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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A VIOLÊNCIA ESCOLAR NA REGIÃO AMAZÔNICA




MATIAS FERREIRA DO NASCIMENTO*




Até a década de 1990, a questão da violência escolar na Amazônia não esteve no foco das prioridades das instituições e nem constituíam maiores preocupações entre os segmentos da comunidade escolar, inclusive, porque o fenômeno era, em geral, atribuído aos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro.

Já nos primeiros dois anos do século XXI, na Região Amazônica, isso ocupava espaço significativo no noticiário dos diversos meios de comunicação como rádio, jornais escrito e televisão,  e, aparentemente, já fugia do controle dos agentes escolares. Assim, as diversas manifestações de violência no interior ou no entorno das comunidades escolares, em Macapá, ganharam notoriedade, pois se manifestaram por meio de conflitos de alunos contra alunos, alunos contra professores e professores contra alunos.

Em função de esse fenômeno se ampliar gradualmente, foi instigante pesquisar a questão da violência na Região Amazônica. Assim, foi definida a cidade de Macapá, capital do Estado do Amapá, para a realização da pesquisa. Vale ressaltar que em 1988, por ocasião da promulgação da atual Carta Magna, o Amapá foi transformado em estado e Macapá foi ratificada como sua capital. O referido estado se situa a nordeste da região Norte. Tem como limites: Guiana Francesa (N), Suriname (NO), Oceano Atlântico (L) e Pará (Se). Ocupa uma área de 143.453,7 km2. É o estado dentro do contexto Amazônico com o horto florestal mais preservado do território nacional, tem 24,2% de sua área protegida e disciplinada pela Lei Complementar 05/1994, que instituiu o Código de Proteção ao Meio Ambiente do Estado do Amapá. Há uma diversidade de ecossistemas caracterizados por florestas de terra firme, várzeas, cerrados, igapós e manguezais. Segundo dados do IBGE (2000), a população do Estado do Amapá é de 477.032 habitantes. Integram em seu território 16 (dezesseis) municípios, sendo os principais: Macapá, Santana, Laranjal do Jari e Oiapoque.




A cidade de Macapá foi definida em decorrência de justificativas plausíveis como o esquecimento da cidade do relatório da UNESCO, que trata sobre esse assunto, lançado em 2007, em forma de livro. Foi relevante, também,  a constatação da falta de publicações locais que atendam às necessidades mínimas de consultas bibliográficas por estudantes e pessoas em geral, sobre esse tema.

Mas é importante evidenciar que

[...] A violência é percebida como exercício de força física e de constrangimento psíquico para obrigar alguém a agir de modo contrário a sua natureza e ao seu ser ou contra sua própria vontade. Por meio da força e da coação psíquica, obriga-se alguém a fazer algo contrário a si e aos seus interesses e desejos, ao seu corpo e à sua consciência, causando-lhes danos profundos e irreparáveis, como a morte, a loucura, a auto-agressão e outros (CHAUÍ, 1999, p. 308).

A violência é uma transgressão ética que acarreta violação dos direitos humanos: direito à liberdade de expressão, à saúde, ao trabalho e à participação no processo político, que devem ser universalmente protegidos. Esse quadro é visível nos diversos jornais impressos que circulam na cidade de Macapá. Uma das mais consistentes, publicadas entre abril de 2006 e setembro de 2007, foi a do dia vinte e seis de abril de 2006 do Jornal Diário do Amapá, em reportagem assinada pela jornalista Denise Muniz, anuncia em manchete que "Agressão a professor causa tumulto". Diz a reportagem:

Após ser agredido fisicamente pelo filho da diretora da escola municipal Padre Dário, a professora Maria das Graças, o professor e coordenador da Comissão de Melhorias da escola, Rui Araújo, convocou ontem a comunidade escolar em Assembléia Geral no auditório da escola com a finalidade de deliberar uma paralisação parcial das aulas, a fim de exigir a presença do Secretário de Educação na escola, o professor foi agredido por protestar contra a direção da escola.

