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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A filosofia da ciência ou a ciência da filosofia?

Gerson N. L. Schulz


Muitos acadêmicos me perguntam: a filosofia é ciência? Há argumentos para responder que não, mas me aterei aos que afirmam que sim por dois motivos: primeiro porque concordo com a filósofa brasileira Marilena Chaui que diz: "ciência é aquilo que tem método e objeto" (Convite à Filosofia, 2005). Sendo assim, qual o objeto da Filosofia? O homem. O pensamento humano enquanto cultura (arte, outras ciências, religião). Além disso, há vários métodos filosóficos para estudar a realidade. O segundo é a classificação do CNPq e Capes (órgãos de pesquisa científica) que afirmam a Filosofia como ciência humana, embora todas as ciências sejam construções humanas!
A dúvida surge no séc. XVI quando filósofos racionalistas elegem a Matemática modelo para as demais ciências. Desde então: Biologia, Física, Química, etc., ganham status de ciência por produzir modelos para explicar a realidade e prever seu comportamento. Tratando-se de exatidão, no caso dessas ciências (derivadas da Filosofia) é preciso considerar que os modelos não são cópias da realidade, são tentativas de explicá-la porque só se pode copiar algo que se vê e o cientista não vê a "realidade", imagina-a. E os modelos se tornam leis quando explicam um grande número de casos (prever o clima, fabricar a bomba atômica) e são aceitos. Mesmo usando a linguagem matemática, nem sempre há acerto, senão a Meteorologia não erraria nunca!
E o átomo? Você já viu? – Eu não. Mas todos acreditam nele. Isso porque se tem um bom modelo que explica a natureza da Química e da Física, satisfatoriamente. Quando aparecer algum fenômeno onde não se aplica esse modelo, "já era"! Buscar-se-á outro melhor. Foi o caso de Ptolomeu que dizia que a Terra estava no centro do universo, seu modelo foi superado pelo de Galileu.
Como afirma Karl Popper "não é porque vejo mil cisnes brancos num lago que poderei dizer que todos os cisnes do mundo são brancos". Ao surgir um cisne negro, meu modelo se esgota. E Rubem Alves em Filosofia da Ciência: "a ciência não descreve a realidade, ela constrói modelos para explicá-la". Por isso não é possível afirmar que a Filosofia, a História, a Pedagogia não são ciências apenas porque seus modelos não descrevem "realidades". Ou pseudo-realidades? E, em alguns casos o fazem, sim. É verdade que nem sempre os saberes dessas ciências estão preocupados com a produção industrial utilitarista. Alias, não é esse um critério mal interpretado para classificar algo como ciência?
É claro que saber eletricidade e mecânica produz foguetes, satélites e micro-ondas, mas isso é critério para dar status de ciência? Caso seja, não é possível dizer que a Filosofia produz democracia? Política? Educação? O paradigma moderno da astronomia, pois Galileu, Newton e Einstein eram filósofos que matematizaram a natureza, mas que sem imaginação não teriam feito nada. Aliás, não é a própria Matemática ciência filosófica? Porque você acredita que 2+2 = 4? Em outro planeta onde o numeral 2 valesse 3, 2+2 seria 6. A Matemática também não é absoluta.
Portanto, não esgotando a discussão, a Filosofia tem métodos e objeto. E aí, você acha que é ciência?

NIETZSCHE: FILÓSOFO DO NAZISMO?

Gerson N. L. Schulz


Friedrich Nietzsche
No dia 25 de agosto passado se completaram 109 anos da morte do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Não é possível num pequeno artigo dizer tudo o que Nietzsche representa para a filosofia, mas como em primeiro de setembro aniversaria também a II Guerra Mundial, gostaria de refletir sobre a pseudo-influência nietzschiana sobre o nazismo. Nietzsche não era anti-semita. Este termo, definido para designar a hostilidade contra os judeus em 1879, baseia-se na teoria que considera a raça ariana superior, tanto fisicamente como pelo caráter e pela inteligência. Nietzsche falava em "homem superior", não necessariamente o homem branco, europeu e etc.

