns assuntos e ações educativas, a busca por melhorias de qualidade e qualificação é algo em comum. Muitas vezes é o olhar das pessoas que trazem certa diferença, colocando rótulos e discriminações. As verbas públicas estão presentes, em algumas regiões mais outras menos, que eu considero uma falta de gestão para melhor administrá-las e buscá-las. No sul e no nordeste existem diferenças culturais, mas, a meu ver, jamais de condições de ensino, pois os dois extremos têm o lado da miséria e o lado da abundância; a valorização e o descrédito, o comprometimento e a expressão “vamos ver no que vai dar”... Então, antes de comparar, devemos é atuar com eficiência dentro da realidade de cada região.

Blog: Na atualidade os Parâmetros Curriculares nacionais (PCN’s), orientam a escola à formação de alunos “críticos” sem definir o que seja “crítico”. O que é um aluno crítico para a Pedagogia e a Psicopedagogia?

Na Pedagogia o aluno crítico deve ir além do que está escrito no PPP e não praticado, e sim, um aluno que não se conforme com “pouco caso” no ensino, que atue realmente em prol de sua aprendizagem, seu bem estar e do lugar onde vive. A Psicopedagogia, pega gancho nesse conceito, mas acrescento que seja um aluno que reconheça suas limitações, aceite o desafio de transpô-las e não admita ser “colocado” em qualquer escola somente para dizer que está “incluso”. Claro que, na prática, esse discurso tem falhas, mas precisamos sonhar, ousar e sempre buscar o melhor.




sexta-feira, 17 de junho de 2011

WHO WANTS TO LIVE FOREVER? ENSAIO SOBRE A ORIGEM DA CONCEPÇÃO DE IMORTALIDADE


Gerson Nei Lemos Schulz


* Este artigo contém "spoilers"




Quem quer viver para sempre? Esse é o título de uma música da banda "Queen" que foi composta em 1986 para o filme "Highlander, o guerreiro imortal", conforme nome no Brasil. O filme conta a história de um habitante de outro planeta que mora entre os humanos e cuja principal característica é ser imortal.

Frame de Highlander I
O primeiro filme da série mostra o personagem principal chamado Connor MacLeod descobrindo que é imortal. São duas histórias paralelas: uma que se passa em 1986 em Nova York e outra em que ele vivia na Escócia do século XVI. Na história que se passa no início da Modernidade, ele vive com uma companheira que, aos poucos vai, naturalmente, envelhecendo. Essa parte do filme acaba quando ela morre e ele vai embora da Escócia permanentemente jovem, pois não pode envelhecer nem que queira.

A questão central do filme é indagar o expectador sobre a possibilidade de um homem ser imortal e, sendo, o que ele faria com essa capacidade. E você, o que faria se pudesse ser imortal?

No filme dos anos 1980, o personagem vê todos aqueles que ele mais ama morrerem. MacLeod vive a morte de todos os outros menos a sua. E vive sabendo que se se envolver com alguém amorosamente, a mesma história se repetirá. Assim, o filme mostra o lado negativo de se ser imortal, em outras palavras, ao invés de Connor MacLeod ser feliz, ele é infeliz devido às consequências de sua imortalidade.


Frame de Highlander I
Ouso dizer que a imortalidade desejada pelo homem desde que começou a compreender a morte, desde que a morte entrou no jogo cultural e adquiriu significado ontológico e não apenas filogenético, passou a ser desejada como forma de combate à morte e à natureza. O homem pré-histórico desejava tanto ser imortal para dominar a morte quanto dominar a natureza para ser o "homem". Desde então, não é mais possível ser-se homem sem impingir às gerações esse combate contra a natureza que é "cruel" (porque a morte é natural); estaria aí a crueldade da natureza.

Assim, o homem passou a ontologizar o corpo, ou seja, passou a ver nele e dentro dele, o espírito - uma criação, um símbolo seu - para driblar a morte, para amenizar a ausência do corpo morto, de si ou do outro, que pensava que lhe pertencia (seja o seu próprio corpo, seja o de uma esposa, de um filho, de um pai). Criou-se a religião, o conjunto dos ritos para entender e dominar a morte.

