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segunda-feira, 9 de março de 2015

ANÁLISE FILOSÓFICA DO FILME: "TROPA DE ELITE 2"



Gerson Nei Lemos Schulz
Professor de Filosofia
na Rede Pública Federal do Brasil

"Este artigo contem spoilers"



Ator Wagner Moura
(Tenente-coronel Nascimento)
Zazem Produções e Globo Filmes, 2010.
"Tropa de Elite 2", produção brasileira de 2010 da "Zazem Produções" e da "Globo Filmes", dirigido por José Padilha, com Wagner Moura (Tenente-coronel Nascimento), André Ramiro (Capitão Matias), Milhem Cortaz (Tenente-coronel Fábio), Irandhir Santos (Deputado Fraga), Seu Jorge (presidiário Beirada), Sandro Rocha (o miliciano Major Rocha), André Mattos (Deputado Fortunato) e Tainá Müller (repórter Clara) além de outros personagens, é um filme que mostra as atividades de um tipo de braço armado (ou paramilitar) conhecida nos morros cariocas como "milícias".


O filme argumenta que a origem de parte da violência é a corrupção instalada não só no dia a dia das pessoas, mas nas esferas do Estado onde a força policial é dividida entre os policiais honestos e os corruptos – estes últimos a serviço ou associados da classe política corrupta – tanto no Executivo quanto no Legislativo. O filme de Padilha mostra a cultura da promiscuidade político-partidária quando aponta que vários são os políticos que se beneficiam do dinheiro das drogas e oriundo de outros serviços controlados pela milícia na periferia carioca como a venda de sinais de internet e TV a cabo piratas, distribuição de gás, água e outras mercadorias dentro das favelas com ágio ou impostos – inexistentes legalmente – que financiam as atividades da milícia. Também são cobradas (como faz há anos a Máfia italiana) mensalidades por "proteção" aos comerciantes.


A "milícia" é formada basicamente por policiais da ativa que, descontentes com seus salários e com as condições de trabalho (armas defasadas, viaturas decadentes e sobrecarga de trabalho), usam seu poder de "braço armado" do Estado (porque são agentes legalmente autorizados a usar sua arma e tem o poder de polícia) para praticar crimes contra o cidadão.



O ator Sandro Rocha
(Major Rocha), miliciano.
Porém, essa "milícia" mostrada no filme de Padilha tem um "modus operandi" bem diferente das quadrilhas clássicas de traficantes mostradas no primeiro filme. A "milícia" – como se comenta no "Programa Alerj Debate", exibido em 12/4/12 com a participação do Deputado carioca Marcelo Freixo, o ator Wagner Moura e o cineasta José Padilha: "em dez anos, conseguiu algo que os traficantes não conseguiram, conquistar o poder político. A milícia hoje financia políticos a cargos de vereadores e deputados estaduais ou federais."


"Tropa" mostra mais, explicita o círculo vicioso da relação entre a miséria, a esperteza (onde desde o pobre que quer assistir TV a cabo por um preço muito mais baixo, ao policial que quer ganhar dinheiro por fora, ao político que quer se perpetuar no poder ou ascender de cargo) e a dinâmica da prática da conivência de uns grupos com os outros por interesses comuns. Essa é a lógica onde todos querem sair na vantagem, perdendo-se, assim, os valores da ética tradicional. A violência e a política se unem onde a violência (não só simbólica, mas física mesmo) é praticada cotidianamente e vai se banalizando.


A política e os políticos fracassam (ou é proposital?) quando agentes do Estado não se responsabilizam pela execução eficiente das políticas públicas cujo dinheiro do Governo Federal na maioria das vezes é enviado, porém, em parte é desviado pelos caminhos da burocracia no pagamento de propinas ou nos superfaturamentos em estados ou prefeituras.



Outra perspectiva mostrada no filme aponta que a "grande corrupção" nasce da "pequena corrupção", pois quando alguém que mora na favela compra o sinal de internet ou da TV a cabo pirata e paga pelo "serviço" aos milicianos que o vendem está financiando diretamente a compra de armas necessária para os criminosos para exercer suas atividades que são, na própria dinâmica dessas organizações, violentas e que acarretam a eliminação de pessoas que são contra essas atividades ou nas trocas de tiros com as forças armadas oficiais. O resultado são assassinatos, sequestros, estupros, exploração de toda ordem das pessoas com menor poder aquisitivo, porém são essas mesmas pessoas exploradas que mantêm o sistema do crime na mesma lógica do consumidor de drogas que, ao comprar do traficante, sustenta o tráfico.


A "grande corrupção" se alimenta da "pequena corrupção" e vice-versa quando o Estado paga mal seus policiais, quando alguns cidadãos compactuam (por 'n' motivos) com o tráfico ou com a milícia e obstruem a justiça ao hostilizar policiais ainda sérios que querem investigar tais crimes praticados pelos milicianos. Nas favelas cariocas – mostra o filme – o crime compensa, sim. O crime alimenta o tráfico de armas, a violência, as mortes de inocentes. Há lá uma justiça paralela que julga, cria penas (inclusive a de morte) e as executa a margem da Lei oficial e, por enquanto, livremente com a pouca eficácia das Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs, que não conseguiram acabar com o tráfico ou atividades de milicianos.