Em 1883-4 a Europa foi tomada novamente pela onda anti-semita. Período em que Elisabeth Nietzsche (irmã do filósofo) conhece Bernhard Förster, anti-semita convicto, e se torna sua noiva. Discordando das idéias do cunhado, em 2/04 de 1884, Nietzsche rompe com a irmã quando ela anuncia seu casamento e também adere ao anti-semitismo. No mesmo ano, Nietzsche afasta-se de seu editor, Schemeitzner, acusando-o também de anti-semita. Ao iniciar 1886, Elisabeth e Bernhard partem para o Paraguai para fundar sua colônia Teutônica que faliu em 1889 (ano em que nasce Hitler na Áustria). Após a morte de Nietzsche, a irmã (já viúva) funda o Nietzsche-Archiv em Naumburg e, a partir daí, assume o controle dos escritos nietzschianos.

Bandeira com a cruz suástica gamada
tendo à frente o símbolo de proibido

RACISMO É CRIME
Em 1921 quando Adolf Hitler assume a presidência do Nationalsozialistichen Deutschen Arbeiterpartei (Partido Nazista), o anti-semitismo ressurge com força total em suas idéias 'salvacionistas'. Hitler, após ter sido servente de pedreiro, candidato a aluno de artes e cabo do exército na I Guerra, tenta em 1923, um golpe de Estado (Putsch da cervejaria) que o condena à prisão. Lá redige Mein Kampf com as bases do nazismo. Hitler acusava os judeus de terem traído a Alemanha na I Guerra e de serem os responsáveis pela miséria alemã porque muitos controlavam grandes bancos e fábricas. Em 1929, com o aumento da crise mundial devido à quebra da Bolsa de valores, os nazistas ganham apoio popular. E em 1932, Hitler se elege deputado. Mas é em 1933 que Von Hindenburg (presidente da República) nomeia Hitler chanceler. Feito isto, Hitler funde os cargos de presidente e primeiro ministro e torna-se o Führer (condutor) da Alemanha. Inicia-se o nazismo que culmina derrotado em fins de abril de 1945.


Elisabeth Nietzsche
1846-1935
Mas, enfim, porque associam Nietzsche ao nazismo? Porque sua irmã viveu sob o regime hitlerista efetuando, de posse dos arquivos Nietzsche, grotescas modificações nos escritos do irmão para agradar aos nazistas e tornar Nietzsche popular. Ela, inclusive, presenteou Hitler com a bengala do filósofo. Foi assim, por exemplo, que a idéia de Übermench (mal traduzida como super-homem) foi tida como sinônima de 'super-homem-alemão-soldado-nazista'. Nietzsche nunca afirmou isso. Para ele, inclusive, os alemães eram a pior espécie da Europa. A idéia de além-do-homem significa a auto-superação e o repúdio à hipocrisia da cultura judaico-cristã europeizada.

Guerra e Paz

Gerson N. L. Schulz


O há de importante nesta data? Alguém lembra? Tem que ver com Luís Alves de Lima e Silva. Quem foi ele?

E seu eu falar: Duque de Caxias? Facilita? Pois é, é o dia do soldado. Que perdeu popularidade desde que enfrentamos a ditadura militar no Brasil. Dia dos soldados do exército brasileiro que quase nunca é lembrado pela população. Por que será?

Parece claro que nem os governos nem o povo brasileiro gostam de guerra como gostam os governos norte-americanos. Pois nossas participações em guerras contra outros povos parecem ter ficado para os séculos passados.