Oferenda de velas para uma árvore,
dias atuais

Nos tempos pré-históricos o homem praticava o tipo de religião chamado "animismo". Por não poder explicar os "mistérios" da natureza na qual estava plenamente imerso durante toda a vida e sofrendo seus efeitos naturais: do clima, da saúde, da doença, das colheitas, da caça, da morte; ele começou a dividir a natureza em feras, árvores, rios, lagos, montanhas e etc. então, logo o homem passou a representar estes entes naturais criando o "deus das águas" (mares, rios, lagos e canais, vitais para a manutenção da vida e para a troca de mercadorias e comunicação entre povos), a "deusa da chuva" (vital para a agricultura), o "deus dos trovões" (masculino, símbolo do poder), a "deusa da caça" (alimentos), a "deusa da agricultura" (alimentos), o "deus do vinho" (importante bebida para recreação e ritos religiosos, também bebida misteriosa devido, na época, ao inexplicável fenômeno da fermentação e dos efeitos do álcool). Mas a mais importante das divindades criadas nesse período e que aparece em quase todas as culturas, por mais diferentes que sejam, é a "grande mãe", a "Mãe Terra. A Gaia, responsável pela fertilidade de animais, plantas e homens. A figura da "mãe" é uma representação do cuidado e da manutenção da vida dos homens. O sol também é um elemento que cedo é tornado "deus" nas diversas culturas. Assim, a Terra, o sol, a lua são tornados "deuses" devido a importância que tinham para a sobrevivência humana, pois da Terra e da terra provinham tudo que o homem consumia, do Sol vinha a luz que permitia o trabalho, vinha o calor, as estações do ano. A lua permitiu o surgimento dos primeiros calendários e atribuiu-se a ela vários poderes mágicos. Após a sistematização das diversas religiões antigas como a etrusca, a grega, a romana e a cristã surgiram várias figuras humanizadas da "deusa Terra". Assim é o caso de Rhea Silvia e Sibele e, atualmente, seguindo essa tradição, é o caso da "mãe" mais famosa na cultura ocidental e cujas origens está também nas primeiras mães do período primitivo, trata-se da "virgem Maria" dos evangelhos. A "mãe de Deus" ou de Jesus.

Na pré-história as primeiras tribos humanas não enterravam seu mortos, eles eram deixados ao ar livre para seus corpos se decomporem. Com o tempo, o homem pré-histórico percebeu que os corpos deixados em grutas ou cavernas tinha um tipo de decomposição diferente porque decomposta a carne, os ossos se cobriam de carbonato de cálcio e o esqueleto era preservado por muito mais tempo. Praticamente esta era a forma encontrada para cristalizar a presença daquele que morreu. Os túmulos, assim, passaram também a ser local de adoração ao ancestral morto, lugar sagrado. Alguns povos acreditavam, inclusive, que o espírito do morto permanecia junto ao seu cadáver e por isso eram ali depositados comida, água e seus antigos pertences.


Atualmente se acredita que esse fenômeno de enterrar os mortos tenha se dado por volta de 35.000 anos a.C.. Com o ritual de enterrar os mortos, criou-se aí a ideia de que a terra "comia" tudo e todo aquele que morria. Que a vida do homem sobre o planeta estava eternamente submissa aos desígnios da natureza. As mesmas chuvas que alimentavam a agricultura também causam inundações e morte. O mesmo vento que soprava os rios, causava estragos.




Exemplo típico de uma montanha sagrada:
o Monte Sinai no Egito, importante ponto
religioso para o judaísmo e o cristianismo



Com a incompreensão da morte, os povos que habitavam florestas ou próximo a elas criaram uma gama de deuses e deusas para expressar o desconhecido. Era comum na idade da pedra lascada as tribos existentes oferecerem à floresta de onde extraiam seu alimento a melhor parte desse alimento como forma de agradecimento pelo alimento que a floresta proporcionava. As comunidades que compartilhavam uma vida próxima a um rio ofereciam ao rio a melhor parte da pesca proporcionada pelo rio. Os povos que viviam perto de montanhas costumavam atribuir à montanha algum valor sagrado, dizer que nela habitava algum "deus" protetor daquela aldeia. Também, em comum, homens e mulheres deste período passaram a atribuir aos "deuses" o poder sobre a morte porque pensavam que seus deuses eram imortais. Uma conclusão extraída da observação de que mesmo que os humanos morressem, determinado rio, floresta ou montanha permanecia "eterno".

