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sábado, 24 de julho de 2010

PAULO FREIRE ÀS AVESSAS



Gerson Nei Lemos Schulz

Publicado originalmente no jornal impresso "Leia Agora"
de Macapá - Amapá




Paulo Freire
Uma das grandes dúvidas que o alunado tem em relação à escola é quanto à avaliação. Perguntam-me: avaliar é justo ou não?

E a maioria dos argumentos invocam Paulo Freire (1921-1997). Leitor de Marx, ele que se dizia pós-moderno, porém, não sem referenciais, segundo Gomercindo Ghiggi, Dr. da Universidade Federal de Pelotas – RS que tem tese de doutorado sobre ele. Freire acreditava que alfabetizar não é apenas ser "caridoso" com o próximo e ensinar-lhe mecanicamente as letras, é possibilitar ao próximo ser livre. Mas de que liberdade ele falava?

Freire acreditava que ser livre é ter consciência de suas possibilidades. Por isso, saber ler e escrever, conforme afirma em sua "Pedagogia do Oprimido", não é suficiente. Pois este é apenas o início para se aprender a contar a própria história. A proposta freiriana não é um sistema, embora muitos chamem assim, como diz Gadotti (2005), ela é a luta de classes dentro da escola. Freire toma de Marx o conceito de opressores e oprimidos. Mas ele não quer que os oprimidos (os trabalhadores) se tornem opressores, quer que os opressores também se conscientizem de que oprimem. É claro, uma perspectiva utópica de Freire!

Entretanto, é preciso ter em mente que ao ler-se Freire não se pode tomá-lo como bandeira romântica para realizar-se a "revolução" na escola. Embora o senso-comum acredite que ele advoga a abolição da avaliação, isso é uma leitura apressada. Freire critica a escola Positivista. Nela, para ele, há mera reprodução da ideologia dominante capitalista e a avaliação é o instrumento opressor que reprova os menos "aptos" para alimentar o sistema. Aqui é preciso lembrar que Freire dizia-se socialista. Mas mesmo assim ele também afirma em "conscientização" que o trabalhador, se quiser adotar uma postura capitalista, pode, desde que possa escolhê-la. É por isso que Freire defende a conscientização como primeiro passo para a emancipação social. Essa postura tem um problema grave que pode ser exposto na seguinte pergunta: "se ser consciente é criticar o capitalismo e substituí-lo por um sistema social mais "justo" (que seria o socialismo), quem faz a crítica ao socialismo? 

É claro que ele tem razão ao constatar que em um sistema social que preza a desigualdade econômica a criança com acesso a um bom café da manhã, a um bom almoço e a recursos de aprendizagem terá melhor rendimento que a criança que não tem isso! Mas é importante também lembrar que Freire não propôs uma "escola formal". Ao contrário, sua proposta é para ser executada em qualquer lugar em que pessoas tenham interesse em aprender. Já, na escola formal, a avaliação existe como forma de quantificar e qualificar a aprendizagem. A avaliação, portanto, não visa julgar a pessoa, mas verificar o aproveitamento do aluno frente ao que o professor ensinou. Por outro lado, se a avaliação for ignorada enquanto processo como saber quem re-significou o conteúdo? Deixar o aluno interpretar o conhecimento de acordo com sua "opinião ingênua" (como diz o próprio Freire) é deixá-lo no senso-comum, justamente de onde a escola quer tirá-lo.


Muitos não querem ver...
Muitos discentes confundem o ato de avaliar com medir a pessoa do aluno. O que é um engano. Para Demo (2002), a negação da marca classificatória da avaliação implica desconhecer o contexto da escola. Isso acontece quando se evita avaliar, porque também é avaliar. Para ele, dispensar a avaliação é imaginar que todos sejam iguais na sociedade e esta é a classificação mais autoritária que existe.

A mesma coisa ocorre quanto à frequência obrigatória em sala de aula. Essa é determinada pela Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 que afirma que o aluno(a) deve ter, no mínimo, setenta e cinco por cento de presenças em um curso formal para que seu aprendizado possa ser considerado válido. Embora discutido por alguns, é isso que a Lei determina. E, da mesma forma, vários são os alunos(as) que sempre pressionam o professor para passar-lhes um "trabalho" para compensar as faltas que por ventura tiveram ao longo do semestre sem entender que aprendizado é algo diferente de estar presenta às aulas. Frequência não é aprendizado, é a prova de ter estado presente a uma carga horária mínima para se considerar um curso válido para o próprio educando. Embora não seja avaliação, a presença mínima a um curso possibilita ao professor conhecer de perto o aluno ou aluna, a auxiliar-lhe nas dificuldades com o conteúdo trabalhado em sua disciplina e garante (dependendo do tipo de avaliação solicitada aos alunos) que o professor tenha certeza de estar sendo justo com todos que compareceram às aulas e mais, assim o professor pode também emitir seu parecer sobre o aprendizado efetivo do alunado considerando todos os seus pontos fortes e aqueles em que deve melhorar o desempenho. Além disso, a assiduidade do aluno garante em alguns casos (na era da internet) que o trabalho assinado pelo alunado seja realmente uma produção dele, pois por mais modesta que seja esta, é melhor do que um plágio.

