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segunda-feira, 21 de abril de 2014

A EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL E A FILOSOFIA DE JANUSZ KORCZAK




FRACINNE TEODÓSIO CALIXTO

Acadêmica do curso de Pedagogia
Furg

GERSON NEI LEMOS SCHULZ
Professor universitário e
editor do Blog


Korczak
1878-1942
Moacir Gadotti em seu livro "História das Idéias Pedagógicas" diz-nos que Korczak era um judeu polonês que dedicou sua vida à luta pela justiça e pelos direitos das crianças órfãs. Korczak também trabalhou no orfanato da Rua Krochmalna 92, em Varsóvia (cidade onde nasceu), e foi o diretor deste, o médico pediatra e o professor.

A pesquisadora Rosana Cruz (2014) nos diz que "assim que a Primeira Guerra Mundial teve fim, o educador construiu o orfanato 'Nasz Dom' (Nosso Lar) em parceria com Marina Falska. E nele as crianças órfãs, desamparadas, sem lar ou frutos de amores clandestinos, foram reunidas em um regime de autogestão social, no qual podiam finalmente conhecer a verdadeira liberdade e a elevada autoestima."

Korczak começou sua obra literária quando ainda era estudante e continuou a escrever ate o trágico fim de sua vida em 1942 quando os alemães nazistas, ocupantes da Polônia, lhe ordenaram que conduzisse seus alunos à morte, prometendo-lhe um salvo-conduto após a "tarefa". Ele recusou e, amparado nos braços de dois meninos, acompanhou a seus duzentos "filhos" até às câmaras de gás do campo de extermínio de Treblinka onde ele e todas as crianças foram gaseificadas por Zayklon-B, um mortal agente químico. (GADOTTI, 2005).

Em relação às obras, seus livros são para e sobre a criança e sua práxis pedagógico-educacional. Com isso ele deu início a uma revisão dos métodos, da estrutura da escola, da relação professor-aluno e entre pais e filhos. Suas principais obras foram: "Quando eu voltar a ser criança"; "Como amar uma criança" e "O direito da criança ao respeito".

Nessas obras o autor sempre defendeu a ideia de que para se modificar a sociedade, é preciso 'melhorar' o ser-humano em geral. Em sua 'República das Crianças', como ficou conhecido o modelo estabelecido no orfanato, ele preconizava que os educandos deveriam ser educados com amor, consideração, cooperação coletiva e entendimento, sempre em uma gestão democrática.

Em "O direito da criança ao respeito", Korczak faz uma crítica aos adultos. Nessa obra ele diz que o adulto faz pouco caso da criança ao expressar que seu choro não é nada demais e que sua dor é passageira. Diz ainda que o adulto se pensa no direito de minimizar a criança; pensa que seu sofrimento, sua dor, suas lágrimas não passam de "criancice". E que isso é um equívoco. Korczak também comenta que quando as crianças fazem "arte" (quebrando algum objeto ou derrubando um móvel), os adultos geralmente tendem a brigar e discutir com elas. Para ele este é outro exemplo de equívoco porque (segundo seu argumento) as crianças ainda não estão familiarizadas com a dor e a injustiça do mundo dos adultos e esta "não familiarização" que os adultos esquecem que a criança não tem, faz com que os adultos as julguem pelos seus valores e não pelos valores e pela visão de mundo da criança, e isso as faz sofrer e chorar mais do que aos adultos.

Nessa mesma obra, ele lança uma pergunta: "qual será o campo de ação dos educadores; qual será o seu papel?"

Em resposta o autor critica aqueles pais que pensam que a escola é um lugar para deixar os filhos quando estão trabalhando; que pensam que os educadores devem ser guardiões de paredes e móveis; da limpeza das orelhas e do chão. Com essas palavras duras ele quer nos levar a perceber como se desenha o pensamento de muitos pais em relação ao papel da escola.

Crianças abandonadas durante
a Segunda Guerra Mundial.

