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quinta-feira, 16 de maio de 2013

O QUE É DIALÉTICA EM MARX?



Prof. Gerson Nei Lemos Schulz

Editor



1 O Conceito Geral de Dialética



Karl Marx - 1818-1883.
Pode-se afirmar, de forma geral, que a dialética é um jogo de oposições, uma forma de dialogar com coerência e com lógica. Para Zanotelli (Orçamento Participativo: pressupostos ético-críticos para a participação popular, 2003) ela pode ser também o caminho para o consenso e para a verdade.

Então, o discurso, tentando unificar num todo lógico os níveis formais, encontra oposições que resultam da finitude do sujeito ou da multiplicidade e contingência do objeto.  Ao intentar a unidade no centro das oposições, o discurso se torna dialético. Dialético é tudo o que se refere à discussão.


Para Zanotelli (2003), todo aquele que fala pretende que o objeto apresentado possa encontrar sentido de consenso no interlocutor e isso se dá por meio de argumentos os quais o interlocutor poderá opor seus contra-argumentos. Já para Habermas (Pragmática Universal), a ação comunicativa que pretende um "por-se de acordo sobre algo" que se apresente, supõe que o objeto apresentado sintetize os argumentos para o consenso. Ele é o consenso da discussão.

Mas é importante perceber que a identidade e a negação acontecem na síntese. Assim a tese só é tese na síntese. A "anti-tese" só é e ganha sentido de antítese na síntese. A análise, como exame do desdobramento dos opostos, e enquanto opostos, tem na síntese seu horizonte, sua raiz e seu "telos". Mas, de onde vem a síntese?



Filósofo gaúcho, Dr. Jandir João Zanotelli.

Tudo, se é síntese, desde a menor partícula da matéria até a forma de vida mais plena (animal, homem), não é justaposição de oposições, anulação de oposição, fuga da oposição. É a possibilidade da oposição enquanto oposição. Recolhe, guarda os opostos em sua identidade de opostos desde e a partir de sua superação.

A síntese, portanto, não é apenas resultado da oposição e sua negação. É ela que possibilita a oposição e a negação como ultrapassagem que recolhe a ambas e as eleva, mantendo-as em sua identidade e negatividade.

Assim, um ente só é si próprio, idêntico a si mesmo, se oposto a todos os outros entes (que são sua negação). Um cão é cão porque não é árvore, homem, mesa, etc. A árvore é árvore enquanto não é cão. Mas o que determina a árvore e o cão não é um ou outro, nem ambos juntos como soma (não somam porque são opostos), mas são referidos, vinculados, ligados um ao outro enquanto opostos, pela síntese (vida, ser) que os antecede, penetra e ultrapassa. Assim, a vida não é o cão, nem a árvore, nem a soma de todos os entes vivos: a vida identifica a cada vivente enquanto idêntico a si e diverso de todos os outros, a vida os vincula e diferencia, a vida os ultrapassa e garante. A própria vida faz sínteses, é o que conclui Zanotelli (2003).


2 A Dialética para Marx e Engels


Até aqui este ensaio sintetizou o conceito de dialética de forma geral. Cabe agora tratar-se da dialética de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) e das três leis da Dialética.
Marx e Engels estudam os fenômenos da natureza (incluindo os fenômenos sociais) para deduzir suas leis de funcionamento e para compreender a essência delas. É isso o que Engels faz em sua obra "O Anti-Dühring" de 1878.
Porém, para compreender essas leis é necessário compreender antes (e aceitar como tais) três pressupostos ou, como chama o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Augusto Triviños (em seu livro "Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais, 1987), categorias, que são:

1) A matéria: incriada, indestrutível e eterna, forma a realidade objetiva (o mundo, o universo), fora da mente humana sendo por pela apenas interpretada, copiada e sentida;

2) A consciência: é uma propriedade da matéria altamente organizada e que, por possuir propriedades muito especiais como as capacidades lógicas, a representação, a sensação, as formação dos juízos, a reflexão, produz imagens do mundo real. A consciência também é formada pela linguagem e pelo mundo do trabalho organizado que só é possível aos seres humanos;

3) A prática: é toda atividade humana material destinada a transformar a natureza e a vida social. Ela pode ser mais bem expressa na Décima Primeira Tese de Marx e Engels contra Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de formas diferentes, cabe transformá-lo".