Nesse sentido a intenção do artigo não é discutir a guerra, antes é rechaçá-la, desprezá-la. Mas nem por isso desprezar o soldado que garante a existência do estado e da nação (quem quiser saber a diferença vá ao dicionário, por favor). Nesse sentido quero homenagear os soldados com um poema, pois a filosofia também estuda a literatura e dela se serve, e vice-versa, para pensar e refletir. "Guerra Negra: quantas guerras terei de vencer?/A procura da paz./Quantas pessoas terei de ver?/Envenenadas a gás./Quanto tempo terei de sobreviver?/Com pessoas más./Quanta destruição terei de fazer?/E não sou capaz./Quantas noites terei de sofrer?/Feito um pobre rapaz./Quantas vezes finjo esquecer?/O que ficou para trás./Quanto tempo me resta dizer?/Não me suporto mais."

Sabem de quem é este poema? É de Felipe Roque dos Santos, jovem universitário do curso de Pedagogia da UEAP aqui no Amapá. Poema este que foi publicado na obra: Tempo, lançado há pouco na cidade italiana de Milão-Itália. Por que será que não foi primeiro publicado no Brasil? Porque não valorizamos a cultura? Ou porque as editoras brasileiras preferem importar tudo que vem de fora que às vezes nem merece ser lido? Fico com a segunda opinião. E por isso espero que a imprensa amapaense dê grande destaque a este evento, pois o livro será lançado no Brasil na Semana de Ciência e Tecnologia da UEAP a se realizar em outubro. Filosoficamente estou me servindo do poema deste jovem para lembrar o ser humano que existe dentro de cada soldado e também o soldado que existe dentro de cada um de nós.

Para finalizar, como filósofo pós-moderno que me considero, há vezes em que o pensamento tem de dar lugar ao sentimento que também é parte do homem. E, em minha opinião, esse poema é uma excelente contribuição da literatura para pensarmos a natureza belicosa, fria e triste da guerra e fazer nossos líderes militares se perguntarem: em tempos de democracia será ainda necessário o alistamento obrigatório no Brasil?

O QUE É ÉTICA?

Gerson N. L. Schulz



Assunto muito corriqueiro no dia-a-dia, a ética se tornou mais um produto virtual. Desses que se fala muito, e, inclusive, diz-se que está em falta. O dicionário Aurélio afirma que ética significa "estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal". Já para a filósofa Marilena Chauí (em sua obra 'Convite à Filosofia'), a palavra ética está intimamente ligada à palavra costume. Em grego, costume se diz ethos, daí ética. Em latim, mores daí, moral. Isso significa que a palavra moral é apenas a tradução do grego para o latim.


Então se pode inferir que algo considerado errado para a sociedade Ocidental, seja certo para a sociedade Oriental? Sim. Um exemplo é o uso da burca (traje obrigatório em países islâmicos para mulheres) que os ocidentais apontam como violência contra a mulher. Porém, enquanto os ocidentais toleram a pornografia, aqueles países a proíbem por considerarem-na ato criminoso contra a integridade da figura feminina. Assim, como definir o que é certo ou errado, afinal? Em quais pontos sociedades tão diferentes poderiam concordar?


Talvez no que tanja a proteger alguém de coerção, seja por meio da força, a fazer o que não quer; impingir meios para levar uma pessoa à loucura, ao suicídio, a matar ou agredir outrem, ao constrangimento. Isto é, qualquer forma de organização social que se queira ética deve levar em consideração o respeito à vida.


Para isso é preciso que a sociedade civil e politicamente organizada (seja qual for) defina e divulgue claramente por meio de suas instituições educativas, culturais e judiciais o que é considerado violência para si. Ética torna-se "barreira" para os desejos individuais (egoístas) de forma a tornar possível a vida em sociedade, impedindo que os indivíduos se destruam, estabelecendo deveres para garantir direitos.


Posto isto, qualquer código de ética deve se pautar na tolerância e no respeito ao indivíduo/cidadão, impedindo, por quaisquer meios, que a pessoa humana seja considerada objeto. A ética deve garantir que "jamais o homem seja usado como meio para se atingir um fim, mas que a pessoa humana seja o próprio fim." (KANT, Metafísica dos Costumes, 1990).