Outra fonte que retrata a violência escolar foi a publicação do dia seis de setembro de 2007, no Jornal Diário do Amapá, assinada pelo jornalista Elder Carlos: "Escolas Estão Virando Presídios". Segundo o jornal, a expressão é da própria diretora da escola estadual Cecília Pinto, professora Nilza Ferreira Pantoja, e "sintetiza toda a insegurança que existe hoje nas escolas amapaenses, onde jovens se digladiam e até atacam funcionários e professores, bem como são abordados por 'marginais', na porta dos educandários". Com lágrimas nos olhos, a professora Nilza Pantoja diz "que as escolas estão virando presídios, pelo fato de que, agora, só se pode conter a violência colocando grades nos portões e janelas e levantando os muros".

No mesmo jornal, em reportagem à página oito do caderno policial, o jornalista diz que "os estudantes são abordados na porta dos educandários em plena luz do dia." E que

Ameaças e agressões de alunos contra professores, violência sexual entre alunos e alunas, uso de armas, consumo de drogas, roubos, furtos, assaltos e violência contra o patrimônio invadiram o espaço da escola. Explicar esses fenômenos e apontar alternativas se tornou um desafio para os poderes. Recentemente vários acontecimentos envolvendo escolas públicas estaduais e municipais relacionadas à violência escolar ganharam a mídia.

Na mesma reportagem, Elder Carlos, com bastante propriedade e fugindo do estilo sensacionalista, tece outros comentários e se aprofunda na questão das origens da violência escolar, inclusive colhendo opiniões de pessoas diretamente envolvidas e supostamente preparadas para interpretar, analisar e buscar soluções para esse problema grave. Assim o jornalista faz referência à opinião do Promotor de Justiça da Infância e da Juventude, Paulo Celso dos Santos, que declara o óbvio: "a realidade precisa de um enfrentamento sério dos poderes, pois os espaços que circundam a escola transformaram-se em áreas de transição de drogas e prostituição."

Na opinião de alguns gestores escolares, a violência vem das ruas para dentro da escola, a exemplo da declaração do professor Aroldo Freitas Cavalcante, diretor do Colégio Amapaense (escola estadual localizada no centro da capital), um dos estabelecimentos mais antigos e tradicionais do Estado. Ele afirmou: "os acontecimentos mais graves são praticados por elementos que não têm qualquer vínculo com a escola, mas que acabam invadindo-a para ameaçar alunos e muitas vezes professores, como um fato ocorrido recentemente em que um homem armado de revolver invadiu a escola e ameaçou de morte um professor". O diretor Aroldo afirma ainda que esses incidentes ocorridos na escola tem que ver, na maioria, com os alunos do primeiro ano que, no geral, são oriundos de bairros periféricos. Muitos desses alunos estão envolvidos com gangues e atraem essas pessoas para o convívio escolar, o que gera conflitos, muitas vezes, armados, em frente à escola.

Segundo Melman (2003, p. 69) "a violência aparece a partir do momento em que as palavras não têm mais eficácia. A partir do momento em que aquele que fala não é mais reconhecido". Quando o aluno não acredita na escola e na família, busca meios de expressar seus desafetos violentando a si próprio, bem como as pessoas que fazem parte de seu grupo social.

Assim, não resta dúvida de que a violência tem influência social, isto é, foge dos muros da escola e é trazida, provavelmente, por alunos já envolvidos com vícios e armas, e como disse o diretor, atraem outras pessoas, com quem se relacionam, lá fora, como aliados ou inimigos. Os alunos violentos realmente não se formam no interior da escola, até porque, com algumas exceções, não existe tempo e nem ambiente propício para isso, levando-se em conta que a maioria dos membros da comunidade são pessoas pacíficas. A professora Nilza Ferreira Pantoja diretora da escola estadual Cecília Pinto, também localizada na capital, no bairro Buritizal, ressalta ainda que o motivo pelo qual os jovens se tornam o alvo preferido dos criminosos é: "[...] a falta de acompanhamento [...] pelas famílias [...] assim ficam à deriva, sem rumo". Prossegue ele dizendo que, "recentemente, uma garota agrediu a golpes de faca uma outra moça que estava dentro da escola. A vítima estava no pátio do colégio quando foi surpreendida pela agressora".