Representação do deus grego Zeus

Quando surgiram as primeiras civilizações, surgiram as organizações religiosas (zoroastrismo, budismo, judaísmo, xintoísmo, hinduísmo, cristianismo, islamismo). Essas religiões sistematizadas com seus códices, ética, sua moral, controlada por um sacerdote ou grupo de iniciados, ligou-se à organização política das primeiras civilizações. No mundo antigo a política estava subordinada, em algumas culturas como as do Oriente Médio (Mesopotâmia), aos sacerdotes. Isso também ocorria no antigo Egito onde o Faraó só podia ser eleito dentre os sacerdotes. Na Grécia antiga havia a democracia, porém em todas as cidades-estado sempre houve uma forte influência dos sacerdotes sobre os políticos e sobre o povo em geral que costumava procurar os adivinhos ou oráculos para saber se determinada ação sua no mundo dos negócios ou em outra esfera social daria certo. Em Roma, durante o período imperial, os imperadores se autodeterminavam filhos dos deuses ou os próprios deuses.

Representação do Imperador
Romano Constantino
Em 313 d. C. quando o imperador Constantino decretou o cristianismo como a religião oficial do Império Romano que abarcava toda a Europa, parte do Oriente e o Norte da África, os valores cristãos católicos passaram a ser obrigatórios em todas as esferas sociais. A igreja romana, juntamente com o Estado, mandava na sociedade. Seus ritos, sua moral, sua ética, a "tradição" (que é o conjunto das crenças da fé construída por uma autoridade religiosa ou por um colegiado de autoridades e que deve ser perene), a palavra de seus documentos, passou a valer.

Mas em relação à sistematização da imortalidade na Índia, muito antes do cristianismo, os orientais já produziram um conjunto de valores que incluíam a ideia da existência de um "espírito" que é imortal e que poderá retornar ao mundo no futuro por meio da reencarnação. No Egito antigo a crença na reencarnação era comum, daí as múmias, pois os egípcios acreditavam que o espírito retornaria ao mesmo corpo por força dos deuses, então para preservar os corpos, os mumificavam. O detalhe é que a reencarnação para os egípcios se daria no mesmo corpo, fato que se chamaria "ressurreição" nas culturas babilônica, caldeia, assíria e judaica.

Na Grécia antiga os filósofos Pitágoras, Sócrates e Platão pregavam a existência de um espírito imortal nos homens e mulheres e a reencarnação, porém - em parte - nos mesmos moldes dos orientais, porque esta se daria em um corpo diferente e em outra vida, em outro tempo histórico, mas diferentemente da crença oriental, todo homem e toda mulher reencarnaria diversas vezes até "pagar" por todas as suas más ações praticadas em vidas passadas (essa é a versão ocidental de Karma).


Múmia Egípcia

Já no oriente, para o budismo, por exemplo, Karma significa em sânscrito, ação, portanto, a reencarnação na cultura oriental e o Karma significam que todo homem e mulher deve reencarnar para "equilibrar" todas as suas ações (Karma). O Karma, nesse caso, não é, como para os ocidentais - uma dívida. Ele é a compreensão de que toda ação feita por um ser-humano envolve igualmente uma reação que deve ser equilibrada. Não sendo possível, por exemplo, reequilibrar uma ação homicida (no caso de alguém praticar um homicídio na atual existência), o homicida deve reencarnar para, talvez, sofrer na outra vida o mesmo ato que praticou contra outrem ou algo parecido. O Karma pode ser também positivo, de forma que se alguém em uma existência anterior praticou o amor ao próximo, em uma existência futura receberá essa mesma prática de volta.

Nas visões culturais do oriente (China, Índia, Japão), a imortalidade não é somente uma capacidade humana, ela é o fundamento de toda a história que é cíclica, pois um espírito (a pessoa) deve encarnar e reencarnar várias vezes, ciclicamente. Então, a história para aqueles povos não é linear como no ocidente (em que o fim da história se dará quando acontecer o "Juízo Final" bíblico). O ciclo de uma existência só se fecha no oriente quando o espírito individual de alguém merecer se fundir com Brahma e se transformar em "deus", diluído no universo.

