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segunda-feira, 13 de abril de 2015

EDUCAÇÃO ESTÉTICA





DORIEDSON ALVES

Professor da rede pública
no estado do Amapá




O senso comum, na maioria das ocasiões, associa indistintamente o estético ao belo. É como se a finalidade última da estética, enquanto conhecimento humano, se reduzisse apenas a isso: promover a beleza à condição de valor universalmente aceito; porém, de forma absolutamente padronizada. A razão está, principalmente, no forte apelo comercial para tudo aquilo que estiver, direta ou indiretamente, vinculado à possibilidade de enquadramento aos modelos estéticos vigentes, isto é, preso ao que se defende enquanto manifestação inequívoca do belo, nos mais variados campos da percepção sensorial humana. Há, por assim dizer, um estado dicotômico, onde os extremos complementares se negam, e ao mesmo tempo se completam, em uma unicidade: o ideal estético.

Por isso, o problema do "feio" só pode ser entendido a partir da perspectiva do "não-bonito", portanto, da impossibilidade, ainda que mínima – em virtude das inúmeras técnicas e produtos estéticos – de emolduramento a uma estrutura concepcional preestabelecida, determinando e impondo, acima de qualquer julgamento autêntico e independente, a sua própria concepção de beleza. Sendo assim, a fealdade é relegada a refutação pela sua diversidade, autenticidade, singularidade, quando o assunto é a beleza no seu ideal de modelo copiável, reproduzível, repetível. Talvez, se tolere o exótico, por ser extravagante, inesperado, incomum, de certo modo, na alegação do "politicamente correto", como mero adereço.

O que determina classificar alguém ou algo
como feio ou bonito?


Ao defendermos uma educação estética, nos propomos, fundamentalmente, a constituição não apenas de um paradigma estético onde não haja exclusão, mas também de uma ética da inclusão indiscriminada. Nela, a formosura seria expressão da multiplicidade dos tipos humanos. Assim, a igualização deixaria de ser, simplesmente, uma realidade ininterrupta, irremediável, enclausurando a vida ditatorialmente por ela constituída. Desse modo, se extinguiria, por conseguinte, a ditadura do igual: a monotonia, o tédio, a insuportável e insustentável percepção da "não-diferença", desgraçadamente incrustada ao dia a dia do mundo habitual, impondo a eliminação do singular, do único, do pessoal. A presença do outro, em sua singularidade, desabilitaria sua manifestação espectral sem nenhum sentido, desprovida de interesse, encantamento, entusiasmo, tão comum ao idêntico.

Ora, a manifestação tênue e confusa desse homem espectral, nem feio nem bonito, destruiria a relação de complementariedade existente entre as ideias de beleza e feiura: só há feios se houver, pelos menos, um bonito; e vice-versa. Todavia, quando a dimensão cultural é respeitada, especialmente através da multiplicidade dos gostos espontâneos, se configura a liberdade expressiva de juízos de gosto (ou juízo estético) livre de coações discriminatórias, reducionistas, simplificadoras, cristalizadas em padrões estéticos de uma beleza idealizada e segregacionista. Aqui, o que se quer é a independência sensorial, perceptiva, valorativa, e também ética, de apreender o belo pela manifestação das próprias inclinações culturais, sociais, históricas, na ausência de arquétipos totalitários, portanto, não abertos ao diálogo respeitoso, e valorizado, dos outros como dignos de aceitação, tolerância e respeito.

Um dos mecanismos apropriados à inserção do caráter estético na vida das pessoas é, certamente, a arte. Ela, com seu poder expressivo, ideológico, comunicativo, além de sua multiplicidade intrínseca – com suas técnicas, formas, conteúdos, materiais empregados etc. – acaba se convertendo no elo, por excelência, entre o homem e sua dimensão estética, ao estabelecer conexões necessárias entre o belo, o feio, o utópico, o abstrato, o concreto, o surreal etc., e as experiências do prazer pela percepção.

Por essa razão, uma educação estética que não se engaje, também, no mundo multiforme do gênio artístico perde, completamente, sua finalidade primeira, qual seja, o despertamento para a sensibilidade, a emoção, a sensação, a fruição protagonizada pela imaginação criativa do artista, ou seja, sua obra. Educar para a boa arte – aqui se incluem as mais variadas obras, técnicas e gêneros – é, acima de tudo, permitir aos indivíduos o conhecimento e a experimentação da diversidade e do poder inventivo das artes, em todos os tempos e épocas em que ela se tornou representação do mundo, da vida, do real, do imaginado; criando, inventando, novas maneiras de perceber, sentir, relembrar, numa contínua e intensa abertura à percepção dialética do sensível.

Esse sentido se encontra implícito na raiz etimológica do termo: aisthesis, palavra de origem grega, de onde deriva o vocábulo estética, surge como menção à teoria da "percepção do sensível". Por isso, o objeto artístico nasce a partir da conjugação do humano e do sagrado, do místico e do oculto, confeccionando uma ponte transitável entre dois mundos: o material e o espiritual – intelectivo e criativo – universo da experiência sensitiva. Aí se percebe, na potencialidade sintética da obra, que a pluralidade é a mais esplêndida insígnia do ser humano.

No entanto, é bom que se destaque que quando o ideal de obra excede a materialidade do real e se estende, com tendões dilaceradores, a corporeidade dos sujeitos, a “qualidade de belo” ganha forma concreta através da mutilação deliberada do corpo e do espírito, indo muito além de tratamentos estéticos exagerados, fomentados por uma indústria da moda, e da beleza, que não poupa esforços para capitanear lucros exorbitantes, agindo sem ética, escrúpulos ou regras aceitáveis. Nesse momento, as pessoas se transformam em meras escravas de uma concepção de beleza, universal e inalcançável, feito marionetes presos e manipulados pelas ideias de feiura e beleza, como extremos de um pretencioso ideal de perfeição, quase inescapável.