Korczak também tem outro ponto que merece ser destacado, que é o fato de ele ser o primeiro autor a se por no lugar de uma criança. E isso acontece na obra: "Quando eu voltar a ser criança", escrito pelo autor quando vivia dentro das paredes do Gueto Judeu em Varsóvia. Esse livro é uma ficção que conta a história de um educador que, na idade adulta, volta a ser criança. As experiências vivenciadas por ele são narradas e também o seu cotidiano como criança junto de sua família e de seus colegas de escola.

Aqui aparece outra inovação de Korczak quando ele dá importância aos sentimentos que as crianças têm como: medo, liberdade, tristeza, alegria, encantos e desencantos com o mundo. Korczak se preocupa em sensibilizar o adulto leitor sobre as crianças sentem em seu dia-a-dia. No livro, ao descrever os seus sentimentos de criança, o autor usa uma metáfora ao dizer o seguinte: "A criança é que nem a primavera. Ou tem sol, tempo bom, tudo é alegre e bonito. Ou de repente vem tempestade, relâmpago, trovões, raios que caem". E fazendo analogia com os sentimentos dos adultos ele diz: "o adulto é como se estivesse dentro de um nevoeiro envolto numa triste névoa. Não tem grandes alegrias, nem grandes tristezas [...]". Com essa metáfora ele quer fazer-nos pensar nas condições de existência de uma criança que ora pode estar radiante, feliz ou, de repente, triste. Enquanto, em relação aos adultos nunca é possível saber seus verdadeiros sentimentos porque vivem envoltos em sua névoa de fingimento e não deixam transparecer as suas verdadeiras emoções nem para as crianças nem para outros adultos.
Ocupação da Polônia por tropas da Alemanha Nazista.

As críticas de Korczak, em nossa opinião, procedem e servem também para refletirmos sobre os dias de hoje em que (com o sistema capitalista avançado) muitos são os pais que deixam a cargo da escola toda a educação da criança, inclusive aquela educação que só pais e mães podem dar que é estabelecer os limites psicológicos, sociais para a criança, limites estes que as farão não ser coniventes com qualquer exploração delas mesmas quando futuros trabalhadores, mas também limites éticos para saberem reconhecer uma autoridade quando diante de uma, por exemplo, a autoridade do professor que a deveria ter não porque seja autoritário (embora muitos o sejam), mas porque estudou mais que o educando e porque tem muito mais conhecimentos e experiência de vida do que aquele.

Korczak Preso.
Em "O direito da criança ao respeito" ele responde bravamente à pergunta feita anteriormente sobre o papel do educador na escola ao dizer que "o educador, por um salário de miséria, é indicado para construir para o mundo um futuro sólido, mas o dever do educador é, portanto, permitir à criança viver e ganhar o direito de ser uma criança."

Todas essas ideias podem ser associadas à atualidade brasileira como, por exemplo, quando ele diz que "a escola é vista como um 'depósito' de crianças", onde o educador deve apenas cuidar de sua limpeza e de suas necessidades, não sendo valorizada a educação como ato pedagógico. As perguntas são: o Brasil respeita hoje o direito da criança de ser criança? No Brasil temos escolas com o número suficiente de salas de aula? Com alimentação adequada para todos, com acesso por todos a essa alimentação? Todas as crianças de escola pública estão seguras dentro da própria escola contra raptos, assassinatos, abusos sexuais? Os professores estão preparados pelos cursos de pedagogia vigentes para atender às crianças? Estão motivados para trabalhar com salários justos? Os professores têm assegurado seu desempenho laboral por abundância de materiais didáticos e os alunos têm garantido o êxito em seu processo de aprendizagem pela existência desses mesmos materiais? Que visão os pais têm hoje da escola? Ela é local de aprender ou local de "depositar" o filho ou filha até o fim do dia? Estão as crianças no Brasil livres do trabalho indigno?

Rua de Varsóvia destruída após bombardeio aéreo.