Hippolyte Rivail
1804-1869
No ocidente cristianizado de hoje a ideia de reencarnação ficou no ostracismo por centenas de anos devido aos esforços da igreja católica em pregar a ressurreição, ideia que vem da tradição religiosa do oriente médio, especialmente judaica e também adotada pelo islamismo, surgido por volta de 672 d.C.. Ressurreição e reencarnação são conceitos muito diferentes.

Reencarnação significa que existe um espírito imortal que encarna, se faz carne, vive e morre. Quando o corpo morre ocorre o desencarne, então o espírito segundo a concepção platônica sofre um processo escatológico. Caso o espírito enquanto encarnado tenha realizado boas ações (éticas, morais, praticante da justiça) ele vai para a "ilha de bem-aventuranças", caso não, vai para os mundos inferiores onde poderá ficar por longo tempo até ser resgatado e se preparar para reencarnar (sua segunda chance) para tentar praticar na nova vida terrena boas ações. Esse conceito foi recuperado no século XIX por um francês chamado Allan Kardec (Hippolyte Rivail) fundador do "espiritismo moderno".

Ressurreição, por outro lado, tem origem nas culturas do oriente médio como egípcia, caldaica e judaica e significa que homens e mulheres têm um espírito imortal que se faz carne pela vontade de "deus" (o 'deus' judaico-cristão, por exemplo). Após a morte do corpo físico, esse espírito que é imortal retorna para as mãos de "deus" e lá permanece até o dia do Juízo Final (no caso do cristianismo) quando, igualmente pela vontade de Deus, ressuscitará, ou seja, o espírito acordará e receberá novamente uma carne para habitar, um corpo semelhante àquele que tinha quando vivia na terra, em aparência física e intelectual, porém esse novo corpo será imortal, imperecível e eterno. Para o cristianismo, aqueles que até o dia do "juízo final" não seguiram a doutrina cristã, não praticaram o bem em vida, não terão segunda chance como na concepção da reencarnação, pois irão para o inferno onde permanecerão para sempre.

A atriz Roxanne Hart 
interpretando a esposa de
MacLeod idosa























Em uma visão filosófica atual se pode afirmar que não é o fato de muitos acreditarem em uma religião que a torna algo verdadeiro. As filosofias de Friedrich Nietzsche (1844-1900) e de Marx (1818-1883), por exemplo, inferem que a religião é um jogo fundado sobre estruturas fixas que não passam de máscaras que criam uma realidade como um mosaico cria a ilusão da compreensão da totalidade. A infra-estrutura da religião é "deus", a hierarquia, sua superestrutura. Não existindo "deus", todo o resto desaba. Rui o alicerce. Perde-se todo sentido do discurso do sacerdote que não passará de um jogo de palavras (máscaras) para esconder uma realidade, a morte, e o fato inegável que ela continua sendo a ausência do outro/a. Claro, essa concepção filosófica é materialista. Ignora qualquer transcendência. Não considera e nem se preocuparia em investigar ou explicar os fenômenos espíritas, o sentimento de fé das pessoas, os "milagres" ou curas inexplicáveis pela ciência atual.


O que Marx e Nietzsche, cada qual a seu modo, fazem refletir é que desde quase sempre os seres humanos almejaram ser imortais e para isso tentaram criar uma "máscara" - como diria Nietzsche - sobre a realidade para dominá-la. Sem discutir aqui a validade ou não das religiões, a tese que esses filósofos defendem diz que a ideia de imortalidade é mais uma ideia "fonte". Nietzsche diz que a religião é uma fonte de poder, primeiro porque desde o início o homem atribuiu o poder a algo além dele mesmo, incompreensível, os deuses. Mas esse atribuir poder aos deuses foi também atribuir poder a si mesmo porque à medida que o homem dá poder a determinado "deus", entre estes, a imortalidade, o homem acredita que também, por existir algo maior que ele e que é imortal, ele mesmo também poderá, um dia, gozar desse benefício, a imortalidade.

