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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

QUID VERITAS?

Gerson N. L. Schulz



Representação de Pôncio Pilatos.
O título acima significa: o que é a verdade? Essa teria sido a frase da personagem Pôncio Pilatos ao interrogar, ironicamente, a personagem Jesus, no evangelho. E ele tinha razão ao perguntar isso, pois não há apenas uma noção de verdade, mas, no mínimo cinco.


Em dois mil e setecentos anos de história da Filosofia, os filósofos não chegaram ao consenso para estabelecer regras absolutas para a verdade. Assim, conforme Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), em sua Metafísica, se tem a) A verdade como correspondência: em que se afirma que a coisa é azul porque é azul e não porque, discursivamente, se diz que é. Isto é, se alguém diz que a camisa é azul, a verdade está na coisa como correspondência da palavra. Se a camisa não for azul, quem disse que era, mentiu. Já para os empiristas do séc. XVIII, tem-se b) A verdade como revelação: no sentido empirista é verdade aquilo que se revela ao homem (fenômeno, sensação). Por exemplo: pode-se afirmar que o açúcar é doce pelo paladar. E no sentido teológico a verdade se dá em ocasiões privilegiadas: profecias, premonições.

Por outro lado, conforme Immanuel Kant (1724-1804), tem-se c) A verdade como conformidade com a regra ou conceito: em que é verdade uma lei, uma regra previamente estabelecida, não cabendo a ninguém discutir a regra, mas apenas interpretá-la e aplicá-la às mais diversas situações, é o caso do Direito. Em quarto lugar, de acordo com o idealismo do séc. XIX, tem-se d) A verdade como coerência: em que se considera a existência de uma verdade "absoluta" (ideal, perfeita) e se comparam as verdades temporais com essa noção idealista da verdade, observando-se o grau de imperfeição da verdade imediata com a suposta verdade absoluta. Por exemplo: um homem é condenado à prisão por haver muitas evidências de que ele é culpado de um crime, mas não há uma filmagem, testemunhas, nem confissão; então, o Júri, condena essa pessoa considerando as evidências (as partes), mas sem certeza absoluta e incontestável de que ela realmente é criminosa, ou seja, a condenação acontece a partir da "meia verdade".

Em quinto lugar, como afirmam os pragmatistas norte-americanos do séc. XX, há e) A possibilidade da verdade apenas enquanto instrumento: ou seja, algo é verdadeiro enquanto tem validade para determinado fim. É o caso de um Estado teocrático como o Irã onde, para que o governo se mantenha no poder, diz que é da vontade de Maomé que os aiatolás estejam no poder. No dia em que o Irã tornar-se um Estado democrático, provavelmente essa verdade deixe de ter valor e seja rejeitada.

Portanto, percebe-se que a idéia de verdade não é consensual. Mas pelo menos se tem a pista de que, em todos os casos, a verdade deve permitir sua comprovação. Ficam, portanto, excluídas para a vida prática a possibilidade da verdade teológica e da verdade idealista. No primeiro caso porque é inatingível: como saber se uma profecia se realizará (futuro) sem vivê-la? Caso você a tenha vivido não é mais profecia, pois já aconteceu. No segundo, como comprovar a existência de uma verdade absoluta e ideal sem demonstrá-la? Daí proponho a seguinte fórmula: "não se deve cometer injustiças mediado por preconceitos."

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