Aceitas essas teses, parte-se para a dedução material das leis. A Primeira Lei, de acordo com o prof. Sílvio Sant'Anna (em seu ensaio: A cosmovisão dialético-materialista da história, 2009) é a da Passagem da Qualidade à Quantidade e Vice-versa. Ela diz que tudo muda na natureza ou na cultura humana, mas em ritmos quantitativamente diferentes. Já o professor Triviños exemplifica dizendo que os objetos têm propriedades e isso é sua qualidade que só pode ser conhecida quando se sabe suas propriedades, sua estrutura, sua função e a finalidade do objeto.

A água serve de exemplo quando se aumenta sua temperatura de zero a cem graus. Nesse caso, há uma mudança quantitativa na água, mas ela mantém as mesmas propriedades. Já quando atinge os cem graus, ela transforma-se em vapor se tornando uma substância com outras propriedades devido a alterações de quantidade (de temperatura). Da mesma forma, atingindo o ponto de gelo, ela não dissolve mais outras substâncias, transformando-se em algo completamente novo.

É daí que, em termos sociais, Marx e Engels defendem que a sociedade, quando quantitativamente seus índices de violência, desigualdade entre as classes sociais, aumento de operários sem condições de vida digna, mas também diminuição do analfabetismo e da condição de subnutrição, variarem, haverá a passagem do capitalismo para o socialismo, que é uma sociedade com propriedades completamente diferentes das do capitalismo.

Professor Dr. Triviños
Foto: Jones Bastos/Agecom.
Aqui é preciso observar que no pensamento de Marx e Engels é importante que se diminua as condições de subnutrição das pessoas e os índices de analfabetismo porque é só ocorrendo a seguinte condição material sine qua non que é: "o homem precisa vestir-se, abrigar-se e comer para depois fazer política, filosofia e religião", que poderá refletir sobre a sociedade.

Caso o capitalismo sofresse essa transformação quantitativa, a situação chegaria ao ponto de transformação assim como a água que ferve se transforma em vapor. O capitalismo, então, se tornaria outra coisa. Para Marx e Engels essa outra coisa é o socialismo em que há provisão de saúde, moradias, emprego e educação para todos, aumento da produção industrial e diminuição ou inexistência da divisão das classes sociais.

A Segunda lei é a "Lei da Contradição" e diz que todo objeto tem seu contrário e que concorrem ambos para a transformação. Esta lei é a essência do materialismo porque afirma que tanto na natureza quanto na cultura, a matéria está em movimento que é a propriedade para transformação, para a superação e para a mudança de qualquer fenômeno.

Ao se partir desse pressuposto de que toda a matéria e todo objeto, incluso o homem, são condicionados por seus horizontes históricos e que todas as sociedades conhecidas sempre estão divididas em classes sociais, cujo critério é o fator econômico, então toda classe também gera sua contraditória (senão se quer ferir as convenções da lógica formal, o melhor termo seria antagônico ou contrário porque contraditório é aquilo que não concorda com parte de um todo e não com a totalidade do mesmo). Por exemplo, é a classe dos capitalistas que possui, dentre outras, a propriedade de ser rica enquanto dona dos meios de produção, sua contrária é a classe operária em que uma de suas muitas propriedades é ser pobre e explorada pela outra. Nesse sentido, não existiria a classe capitalista sem a classe trabalhadora.

Friedrich Engels - 1820-1895.
A Terceira Lei é a Lei da Negação da Negação e ela é essencial para a mudança de um estágio para outro. Como exemplo, pode-se pensar que a matéria evoluiu desde os aminoácidos até o complexo cérebro humano. Da mesma forma a sociedade, no mundo primitivo, não possuía a propriedade privada dos meios de produção, tudo era coletivo. Foi somente com sua evolução para organizações maiores como as cidades e para o Estado que surgiu a divisão do trabalho e a propriedade privada, ficando os frutos da produção nas mãos de poucos e surgindo, pouco a pouco, a desigualdade social.

Como para Marx e Engels toda classe gera sua contrária, o mundo Antigo escravocrata gerou a idade Média cujas classes eram os senhores feudais e os servos da gleba, e a Modernidade gerou os capitalistas e os trabalhadores assalariados e pobres.