Assim como no primeiro filme também não é esquecida a "pequena corrupção" praticada, como dito acima, pelo cidadão consumidor de drogas que financia o tráfico e nem o tema do tráfico de armas, movimento que se inicia nas fronteiras do Brasil com países como Paraguay, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela.

O Cantor "Seu Jorge" (Beirada) e
Irandhir Santos (Deputado Fraga)

Padilha mostra também os resultados da corrupção praticada pelo cidadão eleitor que vende seu voto para pessoas que sabe que são criminosas. Mas o filme não aponta apenas (maniqueisticamente) o bom e o mau. Mostra também o oportunismo de arautos que usam causas sociais em benefício político próprio (como a causa dos "direitos humanos") defendida pelo personagem "Fraga" que se elege deputado em nome dessa causa apesar de – no exercício do mandato – ter tido papel importante no combate à corrupção, mas que apesar disso, consegue uma cadeira (na ficção) na Câmara Federal dos Deputados.


André Mattos (Deputado Fortunato),
chefe das milícias cariocas.
Ao término do filme há aquela sensação de impotência frente a uma realidade distorcida pela corrupção. E essa corrupção é cotidiana, ocorre nas menores coisas como na venda de votos (será que quem vende seu voto se pergunta de onde vem o dinheiro do pagamento?). – Pode ser o dinheiro que compraria a merenda para escola de seu filho; do curativo do posto de saúde da comunidade ou não?


Para concluir, várias são as perguntas que se pode induzir nas entrelinhas dos diálogos do filme como: "Por que os corruptos são eleitos?" "Por que as pessoas toleram a corrupção no Brasil?" "Quais são as causas mais diretas da corrupção?" "Essa estrutura de poder que se instaurou – e que perpassa toda a sociedade brasileira – deve ser mantida, é a mais saudável?" A corrupção não é um mau brasileiro, apenas; é mundial e existe há séculos, porém aqui parece ser sábia a definição de Thomas Hobbes quando ele diz, na obra "Leviatã" que: "o homem é o lobo do homem". Ao aplicar essa máxima à forma como a realidade é mostrada no filme "Tropa de Elite", pode-se facilmente perceber que, em uma sociedade em que todos querem se "dar bem" a qualquer custo, não levará muito tempo para que todos estejam contra todos!


Com "Tropa 2" é difícil sair do cinema sem a crença de que o que está expresso na letra do "Rap das Armas", de "Cidinho" e "Doca", seja verdadeiro, por enquanto...!
Parapapapapapapapapa
Paparapaparapapara clack bum
Parapapapapapapapapa
Morro do Dendê é ruim de invadir
Nois, com os Alemão, vamo se divertir
Porque no Dendê eu vô dizer como é que é
Lá não tem mole nem pra DRE
Pra subir aqui no morro até a BOPE treme
Não tem mole pro exército, civil nem pra PM
Eu dou o maior conceito para os amigos meus
Mas Morro Do Dendê também é terra de Deus
Fé em Deus, DJ
Vamo lá
[...] Vem um de AR-15 e outro de 12 na mão
Vem mais dois de pistola e outro com 2-oitão
Um vai de URU na frente, escoltando o camburão
Tem mais dois na retaguarda, mas tão de Glock na mão
Amigos que eu não esqueço, nem deixo pra depois
Lá vem dois irmãozinhos de 762
Dando tiro pro alto só pra fazer teste
De INA-Ingratek, Pisto-UZI ou de Winchester
É que eles são bandido ruim, e ninguém trabalha
De AK-47 e na outra mão a metralha
Esse rap é maneiro, eu digo pra vocês
Quem é aqueles cara de M-16
A vizinhança dessa massa já diz que não aguenta
Nas entradas da favela já tem .50
E se tu toma um pá, será que você grita
Seja de .50 ou então de .30
Mas se for Alemão eu não deixo pra amanhã
Acabo com o safado dou-lhe um tiro de Pazã
Porque esses Alemão são tudo safado
Vem de garrucha velha dá dois tiro e sai voado
E se não for de revolver eu quebro na porrada
E finalizo o rap detonando de granada
Parapapapapapapapapa, valeu
Paparapaparapapara clack bum [...]

REFERÊNCIAS

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – ALERJ. ALERJ DEBATE. Com: Marcelo Freixo, o ator Wagner Moura e o cineasta José Padilha. ALERJ: Rio de Janeiro, 12/4/12. Disponível em:< https://www.youtube.com/watch?v=YEyyiwmqJw8>. Acessado em: 09/03/2015, 5:00:00.

MC Júnior; MC Leonardo. Rap das Armas. Formato(s) Airplay. Gênero Funk Carioca. Rio de Janeiro: Columbia (gravadora), 1995.

HOBBES, Thomas. Leviatã – ou Matéria, Forma e Poder De Uma República Eclesiástica e Civil. São Paulo: Martin Claret, 2001.