Korczak, embora ainda insuficientemente conhecido no Brasil, é uma das grandes figuras da pedagogia contemporânea, cuja vida e obra foram dedicadas à defesa das crianças. Sua experiência terrível junto com suas crianças no Gueto Judeu de Varsóvia o tornou profundamente preocupado com o bem estar dos pequenos. Mas suas questões de pesquisa também apontam para problemas que, embora ele vivesse na Polônia de 1942 ocupada pelos nazistas, são também problemas que o Brasil ainda enfrenta quando falamos em escola. As perguntas acima são muitas, mas à maioria delas podemos responder: não! A escola brasileira não garante os direitos da criança a ser criança, assim como também o modelo econômico do país obriga milhões de crianças ao trabalho, inclusive, semi-escravo. A escola brasileira pública está sucatada, defasada, atrasada. Com professores assoberbados de carga horária, com salas de aula além da capacidade que ele pode, humanamente, dar conta. Com falta de materiais de consumo. Com falta de merenda escolar. O professor primário sofre com os baixos salários pagos pelo Estado e com o desprezo por parte da classe que controla os meios políticos e até mesmo com preconceito por parte de seus colegas professores universitários que (muitos são aqueles) que não veem como justa a equiparação salarial do professor primário ao professor universitário. Postura que corrobora uma estrutura hierárquica e elitista bisonha.

Escola de "lata" em Pelotas - RS
A prefeitura de Pelotas, por falta de salas de aula, adotou
'conteineres' com pouca ventilação
e sem proteção contra o frio da região
para abrigar alunos da educação infantil.
Créditos da Foto:
Agência RBS-TV/2014.

Por fim, a escola brasileira hoje, pensamos, está abandonada à própria sorte, aos grupos gestores que, muitas vezes, não têm preparo algum para assumir tais cargos. Ao vexame dos salários vergonhosos pagos pelo Estado ao professor, enquanto agente que cuida da formação do cidadão! A parte didática da escola está humilhada pelas leis exageradamente benevolentes com os alunos quando os professores são "obrigados" a aprovar mesmo aqueles que têm um desempenho escolar medíocre. Isso não garante o direito de nenhuma criança a um futuro melhor, garante a criação de uma cultura fisiológica, paternalista e assistencialista de dependência do sistema que, assim, mata o esforço pessoal pela busca do conhecimento, não incentiva o desenvolvimento da inteligência, mas o troca pelo desenvolvimento da cultura de buscar meios antiéticos e até ilícitos (nos futuros adolescentes) que, associando a posse de um diploma ao "sucesso" econômico puro e simples, serão capazes de fazer qualquer coisa pelo dinheiro já que na escola fizeram tudo para que muitos deles fossem aprovados sem merecimento por esforço intelectual algum. O que os impedirá de, na vida adulta, esperar que a sociedade também, tal qual a benevolência da escola pública, lhes dê aquilo que seu egoísmo quer? O que os impedirá de talvez matar por coisas fúteis, de desrespeitar os mais idosos, de matar no trânsito e fugir? Claro que nem todos serão assim, mas uma parcela dos que saíram da escola já está pensando e fazendo isso e colaborando para a construção de uma sociedade dominada pelo medo que temos uns dos outros, da desconfiança, da falta de solidariedade mecânica (como diria Dürkheim) e onde a corrupção é tomada como um valor que deve ser praticado por todos e sempre!


REFERÊNCIAS

CRUZ, Rosana Evangelista da. Janusz Korczak e a administração escolar contemporânea. Universidade Federal do Piauí. Disponível em:<www.anpae.org.br/simposio2011/cdrom2011/PDFs/.../0467.pdf>.

GADOTTI, Moacir. História das ideias Pedagógicas. São Paulo: Ática, 2005.

SANTANA, Ana Lucia. Pedagogia de Janusz Korczak. Em:<http://www.infoescola.com/pedagogia/a-pedagogia-de-janusz-korczak/>.