Google+ Badge

COMPARTILHE

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

LIMITE ÉTICO




DORIEDSON ALVES

Prof. de Filosofia
e Física da
Rede Pública do
Estado do Amapá





Os últimos acontecimentos na Europa, especialmente o atentado à revista francesa "Charlie Hebdo", assim como tantos outros registrados ao longo da história – a ação terrorista contra os atletas israelenses em Munique, nos jogos olímpicos de 1972, por exemplo – revelam o quão violento pode ser, em larga medida, a explosão de intolerância e, por conseguinte, a violência empreendida por determinados indivíduos, sobretudo quando orientados cegamente por sectarismos, fundamentalismos, terrorismos. Contudo, é necessário que não se entenda esse tipo de atitude, absurdamente contrária à concepção de convivência – aqui conviver assume a condição irrefutável de tolerância ao diferente –, como sendo atributo de uma religião, cultura, ou de um grupo étnico, mas, muito pelo contrário, de um grupo de indivíduos dispostos a chocar, intimidar, aterrorizar, reivindicando certa legitimidade pelo exercício da violência, em nome de um credo, de uma convicção ideológica, de uma postura política.

Charge da Revista Charlie Hebdo.
A revista satiriza as religiões em geral

Dessa forma, é fundamental que isso seja entendido apenas, e tão somente, como reflexo de interpretações, concepções, ideias, de sujeitos específicos, pois eles não representam o Islã, a cultura árabe, o Alcorão, do mesmo modo que a inquisição nunca foi a maior expressão possível do Cristianismo, mas apenas a vontade de impor dogmatismos controladores, isto é, formas de agir e pensar, além de interpretações das Escrituras, intentando forçar, sob o manto imoral da violência, da coação, da humilhação, a uniformização e dominação de um dado segmento do pensamento cristão, o católico. Por isso, não se deve, sob pena de manifestações segregacionistas, afirmar irremediavelmente a culpa única e exclusiva de fatores que, na essência, apresentam somente maneiras simplificadas, e também ignorantes, de entender o fenômeno fundamentalista em sua totalidade, excluindo a sua natureza, origem e fundamento.

Algumas pessoas conseguem agir de maneira muito "educada" quando são afrontadas em seus credos religiosos, suas ideias, suas superstições, sua forma individual de ver o mundo; outras já não agem da mesma maneira, demostrando grande indignação, hostilidade, comportamentos que invariavelmente acabam gerando ações violentas, onde o motivo reside, basicamente, na intolerância – justificada pela conduta "ultrajante" de alguém. Uma das mais comuns é a religiosa. A questão aqui, comum a qualquer ambiente onde coabitem pessoas, é tolerar o outro naquilo que o faz único, singular, particular: a liberdade de ser. O que isso significa? Manifestar a indulgência como traço característico de indivíduos dispostos ao convívio harmonioso, um respeitando os limites culturais, religiosos, étnicos, do outro.


Tolerar, portanto, não pode, em circunstância alguma, ser interpretado a partir de concepções alicerçadas em desconfortos, mesmo que aparentes, sugeridos por palavras como aguentar, suportar, etc. Se o ato de "viver junto" for desagradável, incômodo, penoso, certamente ele acabará produzindo confrontos, humilhações, afrontas, daí por diante, qualquer comportamento violento se "autojustifica", aliado à noção de contra-ataque. Nesse sentido é preciso que se compreenda a existência, mais do que necessária, de limites éticos. Ou seja, de atitudes, comportamentos, condutas, centradas em pressupostos arraigados na construção conjunta de uma moral eminentemente humana, tomando elementos comuns (tolerância, liberdade, dignidade, fraternidade) como firmes e inegáveis fundamentos de tudo aquilo que possa, uma vez considerado princípio, nortear a convivência.

Extremismo religioso de alguns, fomentado por atitudes de "superioridade" intelectual, moral, ética, de poucos "donos da verdade", com seus sarcasmos ilimitados, discriminatórios, cheios de estigmas e de pensamentos etnocêntricos, são, sem dúvida nenhuma, também condimentos imprescindíveis às ondas de ataques terroristas que se espalham pelo mundo, cujos genocídios, atentados, torturas, decapitações (o Estado Islâmico, por exemplo), xenofobia – na Europa há diversos grupos neonazistas vitimando estrangeiros, principalmente aqueles oriundos da "periferia do mundo" –, destroem a dignidade humana: ninguém escapa ao ódio confesso daquele que não vê nenhuma possibilidade de diálogo. Opondo-se a isso, John Locke, pensador inglês do século XVII, afirmara, na "Carta acerca da tolerância", que "nenhuma segurança ou paz, muito menos amizade, jamais pode ser estabelecida ou preservada entre os homens, se a opinião predominante está fundada no privilégio e que a religião deve ser propagada pela força das armas".





Não estou, longe de mim, legitimando qualquer ordem de violência. Afirmo, entretanto, que a respeitabilidade só tem valor se for compartilhada, isto é, apresentando e representando as "duas faces da mesma moeda": o diferente de mim e eu, num jogo respeitoso, quando os interesses dependem, impreterivelmente, da compreensão e aceitação compartilhada. Desrespeitar os símbolos religiosos, culturais, étnicos, de alguém implica, decerto, no mínimo, partir do princípio de que "os seus são mais valorosos". Ora, nenhum pretenso direito individual (ou grupal) se sobrepõe aos demais, pois toda e qualquer política de intolerância traz consigo, entranhada em suas diretrizes básicas – misturada a componentes ideológicos expressando injustificados preconceitos – ódio racial, religioso, cultural, reduzindo pessoas a meros instrumentos de terrorização, especialmente pela negação de "suas diferenças". Eis que surge, então, a islamofobia vulgarizando desrespeitosamente não apenas a fé islâmica, mas a autonomia da liberdade individual de crer.