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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

INDIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA



Gerson Nei Lemos Schulz
Prof. universitário



 Fonte da imagem:
http://www.gepazebem.org/
amor-versus-indiferenca.html/indiferenca1
Indiferente é a pessoa que não demonstra preocupação alguma com nada, se comportando de forma indiferente em face de algo ou alguém. É a ausência de interesse, a falta de consideração. Geralmente a indiferença se dá pela falta de sentimentos ou reações aos desejos, vontades ou direitos alheios.

Mas a indiferença não é apenas uma palavra, um conceito, é uma prática que vejo aumentar todos os dias nas ruas. E se aumenta nas ruas há uma origem que tem a ver com a educação.

Parece óbvio que desde a revolução industrial as mulheres ganharam cada vez mais o direito ao trabalho fora de casa, com isso o modelo de família em que apenas os homens garantiam o sustento do lar mudou. De lá para cá se tem outros modelos de família: pais solteiros, mães solteiras, avôs que criam seus netos, casais gays e outros. Essa reflexão de forma alguma tem o objetivo de responsabilizar a independência feminina para o trabalho às mudanças ou origens do aumento da indiferença. Mas um dos fatos que se somam a isso é que os filhos, não importando por quem são educados, estão ficando sozinhos em casa, pois seus pais tem que trabalhar não só porque é uma necessidade antropológica, mas também porque é uma necessidade econômica.

No Brasil, segundo o Painel Nacional de Televisores (Ibope, 2011), as crianças entre 4 e 11 anos permanecem três horas na escola e cinco horas em frente à televisão, o que significa que quem as está educando é a programação da TV aberta que, acredito, tenha poucas qualidades pedagógicas levando-se em consideração as quatro maiores emissoras concorrentes. Nesse sentido ainda se pode comparar a escola à TV no quesito financiamento. Enquanto no Rio Grande do Sul um professor com treze anos de trabalho ganha RS 1300,00/mês, um apresentador de programa dominical ganha entre R$ 1.000.000,00 e R$ 2.000.000,00/mês. Enquanto a escola ganha parcos recursos públicos que muitas vezes não chegam ao destino carcomidos pela corrupção, um espaço no horário nobre da Rede Bandeirantes custa R$ 1.000.000,00 e este espaço nunca está vago. Quem está mais motivado a trabalhar, o professor ou o apresentador de TV?

Em relação à proposta pedagógica, quem interage mais, a escola com aulas semelhantes aos tempos do nascimento da Filosofia na Grécia Antiga onde o mestre falava a uma plateia entre cinquenta ou mais pessoas? Onde o mestre pedia exercícios de fixação a seus discípulos ou como no período medieval em que a escolástica pedia aos alunos que fossem incansáveis repetindo até memorizar todo o conhecimento? Ou a TV, em que as mensagens são transmitidas por comunicadores profissionais, onde as cores, bem ao gosto das crianças, são exuberantes, os sons são agradáveis, os olhos e os ouvidos são super-estimulados, onde, nos adolescentes, se estimula o consumo de mercadorias, às vezes inúteis e com forte apelo sexual, objetificando geralmente o corpo feminino?

A escola parece que perde no quesito interesse frente a TV em mais de dez a zero! E a internet? Suas possibilidades são várias, inclusive ela pode conter todo o conhecimento humano. Vários grupos defendem que a rede mundial poderá abolir os professores e que ela será um ambiente onde cada um poderá se autoinstruir praticamente sem custos. Muito bem, é discutível afirmar isto, uma vez que se pergunta: será que os "alunos" conseguirão relacionar A e B sem a intermediação do professor?

Mas e a indiferença? Um dos lugares em que ela se manifesta mais frequentemente me parece ser no trânsito. O Brasil é o quarto país do mundo onde as pessoas são mais violentas no trânsito, com um terço dos carros que circulam nos E.U.A, o Brasil o supera no número de mortos em acidentes onde a principal causa é a imprudência. A indiferença está quando alguém troca de pista sem alertar os demais condutores da via, quando alguém não respeita os limites de velocidade, quando alguém bebe e pega o volante, quando alguém dirige com sono. E esse alguém não é o "ninguém", esse alguém é você, pode ser eu! É o cientista, o policial, o médico, o pedreiro, o pintor, o professor, o desempregado! Esse alguém tem nome, endereço e profissão. Não é o "alguém" abstrato do conceito, da teoria, é alguém real! E esse alguém deixa mortos, deixa feridos irrecuperáveis, deixa tristeza, deixa injustiça pelas ruas e estradas. Por que um motorista ultrapassa em lugar proibido ou em uma curva? Indiferença pelos demais condutores que circulam no sentido contrário da estrada?

Esse alguém é um criminoso. É um doente! É um indiferente! Não é, nessa perspectiva, a indiferença um sintoma de doença? Ou é a própria doença?