Ao que parece, as escolas, por conta própria, ou seja, pela iniciativa dos seus gestores, técnicos e professores, estão procurando ajuda desesperadamente há algum tempo, mas raramente são socorridos, a não ser com medidas paliativas, como a presença de policiamento.

As escolas em si já são vítimas da violência estrutural e, por conseguinte, não conseguem oferecer aos alunos oriundos de comunidades carentes um ambiente diferente, atraente, agradável e motivador. O tempo que as crianças permanecem nas escolas é muito curto, mas não pode ser diferente, pois os estabelecimentos não teriam como prendê-los por mais tempo aí pela dificuldade no que se refere à infra-estrutura.

Em sua edição de sete e oito de setembro de 2007, o Jornal do Dia, a partir da manchete de primeira página Criminalidade afeta as escolas de Macapá, toma também o tema da violência escolar. Em reportagem de Stefany Marques, o jornal expõe novamente a professora Nilza Ferreira Pantoja, que, corajosamente, volta a falar do assunto, chegando facilmente às lágrimas, como se estivesse gritando por socorro: "A violência tem tomado as escolas, mas as ações não partem apenas dos alunos dos educandários". Segundo o matutino, em seu caderno Dia-Dia

No último dia 29 de agosto, uma aluna da Escola Estadual Cecília Pinto foi agredida por uma garota pertencente a uma gangue do bairro do Muca, a estudante levou uma facada. A jovem agressora foi encaminhada ao Conselho Tutelar. A direção da escola diz que não tem como coibir a ação dos vândalos que adentram à escola pulando o muro, mas que já tomou medidas paliativas como comunicação do incidente à Secretaria de Estado de Educação. [...] A diretora da escola, Maria Nilza Ferreira Pantoja, conta que em 2003 quando assumiu a direção da escola chegou a recolher caixas contendo armas brancas e revólveres encontrados nas mochilas de alguns alunos. Diz que tentou reunir a comunidade a fim de tentar minimizar o problema. O que a coordenação pedagógica da escola observou é que a família não tem interesse em saber se os estudantes frequentam ou não as aulas. As famílias transferem a responsabilidade da formação moral para a escola, o Conselho Tutelar e o governo. Poderíamos evitar problemas se a família não estivesse tão fragilizada, comentou a diretora.

Ao final de sua entrevista ao Jornal do Dia, a professora Nilza assim se manifesta:

O público estudantil é o alvo preferido dos traficantes, devido à influência que exercem com os colegas. Após a reunião na comunidade, a escola pôde contar com o auxílio das lideranças comunitárias do bairro para conseguir policiamento à unidade escolar. Outra ação da direção foi exigir uniforme entre estudantes, como uma forma de controlar o acesso de estranhos nas instituições. Atualmente, a demanda da escola em cada turno é de 700 alunos do Ensino Fundamental e Educação de jovens e adultos. Controlar a violência dentro das escolas é um trabalho constante, pois exige empenho de vários segmentos da sociedade.

Para melhor entender a realidade da escola Cecília Pinto, buscou-se informações no referido educandário, objetivando confirmar as informações dos jornais em circulação na cidade de Macapá. Assim, conversou-se com alguns membros do corpo docente que solicitaram para que não se divulgassem nomes. Um dos professores relatou

