Google+ Badge

COMPARTILHE

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

UMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA DO SUICÍDIO

Gerson N. L. Schulz




De acordo com o sociólogo Émile Dürkheim (1855-1917) há três tipos de suicídio: o altruísta, onde uma pessoa atenta contra a própria vida por motivo vergonhoso. Pode-se lembrar um cônjuge traído que, para evitar a vergonha ou a ironia pública, se mata. O segundo é o suicídio egoísta em que alguém se mata por motivos racionalizados e não desesperados: pode-se citar o caso do presidente Vargas que "saiu da vida para entrar para a história".

Em terceiro lugar há o suicídio anômico (a = não e nomos = lei). Esse ocorre quando há o caos. Em grandes crises econômicas, religiosas, políticas e etc. Assim, quando o grupo ao qual o indivíduo pertence perdeu toda dignidade, a pessoa pode decidir se matar em função da falta de referências. Isso ocorre quando um país é invadido por outro e toda a população perde seus valores e fica a mercê dos costumes e leis dos invasores.

No estado do Amapá, de acordo com o Ministério da Saúde, o suicídio ocorre em maior número do que no resto do Brasil. Os principais motivos são: a traição conjugal e o endividamento. O meio preferido de auto-execução é o enforcamento. Por se ter altos índices de suicídio, pergunta-se: não é uma questão de saúde pública?


Ao submeter-se essa questão particular ao tribunal da razão, como indica Immanuel Kant (1724-1804), filosoficamente pensa-se que os "traídos" que, por vergonha e com medo da troça popular acabam com a própria vida dão razão àqueles que os denigrem. Da mesma forma o endividamento também não é motivo racional para o suicídio porque, caso fosse, o capitalismo não existiria.

Busto atribuído a Epicuro
 (341 a.C. - 270 a.C.).
Talvez a única forma justificável de suicídio seja o caso de uma doença incurável ou cujo tratamento seja caro e não se possa arcar. Seria o segundo tipo de suicídio classificado por Dürkheim de "tipo egoísta". Nesse caso, quem comete suicídio quer evitar a dor. É o pressuposto da filosofia de Epicuro (341-270 a.C.): evitar a dor e obter o prazer; embora Epicuro não encorajasse o suicídio.

Entre os romanos antigos o suicídio era uma punição, pode-se citar o caso de Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), mestre de Nero (37 d.C.-68 d.C.), que foi condenado ao suicídio após tecer críticas ao poderoso imperador.

A pergunta é: o suicídio é o melhor caminho para se resolver um problema? Em lógica não, pois não tem validade a resolução de um problema simplesmente eliminando-o. É a mesma coisa no suicídio, o suicida tenta eliminar a própria vida para eliminar seus problemas! Guiar-se pela situação desesperadora que pode ser temporária e que embaça o pensamento, e não pela razão, também não pode ser critério racional de decisão.


Immanuel Kant.
Mas a vida cotidiana não é tão simples e o imperativo categórico kantiano (age de tal forma que tua ação possa ser norma universal) não é aplicável sem gerar, em muitas ocasiões, graves conflitos com os sentimentos de quem vivencia determinada situação limite.
Longe de ser "moralista", essa análise é limitada à razão e não alcança os pés da vida diária. Só pode, certamente, saber o que é a dor quem a sente. E é pela análise particular das situações de cada indivíduo que Nietzsche (1844-1900) parte para a defesa da eutanásia em pleno século XIX como opção e amostra da liberdade/autonomia de um indivíduo. Para ele o suicídio deve ser direito do homem; e seria, além disso, uma libertação das (na visão nietzscheana) falsas crenças do cristianismo, da negação do conceito de pecado original e da ideia de redenção. Então a eutanásia seria um direito e o indivíduo deveria lutar por ele como no filme "Mar adentro" onde o marinheiro Ramón Sampedro, após perder na justiça esta autorização, pede aos amigos para ser envenenado. 

"Mar adentro"
de Alejandro Amenábar,
é a história do 

marinheiro espanhol
Ramón Sampedro
e sua luta pelo 

direito de morrer.
(20th Century Fox - 2004)
Por fim, o autor desse artigo não tem como analisar cada caso pessoal de dor das pessoas, muito menos não é o objetivo 'julgar' o suicida. O objetivo aqui é levantar perguntas sobre a parcela de responsabilidade pública no ato do suicídio.
Não é o suicídio um problema social? Qual é o papel da Filosofia e dos filósofos sobre essa realidade? Segundo Henry David Thoreau "ser filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola [...] É resolver alguns dos problemas da vida, não na teoria, mas na prática." E vale a frase de Epicuro? "Quanto às doenças da mente, a Filosofia lhes ofereceu remédios; sendo, nesse aspecto, justamente considerada a medicina da mente."
Caso essas assertivas se confirmem, defende-se aqui que caberia aos filósofos, sem julgamentos morais ou intenções de auto-ajuda, auxiliar a sociedade e um suicida em potencial a esclarecer melhor os fatos antes de tomar a decisão derradeira.

Um comentário :

  1. Nos momentos longamente preliminares ao suícidio não está lá ninguém. Ninguém aparece, como que a dar força ao que se vai fazer.
    E se os amigos (se os temos) só aparecem quando menos falta fazem, então qual é o seu papel e responsabilidade social?
    Há também pessoas totalmente desprovidas de rede social de apoio (família ou amigos). É claro que isto sabe-se. Então para que servem os (falsos) amigos e os "eunucos sociais"? - Precisamente para nos precipitarem. PARABÉNS!

    ResponderExcluir

Obrigado por comentar os trabalhos dos autores publicados.