Aqui se precisa compreender a diferença que Marx e Engels estabelecem entre evolução e revolução. Na primeira, não se alteram as qualidades quando ocorre uma mudança, seja na água que apenas ferve ou na sociedade que se agita. Na segunda, ocorre uma mudança completa na qualidade, pois o objeto se transforma em outra coisa completamente diferente do que era como a água que vira vapor ou uma sociedade que se revolta e estabelece, por exemplo, o fim da propriedade privada dos grandes meios de produção.

Conforme o professor Sant'Anna (2009) "a negação da negação" é como o movimento contrário de duas engrenagens que, girando para lados opostos garantem algo essencial para cumprir seu objetivo, o movimento. É a negação da negação entre duas teses (como as engrenagens) que gera o movimento (a síntese) que é a superação da contrariedade.


3 Há regras práticas para a análise dialética?


Sim, pelo menos é o que propõe o filósofo Henri Lefèbvre em sua obra "Lógica Formal, Lógica Dialética". Apesar de parecer uma redução da análise proposta por Marx, faz-se aqui de forma 'livre' tal síntese:

Diz ele que:

1) Deve o pesquisador dirigir-se à própria coisa. É a análise objetiva;

2) É preciso apreender o movimento interno da coisa;

3) Apreender as contradições da coisa;

4) Analisar as tendências das contradições da coisa;

5) Ter no horizonte que tudo é interdependente e, portanto, um mínimo detalhe sem importância em algum momento poderá ser fundamental em outro contexto;

6) Captar as transformações entre as contradições tendo em vista que sempre há um devir na história;

7) Ter em mente que a síntese é apenas outra tese e que, por isso, a verdade obtida nunca é absoluta;

8) Apreender as conexões e o movimento da ação;

9) Deve-se manter a dialeticidade do próprio ato da análise, ou seja, o pesquisador deve dar passos à frente, mas também para trás em sua análise, deve "reanalisar" todas as etapas e interpretações que fez na busca da verdade.


Henri Lefèbvre - 1901-1991.
Disso tudo resulta que não se chega à "Verdade", mas a verdades. O pesquisador que se propõe analisar determinada realidade social do ponto de vista dialético deve também ter em mente que, como o próprio Marx já disse em sua "Crítica da Economia Política", esse ponto de vista é o do trabalhador.
Em última instância, não há um critério todo poderoso de garantia de que se chegará à Verdade por se usar a dialética, o que se pode endossar nesse sentido é que, como diz Moacir Gadotti em "Concepção dialética da educação" (2006), Marx adverte que toma esse ponto de vista porque é mais "nobre" por ser o contrário da classe burguesa (capitalista) dominante que precisa "mascarar", por meio da propaganda na mídia, periodicamente que atingiu seu status quo trabalhando sem explorar ninguém, honestamente e dentro da mais correta e ilibada moral.

Já o trabalhador não precisa mentir, pois ele não esconde de ninguém que seu objetivo na luta (na greve, na revolução) é a tomada dos meios de produção para a coletividade dos trabalhadores, um ponto de vista político, mas também ideológico, sem dúvida, que Marx nunca deixou de admitir.

Para encerrar, ficam as perguntas de sempre: mesmo que o socialismo seja apenas um momento histórico para o comunismo, o que garantirá que este virá se as experiências que se tiveram até hoje sempre mostraram um Estado poderoso que se construiu a partir de um "socialismo estatal" em que os trabalhadores tomaram parcialmente os meios de produção? O que garantirá que, uma vez realizada a revolução, todos os homens ficarão conscientes de que se deverá suprimir o egoísmo de uma parcela da população pela divisão consciente e justa dos bens conquistados?

O que garante que o critério de justiça (dar a cada um de acordo com sua necessidade) é justo, uma vez que há na essência humana e em sua história, pessoas que foram (e são) talentosas para o invento de coisas novas? Como estimular um cientista a desenvolver tecnologia apenas dizendo a ele que "ele será lembrado como o nome de uma rua ou escola?" Não é justo também dar-lhe uma motivação econômica? Mas fazendo isso, novamente, não se estimulará a concorrência, propriedade do objeto capitalista? Estará correta a visão antropológica, em geral, marxista que acredita que a essência humana é "boa", ao modo de Rousseau e que o socialismo poderia resgatá-la?

Por fim, o socialismo pressupõe uma tomada da consciência de que não é possível que uns tenham mais bens que os outros. Como evitar a prisão ou o assassinato dos discordantes do sistema?

