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segunda-feira, 12 de julho de 2010

A educação de jovens e adultos

Gerson Nei Lemos Schulz


O Pensador
A EJA (Educação de Jovens e Adultos) é uma discussão atual dentro das entidades escolares brasileiras. Várias instituições educacionais – estaduais e municipais – em todo país dispõem desse programa que possibilita adultos e jovens que não tiveram acesso à educação formal em tempo hábil alfabetizar-se e concluir o ensino fundamental e médio.
Assim a EJA deveria contribuir para seus estudantes se tornarem cidadãos orgulhosos do saber que portam, éticos e críticos. Deveria fomentar a interdisciplinaridade na sala de aula, contribuir para a construção de novas leituras de mundo das pessoas que dele participam e fazê-las perder o título que muitos lhes dão: de ignorantes e, por isso, excluídas do mundo das letras e da cultura.

Fonte: www.filosofiadomarcozero.blogspot.com
Direitos Reservados, cite a fonte
Mas na prática, infelizmente, não é isso que acontece, o que se vê em todos os estados da Federação é que a maioria dos alunos da EJA "saem" dessa experiência tal qual entraram: analfabetos completos ou funcionais, pessoas sem a capacidade mínima de análise da realidade, sem nem saber interpretar um texto sequer. No ano de 2005, no RS, um núcleo de EJA entregou um diploma de conclusão do Ensino Médio a um aluno que não sabia ler nem escrever. E este aluno foi aprovado no vestibular de uma faculdade particular e somente aí se descobriu que ele não sabia nem rabiscar o próprio nome. E isso aconteceu porque o núcleo que o formou recebia verbas de acordo com os alunos matriculados, então, para adquirir o dinheiro não pensaram duas vezes, matricularam todo mundo que aparecia sem qualquer controle. Além disso, para disfarçar a evasão, outro quesito que fazia perder verbas, os professores não faziam qualquer freqüência. Até pessoas que nunca pisaram na sala de aula foram aprovadas. É claro que este é um caso isolado e não se pode condenar essa modalidade, mas isso não é a EJA.

Paulo Freire
Foto: www.onordeste.com
Paulo Freire em sua marcante experiência de alfabetização em Angicos – RN (onde mostrou o mundo das letras a um grupo de trabalhadores campesinos não letrados) nos deu uma luz sobre como deve ser tal processo. Seu trabalho identificou que é possível incluir os excluídos na cultura (ao menos) e que eles – de posse das letras, das formas de expressão e transmissão desta – podem construir e refletir também sua identidade social e política e, a partir daí, discutir seus problemas e propor novas soluções. Este é o horizonte ético e libertador do método de Freire. Permitir que pessoas excluídas dos bancos escolares (que muitas vezes ficaram sem a educação por causa de sua condição econômica) adquiram papel social, organizem-se e lutem por seus direitos como qualquer cidadão e não sejam, como acontece hoje, apenas estatísticas governamentais.

Enfim, aprender a ler e escrever, para Freire, é a ética ontológica da EJA e EJA é organização do saber adquirido aos pedaços em caminhos "fracassados" por tentativas de escolaridade não levadas adiante. É o fazer cidadãos conscientes e participantes numa práxis libertadora de sua condição de excluídos àqueles que já haviam perdido a esperança.