A partir daí surgem os iniciados, aqueles que dominam a ritualística religiosa. Aqueles que conhecem mais que todos os mistérios, as formas de agradar aos deuses, os períodos corretos para se fazer as oferendas. Então aparece, conforme diz Nietzsche, o sacerdote e, com ele, o poder de controlar as pessoas da comunidade que comungam da mesma fé. O sacerdote, para Nietzsche, ao se autodenominar o conhecedor de "deus", se proclama tal poder que é imediatamente reconhecido pelos outros que se tornam seus subordinados pensando que se submetendo aos desígnios do sacerdote, se submetem à vontade dos deuses. Não é a toa que em boa parte das culturas antigas o sacerdote era também o rei ou imperador e toda sua linhagem era considerada divina.


O filósofo
Nietzsche

O grande problema que Nietzsche e Marx veem na religião é a manipulação e o mascaramento de determinadas realidades. Para eles que defendiam a tese de que a religião em geral não é sagrada porque é apenas uma interpretação humana de certos fenômenos "inexplicáveis", a religião é um instrumento de manipulação das pessoas. A exploração das fraquezas humanas como o medo da morte, da dor, da doença, por meio de promessas cujo cumprimento se atribui aos deuses mediante oferendas ou ritos, orações, cânticos e sacrifícios - humanos em algumas culturas antigas e de animais ou vegetais em culturas animistas ainda  hoje existentes.

Para finalizar este discurso sobre a imortalidade, retomo o enredo do filme que serve de base para essa reflexão. "O Guerreiro Imortal" que veio de outro planeta simboliza o que foi dito. Ele não pode passar a propriedade da imortalidade para ninguém que viva na Terra. Ele mesmo só permanece imortal se realizar um sacrifício, o de outros guerreiros como ele que - apesar de serem imortais - têm um ponto fraco, morrem se cortarem suas cabeças. A cabeça, símbolo do controle, do poder. No segundo filme da série chamado "Highlander II: The Quickening" (Highlander II: A Ressurreição"), o personagem Juan Ramirez, morto no primeiro filme, retorna à vida. Ele ressuscita porque volta à vida no mesmo corpo que possuía, reconstituído.


O highlander Juan Ramirez
(Sean Connery)



A imortalidade não traz a felicidade ao personagem porque o próprio tempo - que é infinito - torna a vida entediante. O personagem vive apenas a morte dos entes queridos e está, como os deuses gregos antigos, condenado à vida, a ser imortal; logo, ele não poderá nunca ser humano porque somente o elemento humano é mortal.


Mesmo que exista um espírito imortal em toda mulher e em todo homem, ainda assim a morte persiste enquanto fenômeno físico. A morte do corpo físico é a fronteira e a compreensão limite de todo feito humano. Qualquer homem ou mulher sabe que morrerá, que seu tempo na Terra acabará mais dia, menos dia. E esta certeza torna a própria vida aqui relativa.


Enfim, a luta diária, a ambição pela riqueza, o desprezo pelos outros, a mesquinharia, o amor ou a paixão, tudo o que as pessoas fazem aqui se torna insignificante diante da morte. O corpo, única certeza humana, perecerá. Nem ele é propriedade eterna. Por outra perspectiva, o desejo da imortalidade é mais que religião, é arte - catarse - porque alguém que se pense imortal, ainda que seja pela graça de um "deus", tem forças para continuar sua caminhada terrena, motivo para procurar significados onde aparentemente reina o caos. Isso é um paradoxo! O paradoxo está em pensar que a vida na Terra perece, mas que para que a possamos viver, é preciso também pensar que a morte individual é que dá significado à existência. O paradoxo está em que para continuarmos vivendo na Terra necessário se faz acreditar na imortalidade do espírito e para merecer essa imortalidade, necessário se faz viver aqui na Terra. E parece que é este paradoxo que é a motivação para que as pessoas continuem sua vida, mesmo que ela seja finita e entediante!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O CASAMENTO E A PÓS-MODERNIDADE


Por: Gerson Nei Lemos Schulz

Publicado originalmente no jornal
Tribuna Amapaense
na cidade de Macapá - Amapá
em 2010, com o título:
"Casamento: uma instituição falida?"