Aqui a situação é muito grave, o bairro está cheio de gangues que se digladiam de dia e de noite e apavoram as pessoas de bem. Ficam nas pontes[1], nos becos, atrás dos muros, em todos os lugares e quando resolvem invadem a escola pulando os muros ou pela porta de frente, sem medo de diretores, de professores, de policiais, enfim, de ninguém. Acintosamente, usam armas brancas e de fogo e não respeitam quem quer que seja. Outro dia aqui mesmo onde estou (corredor) um aluno pertencente a uma gangue deu uma "cadeirada" noutro aluno, membro de outra gangue rival, a vítima caiu estatelada no chão sem que alguém pudesse fazer alguma coisa. Os alunos têm medo até de acudir, pois temem que sejam marcados pelas gangues e venham a ser vítimas da violência. [...] O mais incrível é que as crianças brincam de gangue no bairro do Muca e na escola como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não sei aonde vamos chegar, mas sei que alguma coisa deve ser feita; Que educação estamos desenvolvendo dentro de um verdadeiro campo minado? A diretora Nilza Pantoja saiu e uma nova diretora chegou. Infelizmente o que a espera é muito triste. Não sei até onde vai aguentar. [...] Alguns alunos são muito estudiosos e isso é um incentivo aos professores que gostam de ensinar; o corpo docente é muito bom; a maioria dos professores improvisa, traz material de casa e as aulas acabam saindo. Eu gostaria muito de trabalhar em melhores condições, mas... [...]

Esse docente demonstrou em sua fala uma acentuada consciência a respeito da temática da violência escolar, não só no interior do estabelecimento em que trabalha, mas também a respeito do bairro e da cidade. Além disso, mostrou grande sensibilidade em relação às dificuldades que a comunidade escolar, como um todo, enfrenta no seu dia-a-dia.


Outros professores, técnicos e funcionários também tiveram a mesma postura, mas fizeram pequenos comentários, como, por exemplo: "Mesmo para explicar a matéria, alguns docentes se sentem constrangidos, pois estão frente a frente com alunos em que não confiam. A vantagem é que a maioria é formada de meninos bons, alguns estudiosos, inclusive a escolas já classificou três alunos para a Olimpíada de Matemática". Outro comentário foi o da supervisora escolar que trabalha na escola há mais de quatorze anos, que considera "a violência uma realidade que ronda a escola permanentemente, pode a qualquer momento acontecer algum fato desagradável". Por outro lado ela ressaltou, como aspecto positivo, a participação de alunos em eventos, como nas Olimpíadas de Matemática, e disse que a escola não fica de braços cruzados. "A diretora sempre buscou ajuda, fez campanhas, visitou constantemente as salas para conversar 'numa boa' com os alunos, incentivou e sempre que aconteceu algum fato novo comunicou à Secretaria de Educação e pediu providências."

Para estabelecer uma leitura precípua da realidade, também foi necessário pesquisar o que os alunos pensam sobre o tema. Nesses termos, manteve-se o foco no oitavo ano primário, envolvendo o sexo masculino e feminino. Na escola Cecília Pinto, no bairro do Muca, em 2007, foram matriculados cento e vinte e cinco alunos em quatro turmas de oitavo ano, numa média de 31,25 alunos por sala, pelo turno da manhã, sendo sessenta e cinco meninas e sessenta meninos. Foi possível manter contato, por meio de preenchimento de questionário, com cento e um alunos, o que corresponde a 80,80% da população de discentes.

É importante ressaltar, inicialmente, que esses alunos, a exemplo dos seus professores, reconhecem o momento extremamente grave que o estabelecimento atravessa em matéria de violência, exatamente como denunciou a imprensa. Mas, apesar disso, 80,15% declaram que se sentem felizes em freqüentar a escola diariamente, contra apenas 4,95% de insatisfeitos e 10,89% de indecisos, que responderam "às vezes". Isso é um dado confortante e incentivador, no sentido de que se poder constatar que eles querem estudar, resta aos gestores oferecer-lhe as condições ideais.

Desse total de alunos contatados, 34,65% acreditam que a origem da violência está nas famílias, 19,80% na própria escola, 14,85% na pobreza e apenas 30,60% nas ruas da cidade. Estes são dados preocupantes, porque os próprios adolescentes reconhecem que as instituições, no caso, a família e a escola, que deveriam ser o sustentáculo, ser "o porto seguro", são, ao contrário, instrumentos geradores de violência – mais da metade assim o considera.

