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sexta-feira, 15 de abril de 2011

SEM CULTURA, SEM HISTÓRIA E SEM LÍNGUA: SERÁ QUE ELE É FELIZ?

Gerson Nei Lemos Schulz


Outro dia, nas férias de dezembro, estava na casa da minha mãe, uma pessoa que ama animais e que tem nada mais que cinco cães, sete gatos e um casal de frangos. Bom, assim como ela há milhares, talvez milhões de pessoas que fazem a mesma coisa, criam animais em casa, convivem com eles e os tratam como membros da família. É difícil até imaginar alguém que, quando criança, não tenha tido o seu "Totó"! Mas esse fato, não fosse tão cotidiano, causou uma situação que merece uma análise filosófica, e me levou a refletir que os animais não têm cultura, história ou língua.
Para a filósofa Marilena Chaui, cultura é aquilo que é produzido pelo homem, o que não é natural no mundo. Podemos dizer que é a rede de significados que dão sentido ao mundo que cerca um indivíduo, tudo aquilo que a sociedade em geral produz. Essa rede engloba crenças, valores, costumes, leis, moral, línguas etc.

O cachorro "Russo" deitado na relva do verão:
 feliz sem lingua, sem cultura e sem história?
A História, grosso modo, é a memória; aquilo que dá significado ontológico aos fatos (o Ser dos fatos), o que permite relacionar o antes e o depois, criar referências para que o homem se situe no mundo, envolve a noção de tempo e espaço.
Já a língua é o conjunto de regras e sinais que determinadas comunidades usam para se comunicar. São as regras gramaticais em geral. A língua é local, pertence a determinado povo. Por exemplo, o idioma inglês só é entendido pelo povo inglês, ou por quem estude e domine a gramática dessa língua. E isso difere de linguagem que pode ser verbal ou não-verbal. E os animais tem linguagem, pois, assim como você (se for homem) pode sorrir para uma mulher bonita na fila do ônibus, um cão abana sua cauda para o dono que chega, isso é linguagem, usada em contextos e para fins diferentes, mas tem o mesmo significado, representa ou indica uma situação agradável para quem a expressa.
Mas você deve estar curioso para saber porque pensei e escrevi sobre estes conceitos complexos e o que isso tem que ver com as férias! Por causa de uma cena que, caso não fosse triste até certo ponto, seria engraçada. Uma das cadelinhas morreu devido a uma doença comum aos nossos amigos caninos, a parvovirose. Era a "Preta" e ela morreu diante de seus progenitores. Sobrou para mim fazer o enterro, já que alguém tinha que cavar o buraco no jardim, embaixo da goiabeira. Durante os funerais, enquanto eu descia o corpo da morta ao fundo da cova, o progenitor macho da família descansava cochilando sobre a grama fresca olhando o enterro apático. Fechado o sepulcro, ele permaneceu lá, amorfo, descansando. Aí me perguntei: o que faria um pai humano na mesma situação?
Certamente espernearia, choraria, se revoltaria, sentiria uma tristeza profunda. Por quê?
Linguagem ele tem, caso contrário não se comunicaria com os
seres humanos.
Porque o ser humano tem cultura, história e língua. Tem memória. Sabe a diferença entre o ontem e o hoje. É capaz de dar significado ontológico às coisas, até mesmo inanimadas, humaniza o que não é humano. O animal não é capaz de fazer isso, pelo menos não por si mesmo, e aqueles que fazem algo diferente de sua natureza são adestrados pelos humanos.
Concluindo, ainda resta uma pergunta a ser respondida: quem é mais feliz, quem tem cultura, história e língua ou quem não tem? Achou que eu daria a resposta? Não darei, não, porque eu não sei [...]






segunda-feira, 11 de abril de 2011

A PEDAGOGIA DOS MONSTROS

Gerson Nei Lemos Schulz


Ao longo da história da humanidade sempre existiram monstros. No mundo antigo eram os Ciclopes, gigantes com apenas um olho; Harpias, que tinham rosto de mulher e corpos de abutres e que devoravam os homens; a Medusa, cujos cabelos eram serpentes; Centauros, metade homem, metade cavalos. O Minotauro, metade homem, metade touro; a Quimera, metade mulher, metade serpente.

No medievo eram os Incubus e Sucubus (seres invasores dos sonhos das pessoas para lhes roubar a energia vital); Dragões que, com suas línguas de fogo, arrasavam aldeias e reinos, e Sereias, que seduziam marinheiros.

Na Modernidade ganharam destaque o Lobisomem (homem lobo) e o Vampiro (homem amaldiçoado que é imortal, mas precisa de sangue para viver). Essas figuras mantinham muitas pessoas amedrontadas e se prestavam até mesmo para reis e príncipes garantirem a existência de suas funções como soberanos e se perpetuarem no poder, mesmo que supostamente defendessem a cidade de seres inexistentes.

Fonte da imagem: Frame de Robocop, 1987. By MGM Studios

Na Pós-modernidade, mesmo com a hipervalorização da tecnologia, a figura do monstro continua existindo, não só do monstro tradicional, mas o cinema se encarregou de criar outros, em boa parte que vem do espaço sideral (até porque estamos na era espacial onde discos voadores fazem certo sentido). Alien, Predador, Hal 9000, Robocop, Sexta-feira 13. Todos filmes que mostram uma criatura meio humana meio desumana lutando para encontrar sua identidade em um mundo tão estranho para ele quanto ele para o mundo com o qual interage. Alguns caçam cruelmente os homens como fazem Alien e Predador por não compreender o que é a humanidade. Já Jason, de Sexta-Feira 13, mata para se vingar. Hal 9000 de "2001: uma odisséia no espaço" quer ser humano e Robocop quer de volta sua humanidade perdida, não mata por prazer, mas é uma máquina inicialmente programada para fazer o "serviço sujo" de seus criadores como praticar o extermínio de quem incomoda a empresa que o criou.


Fonte: Frame de "Predator", 1987. 20th Century Fox
Essa é a mesma lógica binária (normal/anormal) dos monstros antigos, medievais ou modernos, a idéia é criar o medo e administrá-lo para manter o poder nas mãos de quem o administra. O medo é irracional porque seu objeto pode nem existir na realidade, mas se a imaginação o permite, ele existe!


Assim, essa lógica ainda serve hoje para os ditadores se manter no poder. O Irã diz que os EUA são o Satã (monstro) do Ocidente: cruel, invasor, destruidor. Os EUA afirmam que o monstro é o Irã porque tem armas de destruição em massa e pode matar as criancinhas inocentes que brincam no Central Park. Kadafi, o Hamas, Bin Laden (todos são monstros), e Bin Laden, tal qual Saddam (o monstro abatido para que reinasse a paz mundial) também foi criado pelos EUA mas, como na ficção, saiu do controle do criador, igual ao Frankenstein, e voltou-se contra todos que acharam por bem destruí-lo para que a "ordem natural das coisas", legitimada pela nossa cultura e educação falsamente moralistas, pudesse ficar em paz consigo mesma.

Hal 9000, frame de 2001: uma odisséia no espaço, 1968.


Por fim, é assim, o mostro e sua lógica sempre servem para amedrontar os ingênuos, os incautos. O monstro é o verdadeiro herói discriminado, ele é o bode expiatório, mas sem ele não haveria "normalidade", "ordem"; é o mesmo que dizer: por que seria necessário "deus" senão houvesse o "diabo"? Este ensaio deseja mostrar quanto a criação de "monstros" é usada para formar a cultura, para punir, para formar as mentes e torná-las "dóceis" à moral vigente.