O que é o sujeito que estaciona na vaga do deficiente físico sem o ser? Não é um indiferente? O que é o caminhoneiro que ultrapassa em uma curva com seu caminhão? No mínimo um irresponsável, um estúpido com licença para dirigir! O que tem a ver com isso a TV e a escola? A TV promove propaganda de carros velozes, promove a imagem de masculinidade ainda associada à velocidade e ousadia no trânsito. Promove fragmentos: a um comercial de carros segue-se um de doce ou refrigerantes e outro de cerveja, e outro de uma rede de "fast food". Os comerciais da publicidade sempre associam a compra à satisfação do indivíduo e nunca da coletividade.

Tudo parece desconectado, sem relação com nada. Não se relaciona a regras de trânsito ao carro, ao dirigir e etc. Algumas variáveis do trânsito são tão irracionais que são paradoxais como, por exemplo, a "promessa" sem compromisso de que é possível baratear os carros para que todos os tenham. Isso é um paradoxo, se isso ocorrer, ninguém sairá de casa por falta de ruas e por falta de combustível.

Pessoalmente já rodei mais de sete mil quilômetros pelas estradas do RS e nunca fui parado por uma autoridade policial. Já fui "fechado" por caminhões bi-trens estando no meu direito de trafegar, já fui cortado por motoqueiros pela direita, já sofri várias ultrapassagem em curvas e aclives perigosos e já fui xingado, já recebi "businadas" porque andava dentro do limite de velocidade que a via determinava. Quer dizer, quem anda dentro da lei está errado pelas estradas e ruas do Brasil?

O que fazer quando a lei é amplamente ignorada? Ficar indiferente a ela? Adequar-se à situação? É o que o próprio sistema, que tem a indiferença inerente, faz com as pessoas. Esse modo de vida atual que associa sucesso à produção e à rapidez e deixa cada vez mais mortos leva a sociedade ao colapso onde as leis de convivência social não funcionam mais justamente porque as pessoas, para poder atender à demanda pessoal, as ignoram como se elas fossem obsoletas e não uma salvaguarda do respeito a todos, mas um obstáculo ao indivíduo. O interesse privado supera o interesse social. Como o interesse pessoal é propalado abertamente pela TV e também pela escola como a "regra geral", o "imperativo categórico da sobrevivência" dentro deste modelo de civilização fica, assim, impossível a auto-crítica. É impossibilitada a crítica ao próprio modelo que é tomada pela maioria das pessoas como o modelo mais perfeito e até natural, sendo, portanto, estranhos aqueles indivíduos que dele discordam.

Fonte desta imagem e arte:
http://natrilhadocastelo.blogspot.com.br/
2012/12/assassinato-de-indio-galdino.html
Outro exemplo de indiferença que gostaria de relembrar é o caso do índio pataxó, o índio "Galdino", morto com 95% do corpo queimado por cinco jovens em Brasília há dezesseis anos, aos 44 de idade. Dos sete condenados, todos já estão soltos. Alguns hoje ocupam cargos públicos, inclusive. Na ocasião, em 1997, os assassinos alegaram que apenas queriam brincar com a vítima. Será que atear fogo a uma pessoa que está dormindo, sem direito à defesa, é "brincar"?


O mais curioso é que este crime ocorreu na capital federal e os condenados não ficaram presos mais do que cinco anos. Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2012, um mendigo foi amarrado a uma pilastra de uma caixa d'água pública, empalado e depois queimado vivo. Na cidade de Pelotas a notícia ganhou pouco destaque nos jornais. Após alguns dias, um cachorro foi morto por um cidadão que defendia uma criança de seu ataque. A população pelotense se indignou com o "assassinato" do animal e organizou passeatas pedindo justiça ao animal morto. Um vereador até propôs a criação de uma comissão especial municipal de defesa dos animais. O homem que matou o cão está respondendo por crime contra os animais. O mais estranho é que ninguém protestou pedindo justiça ao homem que foi empalado, sem chance de se defender, e depois queimado vivo! Pelotas tem 350.000 habitantes, não é no mínimo estranho que seus cidadãos não tenham se indignado também com esse assassinato crudelíssimo?



A indiferença que se manifesta em todos os lugares a qualquer hora é algo que mata as pessoas em nome do egoísmo, do desvalor. Será a indiferença um novo valor social?
Mas caso a indiferença seja reconhecida como um novo valor será, então, um direito! O direito à indiferença! Mas um direito contraditório porque levaria ao colapso a sociedade em função de que se todos forem indiferentes ao outro e a tudo, a própria sociedade que, para funcionar, necessita de um mínimo de cordialidade e solidariedade, se extinguirá por auto-contradição.
Por fim, parece que com a indiferença sendo um novo valor estará estabelecido aquele jogo em que se um ganhar todos perdem porque à medida que um tiver direito de ser indiferente, todos terão e então as regras de convivência e a lei, a cordialidade e a boa convivência estarão banidas. Voltar-se-ia ao estado de natureza, como diz o filósofo Thomas Hobbes, àquele estágio de selvageria que havia antes da existência da civilização como a conhecemos.