Parece que as opiniões daqueles que estão no epicentro do problema não deixam dúvidas sobre a situação atual da escola. É interessante que muitos desses adolescentes, corajosamente, apontam soluções, como maior atenção dos poderes públicos, maior acompanhamento da escola, eliminação de alunos violentos, melhora da qualidade do ensino, maior acompanhamento e mais presença dos pais. Essas sugestões dos alunos são corroboradas com as opiniões dos professores.

Verifica-se, pois, pelas manifestações acima (do corpo administrativo, técnico, docente e discente), que não há dúvidas de que a imprensa não exagera quando foca a escola Cecília Pinto como um espaço muito problemático no que tange à violência escolar e fica claro o desalento da comunidade diante do problema. Parece mesmo que não há confiança nas "medidas paliativas" que a diretora Nilza fala em sua entrevista. Segundo Abromovay (2004), a violência escolar continua sendo um tabu, e, talvez por isso os educadores ainda tenham certo receio de enfrentar o problema publicamente.

Com referência à presença policial na escola, confirma-se com professores e administradores que ainda há muita resistência por parte deles, porque a polícia ainda é vista como símbolo da repressão e não de segurança, pelo seu histórico de serviços prestados aos regimes de exceção e, ainda, pela insistência de uma ala bastante numerosa que se auto-intitula "autoridade". A partir deste raciocínio, é importante investigar o ponto de vista de policiais experientes sobre a questão da violência escolar.

Procurada, a Sub-Tenente da Polícia Militar do Amapá, Marizeth Costa, aceitou conversar sobre a temática, classificando-o, inicialmente,

Como um fenômeno que não deve ser tratado isoladamente, pois, tanto ele é social quanto econômico e político, enfim, é um efeito cascata onde o menos favorecido é sempre o desfavorecido. A violência escolar está presente na maioria das instituições de ensino e muitas vezes é mascarada para preservar interesses, mas não está fora do controle.

Marizeth diz que não conhece ações efetivas de combate à violência por parte de órgãos oficiais que mereçam credibilidade: "Normalmente o J.V.I.J. (Juizado da Vara da Infância e Juventude) 'deporta' os considerados 'anti-sociais' para o Monte Tabor[2], e em outros casos, obriga as escolas a aceitarem assassinos e ladrões em seus quadros discentes." A Sub-Tenente Marizeth faz parte de um novo segmento da Polícia Militar que estuda, fala, ouve, debate, assume posturas, não tem medo de falar em direitos humanos, fica chocada com crimes e se emociona quando fala da situação das crianças.

Além de escola Cecília Pinto, investigou-se a escola Barão do Rio Branco, localizada no centro da cidade de Macapá. Até o início da década de 1990, não existem registros de que a escola tivesse enfrentado quaisquer indícios de violência no seu interior, a não ser fatos considerados dentro da "normalidade" ou do "tolerável", levando-se em consideração a complexidade que envolve o processo de ensino-aprendizagem. Porém, a partir dos meados dessa década, a situação começou a escapar do controle das autoridades escolares e o Barão do Rio Branco mergulhou numa profunda crise.

Um relatório da professora Oliseth Sarmento Correa, penúltima diretora do Barão do Rio Branco, datado de 21 de junho de 2004, disponível na biblioteca da escola, fica bem claro a veracidade e a gravidade da crise.

O relatório da ex-diretora Oliseth não deixa dúvida ao afirmar que o Barão viveu uma crise aguda de violência escolar, reconhecida e combatida pelos agentes do processo escolar, com resultados satisfatórios. Apesar da credibilidade das primeiras conclusões, foi indispensável aprofundar a pesquisa em direção aos atores educacionais que atuam neste momento na escola, alguns dos quais viveram também o período da crise, principalmente os administradores, pedagogos e professores, a fim de obter mais testemunhos e esclarecimentos a respeito do objeto da investigação.