O Comunismo é o fim das instituições existentes no Socialismo, até mesmo do Estado, mas como gerenciar a sociedade e seus produtos sem chefias ou, se as tiver, não permitir que essas se tornem gananciosas e, consequentemente, injustas?

Perguntas que incomodam os 'socialistas utópicos' e os 'socialistas acadêmicos' como chamava o próprio Marx, e aqueles que são socialistas anti-dialéticos em sua própria prática crítica.

BÔNUS






terça-feira, 14 de maio de 2013

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER



CAROLINI GONÇALVES VIEIRA
ELISABETE SCHUSTER FIGUEIREDO HUGO
FLÁVIA REJANE NEVES CORRÊA DE MELLO BARBOZA

Acadêmicas de Pós-Graduação em 
Culturas, Cidades e Fronteiras 
Universidade Federal do Pampa - Unipampa
Jaguarão



Ecoa o grito de milhões de vítimas de abuso físico, psicológico e econômico. Clamam as crianças indefesas, as mulheres sofredoras e os idosos fragilizados.

Fonte: http://petdirunb.wordpress.com
Todos os dias, a mídia apresenta o terrível quadro da violência, que se espalha assustadoramente pelo mundo. As manchetes dizem: "namorado mantém mulher em cárcere privado por temer separação"; "marido ciumento mata mulher com arma de fogo"; "pais irresponsáveis deixam filhos trancados em casa e saem para beber e se divertir"; "filho sem escrúpulos deixa mãe sem alimento e remédio porque gastou o dinheiro da aposentadoria dela".

Para Nicola Abbagnano, em seu dicionário de filosofia, violência é: "ação contrária à ordem ou à disposição da natureza". Nesse sentido, Aristóteles distinguia o movimento segundo a natureza e o movimento por violência, o primeiro leva os elementos ao seu lugar natural; o segundo afasta-os. Violência é a ação contrária à ordem moral, jurídica ou política. Então, fala-se em "cometer" ou "sofrer" violência.

A partir de nossas reflexões, percebe-se que a violência se instaurou no seio das famílias, deixando marcas profundas nas gerações que são o futuro da nação. Crianças, mulheres e idosos são as principais vítimas de uma sociedade doente, sem regras e sem amor, já que a maioria teme denunciar o agressor por receio de agravar a situação. O que fazer?

Alguns países, incluindo o Brasil, têm promulgado leis que favorecem os mais frágeis socialmente. No Brasil, em agosto de 2006, o Presidente da República sancionou a Lei 11.340/06, "Lei Maria da Penha". Essa Lei recebeu o nome de uma brasileira, admirada por sua coragem e espírito de iniciativa.

Essa Lei é importante porque veio beneficiar as mulheres que sofrem agressão. Com a Lei criou-se "casas-abrigo" com a finalidade de acolher mulheres e filhos menores. Também foram criados os centros de referência, onde toda a mulher pode se inteirar dos seus direitos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a violência responde por aproximadamente 7% de todas as mortes de mulheres entre 15 e 44 anos, em todo o mundo. Em alguns países, até 69% das mulheres relatam terem sido agredidas físicamente e até 47% declaram que sua primeira relação sexual foi forçada.

Alcoolismo, estresse na família, desemprego e problemas econômicos são geralmente o estopim da violência contra as mulheres e crianças, incluindo maus-tratos.

Segundo Marilena Chauí, a violência é percebida como exercício de força física ou constrangimento psíquico que obriga alguém a agir de modo contrário a sua natureza ou contra a sua vontade. Por isso pensamos que, todos precisam abrir os olhos diante dos sinais da violência. Nesse sentido advogamos que os pais, não subestimem as mudanças de comportamento de seus filhos, pois eles podem estar gritando por socorro!

É importante também que os filhos prestem atenção a qualquer atitude diferente de seus pais idosos, eles podem estar sendo maltratados por seus cuidadores. E que as mulheres denunciem os agressores para não se deixar maltratar por qualquer pessoa.

Portanto, como exercício ético, a reação diante desse mal que destrói os lares e a sociedade deve partir de cada cidadão. Com o grito de alerta contra o abuso e a violência. Acreditamos, assim, que essa é a importância de a sociedade desenvolver campanhas educativas para orientar as vítimas na busca dos órgãos competentes.