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sábado, 28 de agosto de 2010

A TENDÊNCIA LIBERAL E A EDUCAÇÃO

Gerson Nei Lemos Schulz
Artigo originalmente publicado no Jornal Leia Agora



A partir do início da modernidade, que ocorreu por volta de 1453 com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, os reinos europeus adotaram uma nova forma de organização econômica que gradualmente deixou para trás o feudalismo (sistema de vassalagem submissa à nobreza onde o Estado era submisso à igreja Católica) e adotaram outro, voltado para a produção de grandes quantidades de mercadoria, para o comércio dessas mercadorias e onde retorna o uso de moedas em larga escala. Aí o lucro passou a motivar tal atividade.



Adam Smith (1723 - 1790)
Com isso surgiu uma nova classe social, a burguesia. A burguesia, tal como definiu o filósofo Karl Marx (1818-1883) é a classe oposta aos senhores feudais. Ao contrário daquela, a burguesia é uma classe urbana e burguês é quem é dono dos grandes meios de produção: fábricas, bancos, lojas. Mas é preciso dizer que o dono do mercadinho, farmácia ou lojinha não é "burguês", Marx os chamou de pequeno-burgueses, para este autor até os professores são pequeno-burgueses porque vivem o ideário econômico da burguesia.



Para Adam Smith, considerado o "pai" do capitalismo moderno, o sistema capitalista visa o lucro sobre atividades de comércio e indústria e o liberalismo é sua ideologia. Assim, liberalismo é a doutrina que admite que todos os homens são livres e a livre inciativa, o empreendedorismo e as capacidades individuais são sobrepostas ao coletivismo. Por conseguinte, o Estado liberal é burguês porque defende a propriedade privada.



Mas independentemente das discussões sobre o sistema econômico, em relação à educação e às tendências pedagógicas ocorre que o liberalismo também está presente na escola. Atualmente a tendência liberal é alicerce de outras tendências como a da escola tradicional, escola nova e escola tecnicista que serão discutidas em outra oportunidade.



Segundo Aranha (Filosofia da Educação, 1996) uma educação liberal parte do princípio que cada um dos homens é diferente do outro, portanto em uma sala de aula explica-se a diferença de notas entre um aluno e outro obtida nas provas, ou seja, a explicação para esse fato oferecida pela tendência liberal é que nem todos têm as mesmas capacidades, uns são, necessariamente, mais inteligentes que outros, daí a diferença entre as notas. É como em um concurso público, os mais capazes, mais preparados, conquistam uma vaga.



Tal como é na escola, entre as empresas, ocorre a livre concorrência onde aquelas em que seus proprietários são mais competentes se mantêm no mercado, e onde aquelas em que seus proprietários não são tão capazes fecham as portas. A tendência liberal em educação diz que na escola o professor deve incentivar a livre concorrência entre seus alunos, pois isso além de prepará-los para o mercado de trabalho altamente competitivo, faz emergir suas qualidades pessoais.



Quanto ao professor, a escola liberal afirma que ele deve se qualificar porque a competição vale para todos, independentemente de sua função. O liberalismo acredita que se todos buscarem a livre concorrência a sociedade evoluirá cada vez mais para um estado ótimo de qualidade de vida, especialmente porque com cada membro que a compõe dando o máximo de si estarão garantidos os benefícios econômicos que podem ser reinvestidos na própria sociedade.



Por fim, sabe-se hoje que este projeto deu certo em parte, pois a livre concorrência entre indivíduos proposta pelo liberalismo não leva em consideração fatores externos, um exemplo ilustrativo é o caso de um aluno brilhante que no dia do vestibular fica muito resfriado e febril, será que em tais condições ele fará uma boa prova e conquistará sua vaga na universidade? O liberalismo também não leva em consideração a origem social das pessoas partindo do princípio que todos, mesmo indivíduos com mais ou menos capital têm, necessariamente, as mesmas condições de obter sucesso em algum empreendimento, seja conquistar uma vaga na universidade, seja garantir a continuidade de uma empresa dentro da livre-concorrência. 



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O QUE É EMPIRISMO?

Gerson Nei Lemos Schulz



O que é empirismo? Qual o reflexo dessa posição filosófica para a ciência?



Para fazer a relação é preciso definir o que é empirismo. Toda pessoa que acredita que o cérebro humano é como uma "tábula rasa", isto é, como uma folha de papel em branco onde alguém, munido de uma caneta, pode anotar o que quiser, é empirista. A idéia de tábula rasa é mencionada por John Locke (1632-1704) que como Francis Bacon (1561-1626) era empirista. Essa interpretação do mundo nasceu e difundiu-se na Inglaterra em contraposição ao racionalismo cartesiano que despreza a experiência empírica.



Bacon escreveu uma obra chamada "Novum Organum" em oposição a Aristóteles (384-322 a.C.). Aristóteles admitia que nada chega à mente sem antes passar pelos sentidos. A isso Bacon acrescenta algo que Aristóteles deixou de fora do processo de formação do conhecimento, a demonstração. O empirismo parte do método indutivo para chegar a proposições universais. Assim a experiência empírica realizada exaustivamente e sob rigoroso controle do método científico garante a verdade para os empiristas, essa forma de analisar a natureza é o fundamento da ciência moderna. A ciência moderna não é meramente lógica e observacional como era a epistemologia do mundo antigo e medieval, ela é empírica à medida que usa laboratórios para comprovar hipóteses e compreender as leis da natureza expressando-as em linguagem simbólica (lógica e matemática).