O artigo de hoje faz uma reflexão sobre algo que, grosso modo, dizem que está em crise na sociedade: o casamento.

Já ouvi comentários a respeito, mas nunca tinha parado para pensar sobre o assunto. Certa vez - em 2003 - escutei um reverendo anglicano, na pequena cidade do interior gaúcho chamada Canguçu, contando que um casal o procurou pedindo para marcar a data do casório, ao que ele, quase gritando, disse: "vocês estão batendo bem da cabeça? Casar? Hoje em dia o casamento é uma instituição falida!"

O casal ficou espantado com o reverendo e foi embora, mas depois de uma semana retornaram à igreja e marcaram a data, decididos.

Fonte da foto:
http://cidaderiodejaneiro.olx.com.br/aluguel-de-vestido-de-noiva
Mas o que me levou a escrever hoje sobre o casamento foi um fato estranho que presenciei de dentro de um ônibus em que estava em um fim de tarde de um domingo pós-moderno quando passava férias na interiorana cidade de Pelotas, no RS. Em uma esquina, ao por do Sol, o ônibus urbano parou para aguardar sua vez de atravessar o trânsito quando apareceu na calçada uma noiva acompanhada de um senhor que deveria ser seu pai. Fiquei espantado de ver que alguém dentro do ônibus disse alto: "olha a noiva!"

O tom era de galhofa. Imediatamente todos os passageiros olharam a cena: a "mulher cruzando a rua" como se ela estivesse fantasiada para o carnaval. Como se a roupa dela representasse mesmo algo obsoleto. O cobrador do ônibus olhou para alguns passageiros sorrindo como se estivesse com pena da "noiva". Várias pessoas riram da mulher vestida de noiva.

Bem, o fato é que hoje em dia, com a mudança dos costumes tradicionais e a crise das igrejas cristãs (seu enfraquecimento), se têm os prazeres do casamento sem se ter seus compromissos (isto é, é fácil, muito fácil, conseguir sexo casual sem ter que se casar com alguém), por outro lado o sabor deste tipo de relação está em saber-se que no dia seguinte segue cada um para sua casa. Homem e mulher ficam "livres" para procurar em outra noite mais uma "transa". Alguns pensam que isso é um "pecado", uma involução dos costumes, mas penso que não. O casamento é uma instituição, um contrato que foi legitimado por um discurso dominante na Idade Média (no Ocidente), o discurso católico. Segundo Freud, as primeiras civilizações proibiram o incesto e estabeleceram a "troca" de mulheres com outras tribos ou grupos para estreitar laços de parentesco, isso é uma possibilidade... não uma verdade!

Mas na idade mais primitiva da humanidade um homem tinha relações com o maior número possível de mulheres e não só para procriar, mas para ter prazer. Sexo era uma necessidade como qualquer outra. A mesma coisa as mulheres (assistam ao filme 'Guerra do Fogo').

Nesse sentido o homem (e mulher) não é um ser monogâmico, ele é polígamo, e arrisco dizer "por natureza". Então por que se espantar se hoje em dia sexo (muitas vezes promíscuo) é algo tão popular? Apenas o que acontece é que deixamos de lado o superego da moral cristã para nos dedicarmos a libertar aquilo que estava recalcado: o Id (instintos mais primordiais). Conceitos como "fidelidade", "até que a morte os separe" e etc. são invenções da moral racionalista e cristã (já dizia Nietzsche).

Nessa perspectiva um homem ter mais de uma mulher, e vice-versa, é o "normal". Há várias sociedades na África (que são muito mais antigas que a Europa) em que as mulheres têm vários maridos. Em contrapartida, em alguns países árabes, os homens têm mais de uma esposa. Quem disse que ter apenas um marido ou esposa é o correto? Essa idéia é bem burguesa, faz entender que o outro é uma "coisa" que pode ser possuída. "Meu marido", "minha esposa". Quem pertence a quem? Que autoridade tem uma igreja, um "livro sagrado", para dizer o que as pessoas devem ser ou fazer na vida privada? Acredita nisso quem quer...

Mesmo assim meus parabéns à noiva, embarcou no sonho medieval e moderno, também judaico-cristão que acredita que o mundo deveria ser perfeito como é o "céu" das igrejas.