Enfim, definidas as regras éticas, define-se a Lei. E a Lei deve ser tornada pública de forma que quem for pego transgredindo-a seja julgado e, se condenado, punido. Isso não simplesmente porque está infringindo um código, mas porque ao desrespeitar a Lei, agride a sociedade que a construiu e, conseqüentemente, o direito dos outros, pondo em risco a vida coletiva, garantida pelas instituições eticamente estabelecidas.

O QUE É A FILOSOFIA?


Gerson N. L. Schulz





Para iniciar este blog nada melhor do que explicar para os leitores do que se trata a proposta. O Blog Filosofia do Marco Zero, que a partir de hoje semanalmente publicará um texto inédito, se trata de uma forma de divulgar o pensamento de diversos autores das áreas de filosofia e educação em geral nesses mais de 3.000 anos de história do Ocidente, e suas implicações no cotidiano e nos dias atuais.


Didaticamente é bom ter em mente que a história é dividida em dois grandes períodos: a pré-história e a história. E dentro da história tem-se a história do mundo antigo, medieval, moderno e contemporâneo. Filosoficamente os três primeiros períodos são os mesmos, exceto o último que os filósofos consideram (não unanimemente) como pós-modernidade e não contemporânea.


Assim, àqueles que acompanharem o blog saberão quais as contribuições para a ciência e a educação de autores como Platão, Aristóteles, S. Agostinho, Descartes, Locke, Kant, Nietzsche (se diz nitchê) e outros autores. Em educação falar-se-á de Piaget, Vigotysk, Paulo Freire, José Carlos Libâneo e etc. Bem como de idéias e autores que você poderá escolher por meio do contato direto com o autor pelo correio eletrônico que está no fim do artigo.


E para começar o assunto, para quem ainda não ouviu falar sobre filosofia, do que é mesmo que trata essa disciplina?


A filosofia, de acordo com os manuais, é mérito dos gregos antigos. Em Atenas (Grécia) viveram alguns desses grandes nomes, cujas idéias até hoje merecem estudos e pesquisas. Sócrates (que muitos conhecem por afirmar que nada sabia) não foi o primeiro a pensar nova sociedade, nova política e nova organização social. Antes dele viveram outros pensadores e antes desses os homens buscavam explicar a origem do universo, da vida, de si mesmos e sobre seu destino, sobre a existência ou não existência de deuses, por meio dos mitos.




Atribui-se ao filósofo Pitágoras (século V a.C) a invenção da palavra filosofia. Dizia ele que aquele dentre a multidão que ia aos Jogos Olímpicos para apreciar e avaliar o desempenho dos atletas, além de julgar seu valor, agia como filósofo, pois não ia apenas para se divertir, mas para aprender e participar da cultura. Segundo Pitágoras o vocábulo filosofia é formado por "filo" (em grego: "amigo", "amante") e "sophia", ("saber", "sabedoria"). Então se tem "amigo do saber", eis o filósofo. Apesar de Pitágoras afirmar que a verdade pertence aos deuses, ele disse que o homem deve pensar (filosofar) para se aproximar dos deuses e da verdade. Pitágoras também era matemático e foi graças ao seu exercício de filosofar que desmistificou a realidade circundante e inventou o famoso "teorema de Pitágoras" que desenvolveu a matemática e sem o qual a engenharia não poderia construir pontes, casas e prédios com facilidade.


Enfim, a filosofia surgiu quando os gregos perceberam que o mundo não está cheio de mistérios indecifráveis, mas que nele mesmo podem estar as respostas para diversas dúvidas e que estas podem ser esclarecidas por meio da razão que é universal e está presente em todos os homens. A atitude filosófica inicial surge do espanto que os homens manifestaram diante da natureza e de si mesmos. De onde veio o homem? Para onde vai? O que é o homem? São questões que ninguém ainda respondeu satisfatoriamente. Para início de conversa, isso é filosofar.