Bacon que foi filósofo-cientista realizou experiências empíricas a fim de descobrir um processo para conservação de carnes (já que não havia geladeiras no século XVI). Por isso ele ficou famoso quando aperfeiçoou o processo de defumação da carne de porco. Ele percebeu que uma peça de toucinho exposta à fumaça de madeiras se conservava por mais tempo. É por isso que o toucinho é também conhecido por "Bacon". A fim de guiar o cientista a fazer ciência Bacon adverte sobre os quatro erros comuns dos homens que ele chama de "ídolos". São estes: 1) Idola tribos (ídolos da tribo): os erros da raça humana fundamentados na natureza como tal (onde não se sabe o verdadeiro porquê das coisas); 2) Idola specus (ídolos da caverna): determinados pelas disposições subjetivas de cada pessoa; 3) Idola fori (ídolos do fórum): erros que se comete no dia-a-dia (opiniões ou ambigüidade das palavras); 4) Idola theatri (ídolos do teatro): erros provenientes das escolas filosóficas que substituem o mundo real por um mundo de fantasia, de teorias.



Concluindo, tanto para Bacon quanto para Locke a natureza deve ser dominada e para isso é preciso o homem, por meio da ciência, entendê-la e representá-la com teorias guiadas pela matemática e fundamentas pela experiência, ou seja, comprovadas empiricamente. A grande novidade da ciência é que as experiências realizadas pelos cientistas, se controladas metodicamente, podem ser universalizadas, repetidas a qualquer tempo, desde que nas mesmas condições, por qualquer pessoa e esta, necessariamente, chegará aos mesmos resultados. Mas a ciência de hoje, embora muito influenciada pelo empirismo, é empírico-formal, ou seja, extrai das experiências empíricas as leis universais que são forjadas matematicamente.

PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?

GERSON NEI LEMOS SCHULZ

Publicado originalmente
no jornal Leia Agora
de Macapá




É comum os documentos que o Ministério da Educação publica como os Parâmetros Curriculares, as resoluções do Conselho Nacional de Educação ou a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB afirmarem que a escola, acima de tudo, deve fomentar no educando o pensamento crítico, emancipador. Nos discursos mais extremados se afirma que este pensamento deve ser libertador ou até libertário. Sendo que, resumidamente, o pensamento libertador tem em Paulo Freire seu maior teórico que critica a escola tradicional, e o pensamento libertário tem como inspiração o anarquismo.

Hoje, após a Ditadura Militar, volta-se a implantar Sociologia e Filosofia nas séries iniciais e remodelar o ensino de História nos currículos básicos. Sem dúvida, esta é uma atitude madura que só foi possível com a consolidação da democracia no Brasil. Por outro lado, a Pós-Modernidade trouxe desafios nunca antes vistos: um mundo globalizado, um capitalismo sem fronteiras (que é o que entendo por selvagem, porque atropela a cultura local, a ética dos povos) e expansionista; de crises econômicas, de pobreza acentuada, de violência, de terrorismo, de enfraquecimento dos valores do Iluminismo ou a falta de outros referenciais éticos. O conceito de libertinagem se confunde com o de liberdade. Todos os discursos parecem válidos quando se impõem pela ditadura da "doxa" e pelo dinheiro de grandes corporações. Não se tem mais uma verdade, mas "pluriverdades". Nesse contexto o que se pode fazer para garimpar algo sólido e quem pode ajudar?

Talvez, mais do que ninguém, a Filosofia porque ela pode auxiliar na conquista de um dos objetivos ainda da Modernidade: construir a autonomia integral do sujeito a partir da idéia de que este nasce livre para pensar. Destarte, a Filosofia permitirá elaborar até mesmo uma crítica às bases e aos fundamentos das idéias, incluindo as políticas educacionais a que estão submetidos os alunos. Mas é claro, isto acontecerá se houver um empenho grande dos professores de filosofia e uma abertura dialética por parte dos próprios governantes que devem ter dignidade intelectual e não impedir a radicalidade da proposta filosófica: ver, julgar e agir. Caso não seja assim, não se trata de Philo-Sophia, mas de ideologia barata. E também é preciso que os próprios alunos se interessem em exercer a liberdade responsável que muitos confundem com libertinagem e irresponsabilidade quando pensam que ser crítico é agredir o professor com ironias, a escola com a depredação, o conhecimento escolar (científico) com desprezo porque ele põe abaixo o senso-comum ao qual a maioria dos alunos se prende por falta de leituras, pois todo aluno que não lê é medíocre; e a maioria dos alunos não lê.

Mas também é preciso advertir para que não se faça da Filosofia uma serva do Estado como fez a Modernidade. George Hegel (1770-1831) foi um dos teóricos que tentou fazer isso e hoje ainda se vive nas academias os resquícios deste hegelianismo quando se tenta por o pensamento a serviço da direção da escola, do prefeito ou do governador.

Finalmente, lembremos que, com o estudo da lógica, o aluno coligará os fatos históricos ainda ensinados de forma positivista. Refletir os problemas da comunidade permitirá saber a validade das teorias. Ensinar ética e moral (não de forma moralista: obrigando alguém a pensar a ou b) – mas mostrar as possibilidades de pensar X ou Y e suas conseqüências – a refletir as aporias de hoje. O mesmo acontecerá com a epistemologia que poderá apontar caminhos para o conhecimento científico e contrapor àqueles que pregam a quatro cantos contra a ciência, sem deixar de analisar também os malefícios desta.