Karl Marx
Enfim, avaliação e frequência andam juntas não só porque a lei determina, mas porque não parece justo que o aluno que se esforçou, compareceu às aulas e participou do curso demonstrando interesse seja desvalorizado perante àquele que não teve o mesmo desempenho. Mas qual a solução provisória para o debate? Adoto Masetto (2005) perguntando-me: o que meus alunos precisam aprender para se tornarem cidadãos profissionais na contemporaneidade? Certamente que não ler Freire às avessas como muitos fazem!





Referências

DEMO, Pedro. Mitologias da Avaliação: de como ignorar, em vez de enfrentar problemas. 2. ed. Campinas: Editora Autores Associados, 2002.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 

GADOTTI, Moacir. História das Idéias Pedagógicas. São Paulo: Ática: 2005.

MASETTO, Marcos. Docência da Universidade. Campinas: Papirus, 2005.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em:<http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf>. Acessado em: 22 de julho de 2010, 03:44:38.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cidade Pós-moderna

Gerson N. L. Schulz


Da janela do décimo quarto andar avista-se o Guamá. Águas turvas mas que mesmo assim ainda brilham douradas sob o forte sol de julho no Grão-Pará. Com tantas histórias submersas: da Cabanagem, dos irmãos Vinagre, do Almirante John Taylor e do telegrama da chegada da República.

Dentre telhados alaranjados cobertos pelo obscuro do tempo que pertencem a casas de frontes com janelas à neoclássico despontam imensas torres pós-modernas de quarenta andares. Nas ruas que no século XVII gracejavam carroças, damas e cavalheiros bem vestidos, agora correm tapetes negros que não são mais, felizmente, os escravos. É assim, a cidade não é mais moderna conforme sonhou o Marquês, é pós...

Por ela circulam cabriolés sem cavaleiros. Homens e mulheres correndo para o trabalho sob a batuta da produção capitalista e no ritmo do relógio eletrônico. Auto pistas, navios a diesel, fumaça, piscinas no lugar dos igapós de outrora. O Ver-o-Peso agora é lugar da nobreza pobre trabalhadora desse tempo. A cidade envelheceu e ao mesmo tempo remoçou. Casas nobres hoje são prostíbulos. Dos Tupinambás só restam nomes de ruas. Os urubus do mercado do "peixe na pedra" dividem espaço com os supersônicos barulhentos gaviões de metal, símbolo de progresso. Hoje o mais importante em suas veias de tráfego não são as pessoas, são os carros. Não se deve mais colher a manga fresca, pois está contaminada. Prédios como São José Liberto, palco de rebeliões; Forte do Castelo, guerreiro; a Casa das Onze Janelas, todos os edifícios históricos que não foram esmagados pela especulação imobiliária são pontos turísticos. Quem imaginaria que a Basílica seria visitada por franceses e holandeses (inimigos no passado)? Que a casa dos governadores seria sede da cultura?

Quem poderia dizer que acertaram aqueles que afirmavam que um dia o Grão-Pará pertenceria à República... à do Brasil no século XXI?

Mas a cidade pós-moderna é assim. O que já foi "morto" é revitalizado. No passado se ia ao teatro para ser visto, agora se esconde atrás do vidro fumê da janela do carro com medo do assalto. Sai-se do apartamento direto para a rua acionando o controle remoto do portão. Não interessa saber quem é o vizinho de porta. Antes ser nobre era ser cumprimentado por todos na rua, agora é mais seguro para o rico se ninguém sabe que ele é. Tem-se medo! Consome-se cada vez mais para que o sistema econômico não entre em colapso. O alimento está na esquina do supermercado 24 horas. Hoje se vê televisão. Resolvem-se muitos compromissos por meio da invenção de Bell, "sem fios". Vivem-se muitas vidas.

O velho e o novo convivem. Antes se pegava água na fonte, agora encomenda-se pelo telefone. Antes a população ia à missa, agora vai para o shopping. Quem não vai, "não existe!"

Enfim, o jornal é a internet. Não se conversa mais, se anuncia. E quem não anuncia não vende. Até os amigos são virtuais, no Orkut. Concorre-se para ver quem tem mais seguidores no blog. Um amigo de verdade é muito, mil não são suficientes! Mas, no fundo, nenhum deles existe porque são todos virtuais! E termina-se a noite pedindo uma pizza com coca pelo net-atendimento. E, para alguns, a coca não pode faltar.