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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CARTA À DIREÇÃO DO PROGRAMA FANTÁSTICO DA REDE GLOBO


SEÇÃO PRIMEIRA PESSOA


Herbert Claros da Silva

Mecânico ajustador na Embraer S.A
Texto aqui republicado com autorização por escrito do autor
O original está em:


O uso de "agentes secretos" para adquirir 
informações de como age o
inimigo foi e é mais adotado em 
épocas de guerra e ditaduras. 
O quadro Chefe Secreto
 da Rede Globo evidencia uma verdade: 
Vivemos numa ditadura dentro das fábricas.



Como um operário metalúrgico que há 16 anos trabalha no chão de fábrica, resolvi opinar sobre o quadro "Chefe Secreto", do programa Fantástico.

O quadro se apresenta com a proposta de mostrar a realidade dentro de fábricas no Brasil, argumentando que  todo chefe só pode conhecer de fato o que a empresa faz se descer dos escritórios e for à produção. Mas o verdadeiro dia-a-dia dos operários, na verdade, não é exibido. Pergunto: onde estão os momentos de pressão por metas, o assédio moral constante que sofremos, os baixos salários, as injustas grades salariais, as péssimas condições de ergonomia e segurança no trabalho, a jornada extenuante e a exigência constante por hora extra e por qualificação (que não vem retribuída com melhores salários), o desrespeito à livre organização sindical e um longo etc?

A TV Globo mostra somente o lado de um patrão que "aprende" com os operários, mas que não atende de fato as necessidades coletivas dos trabalhadores, como redução da jornada e aumento salarial. O único mérito do programa é deixar claro qual o papel do patrão dentro da fábrica. A imprensa em geral chama o programa de "patrão espião", e esse é o melhor nome para o programa.

Será que de fato os empresários e suas equipes de gestão estão preocupados em ouvir os operários? A resposta de quem vive a verdadeira realidade no chão de fábrica é: não. Vivemos uma ditadura patronal dentro das fábricas. Não existe uma via de mão dupla.  Aqui você só obedece ordens e, se questioná-las, é demitido.

As empresas tentam se adaptar a diferentes técnicas de gestão, no entanto todas seguem o mesmo princípio da pressão constante por metas e da coerção aos operários. O que pressiona e prende os operários a esta situação humilhante como ser humano é o salário, seu único meio de subsistência, assim como as correntes prendiam os escravos no passado.

O programa só poderia ser completo se levasse às últimas consequências a realidade da vida de um operário brasileiro. O chefe Valdo Marques (que participou do primeiro episódio) viveu uma semana de 40 horas de trabalho que ele mesmo disse ter sido aquela em que mais trabalhou na vida. Mas a vida do operário não está só dentro dos portões da fábrica. A vida da maioria dos operários consiste em dormir pouco e passar muito tempo dentro de ônibus lotados para poder pagar aluguel, as contas e despesas do lar. Sem falar naqueles que também dedicam parte de seu tempo aos estudos. Essa sim é a vida dos operários brasileiros.

Esses mesmos operários têm de conviver com a pressão constante para acelerar o tempo de produção, cumprindo inclusive a função de companheiros que foram demitidos. Hoje nas fábricas se produz mais com menos operários. E essa mágica só é possível com pressão e a instituição do medo, o medo do desemprego.

Para tudo isso dar certo, as empresas têm os seus "espiões" no chão de fábrica. Os espiões que, como numa ditadura, entregam aqueles que já estão vitimados pelas doenças do trabalho causadas pelas condições extenuantes. Nós operários também somos vítimas de espiões que não toleram a livre organização sindical dos trabalhadores, um item garantido na constituição brasileira mas pouco respeitado pelas empresas.

O programa, além de mostrar pouco a realidade do chão de fábrica, gera a ilusão de que patrões e operários são "parceiros". Não são. Prova disso: no programa exibido dia 27 de setembro, o patrão Pedro Stivalli, ao ser desmascarado pelos operários, fica isolado e a "rádio peão" espalha pela fábrica de que "o chefe está na área"! A reação das pessoas transmitida no programa foi de preocupação, e não de alegria por estar perto de um companheiro.

Para se comprometer com a verdade da classe operária, os telejornais e programas como Fantástico deveriam mostrar a dura realidade de quem se acidenta nas fábricas, perde o emprego apesar de ter passado 20 anos numa linha de produção, sofre todo tipo de assédio (moral e sexual) por parte da chefia e tem de lutar muito para conseguir arrancar dos patrões o mínimo necessário em direitos e melhoria salarial. Isto o Chefe Espião, ops, o Chefe Secreto não mostra.