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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O ESPÍRITO DE NIETZSCHE-ZARATUSTRA

DORIEDSON ALVES

Prof. de Física e Filosofia
da rede pública do estado
do Amapá




Zaratustra é aquele peregrino perdido entre os cumes das montanhas europeias, encravadas no seio de um mundo velho, mas sustentado por grandes mentes libertinas, promíscuas, desvairadas, muito além do senso comum. Ele não vendeu a alma. Aliás, nem acredita em sua existência. Contudo, empunhando o amargo sabor da verdade, vai correndo e gritando pelos vilarejos, anunciado as boas novas da tragédia humana, isto é, tudo aquilo que foi escondido do encarcerado espírito humano. Não recusará sua sina, a missão da qual fora incumbido, pois a responsabilidade lhe batera as portas, enquanto o mundo (não apenas o velho) se esfacela, corrompido pelos valores da moral fraca (a do escravo), onde prevalece incólume a figura emblemática do cristo crucificado. Por isso, o espírito de Zaratustra também quer ser crucificado, para debochar do sangue vertido naquela insignificante cruz de madeira, erguida como apologia de um discurso idiota: o da salvação. Enri lamentará a companhia do ladrão risonho, o peregrino homem das cavernas; ele, em fantasias devassas, se oferecerá em sacrifício vicário semelhante, com as palavras insípidas da verdade que escorre de sua boca, ao vociferar exuberantemente os verbos trágicos da vida, quando o mundo olhará para o Getsêmani e contemplará a figura cansada e exaurida de um pobre magricela, constituído salvador do povo escolhido de deus; excluindo, no entanto, o ladrão debochado, pois se recusou a entrar no seu reino de mentiras.

"Faravahar"
 Símbolo do zoroastrismo
que representa a alma humana.
Depois, o guerreiro da salvação, em sua indumentária indigente, furtará da razão seu status de condição irremediável da verdade, sobretudo no mundo moderno, ao declarar a fragilidade do homem apolíneo, reverenciando a dança dos instintos dionisíacos, permeados pela embriaguez da passionalidade humana. Só então ele descerá daquela cruz velha, fincada a mais de dois mil anos, e pelejará pela liberdade de um pensar apaixonado; sim, pela rudeza de sua circularidade, ou melhor, de seu eterno retorno, na história da existência do homem, feito aquele indivíduo que ama incondicionalmente a existência “sem sentido”. Sujeito valoroso! Escolheu viver, e também peregrinar e morrer, pelos vales isolados, entre o frio e a solidão, para poder declamar a realidade daquilo que só ele via: a morte de Deus. É na concretude de suas palavras, onde toda verdade habita, que emancipará a si mesmo, antes do regresso glorioso do “verbo de deus” para seus espirituosos escolhidos. Enquanto isso, ele passará centenas de milhares de vezes diante do monumento de madeira, já bem deteriorado pela desesperança, tentando encontrar a razão que alimenta o terno e consagrado olhar direcionado ao crucificado. Certamente, no entanto, achará apenas indícios circunstanciais de uma verdade inventada, pelo medo e desejo de vencer a morte, numa construção histórica repleta de mitos injustificáveis, como covarde retrato de quem cobiça o impossível: a vida eterna. Porém, Zaratustra é o pastor das ovelhas negras, entregues ao próprio destino, vagando pelo ermo das mentiras religiosamente construídas. São elas, as mentiras reveladas e dogmáticas, as responsáveis pela rejeição inconsciente do seu amor fati.

Zaratustra é um homem sem falsas esperanças – calejado por suas andanças eremíticas; ela cativa, segundo ele, somente o coração dos fracos de espírito, iludidos pela concepção de um mundo idealizado. Para que esperar? – se queixa o profeta do trágico. A realidade da vida é algo contínuo e dinâmico que, em momento algum, se conforma em esperar. Ora, diz ele, o tempo não se contenta em abarcar as melhores oportunidades, pois seu ímpeto avassalador vai arrancando com veemência tudo que encontra pelo caminho, sem dó nem piedade. Ele (o tempo) é a mão que afaga a tez humana, roubando-lhe sua juventude e inocência, impregnando de gosto ruim a vida no tempo-espaço, presa aos meros hábitos adestrados. Por isso, como carrasco sem compaixão, açoita publicamente a todos, e com extraordinário escárnio, debocha da fragilidade do homem contemporâneo. Ai está esse sujeito sem consciência de si, midiaticamente construído dentro de uma “razão instrumental”, que força e reforça estereótipos da insignificância, enquanto se dilui, como imagem de retrato velho, ante o impulso discursivo do espírito errante do andarilho anunciador do super-homem, onde as veredas marcam a alforria do indivíduo da prisão moral, sobretudo religiosa, propondo a reelaboração da existência, agora vista como reflexo intenso da vontade de potência. Ora, é com esse arsenal do querer livre, na imposição pela vontade, que o moderno se configura à exaltação do desejo destituído do rigor da tradição dogmática, conservadora, intolerante, buscando causas para a vida nela mesma, não num devaneio de ideias forjadas em meras retratações delirantes do mundo da vida, mas no caos indecifrável do imprevisto.

FRIEDRICH NIETZSCHE
                  1844-1900
É no niilismo, entranhado no espírito da contemporaneidade, que se esconde a epopeia humana, reduzida a mero esperar compulsoriamente pela morte, sem vigor ou alegria nenhuma, quando a única necessidade real é a angustiante repetição habitual da vida, mecanicamente conduzida, à revelia do mestre Zaratustra. Ele caminhou pela escuridão das cavernas vazias, soerguendo os olhos para além da própria factualidade, descortinando a profana condição de homem. Ora, foi ele quem anunciou, aos quatro ventos, como filho recusado, com voz enérgica, a morte de deus. Por essa razão, seu espírito iluminado não viverá de joelho, mas pelas palavras proferidas durante o velório da grande divindade, no exato momento em que nenhum verbo se fez carne, nem tampouco habitar entre nós, ele dançará como um deus crível, jogado aos odores da vida. Contudo, há uma luz, e, embora ela esteja inscrita na lápide de Nietzsche, do filho de Zaratustra, sua força vivificadora se estendeu até hoje, cantada pelos herdeiros do pensamento nietzschiano, aqueles cujas palavras são temperadas pelo espírito daquele que ousou desafiar a moral vigente, a do fraco, propondo a visionária tese da transvaloração dos valores. Através dela se faria, então, a elevação do sujeito fraco e fracassado a condição do super-homem, profetizado pela sina zaratustriana, e não mais por meio do pensamento de um necromante desiludido pelas promessas de um messias morto. Só então até os anônimos ignorantes seriam perdoados por sua condição de escória do mundo!