A atual diretora Ana Izabel Gurgel, que se encontra há dois anos na direção do Barão do Rio Branco, concedeu uma entrevista para discorrer sobre a questão da violência escolar. A priori, a diretora falou de sua experiência pessoal, dizendo que já lecionou e dirigiu outras escolas em Macapá e, hoje, sente-se extremamente honrada e muito feliz pelo fato de ter sido aluna, professora e, agora, diretora do Barão do Rio Branco. Falou que conhece a expansão da violência escolar pelo Brasil, acompanhando tudo pela imprensa e acha que a situação está ficando cada vez mais grave. No caso de Macapá, ela disse que, além de conhecer o fato pela mídia, sabe também por meio de diretores, professores, funcionários, alunos, enfim, por pessoas que militam nos meios educacionais da capital e do Estado, a situação preocupante em que se encontram as escolas públicas locais. Ela falou ainda que, fisicamente, nunca foi vítima de qualquer manifestação de violência, mas esteve, sim, no foco da agressividade de que tomou conta, principalmente de pais e alunos das escolas por onde passou, inclusive no Barão no Rio Branco.

Convidada a fazer uma reflexão sobre as causas da violência escolar em Macapá, a diretora manifestou o seguinte:

Eu acredito que existem muitos fatores, mas tudo começa pela família. Todos nós sabemos a importância histórica da família na formação das gerações futuras. Mas muitas famílias perderam o norte, esqueceram os seus valores e, a partir daí, ficou impossível o reconhecimento dos valores das outras pessoas. A maioria das crianças, adolescentes e jovens não chama mais ninguém por "senhor", não demonstra respeito por pessoas de idade, doentes, a quase ninguém. Acho que os valores, através de uma educação séria, mesmo num contexto democrático, poderiam ser resgatados. Não sou a favor da violência, mas acho que uma lambadinha, um castigozinho, ainda podem funcionar. Acho que as autoridades de pais e educadores estão desgastadas, às vezes por culpa deles mesmos que abrem mão dessa hierarquia com medo de serem taxados de retrógrados. Os jovens precisam de referências, mas normalmente, hoje, os pais vêm à escola e dizem "não posso mais com este menino!" Onde nós estamos? Têm coisas antigas que eu ainda considero como importantes nessa relação familiar, como o ensino religioso, tomar benção de pais, tios e avôs, cumprimentar pessoas, ser gentil e por aí em diante. A falta de Deus no coração acho que contribuiu para a violência.

Quando foi solicitada a falar sobre o assassinato de um professor[3] do Barão, a diretora pediu ajuda a uma professora que trabalhara junto com a vítima e conhecera com detalhes os fatos e o assassino que cometeu o crime. Depois de uma pausa, disse que "realmente o jovem professor Júlio Cardoso, de Matemática, que trabalhava no turno da noite foi assassinado covardemente por um aluno do ensino médio, no bairro São Lázaro, no trajeto entre a escola e a sua residência." Por isso, ela ressaltou que o turno da noite foi fechado e, por conseguinte, não existe mais na escola a Educação de Jovens e Adultos (EJA). O aluno vinha ameaçando aquele docente, mas, a escola e o próprio professor não acreditaram num desfecho tão radical. O aluno já tinha sido reprovado por dois anos seguidos e corria o risco de uma nova reprovação, dependendo de apenas 01 ponto. O professor foi inflexível e despertou contra si a ira do aluno, o resultado foi esse.




A respeito de ações da escola para combater a violência por vias educacionais, a diretora disse que as gestões anteriores não foram omissas e atuaram com várias práticas, visando ao resgate da cultura de paz, dentre elas, o Projeto Sentinela, Polícia Mirim, Comunidade da Paz e Paz no Trânsito. Todos esses envolvendo os diversos setores da escola, com o objetivo de tirar crianças e adolescentes do estado de vulnerabilidade em que se encontravam. Ressaltou a colaboração direta das Secretarias de Educação e Segurança Pública para a consecução de todos os programas.

A diretora fez questão de destacar os Programas de Resistência às Drogas (PROERD) e de Erradicação do Trabalho Infantil (PETE), que funcionam na escola com resultados muito positivos. Para fortalecer as suas declarações, a diretora trouxe até o seu gabinete os educadores que trabalham nesses programas. Ela finalizou a entrevista dizendo que "algumas crianças e adolescentes recebem bolsas do estado pela freqüência às aulas e pela participação em programas oferecidos pela Secretaria de Mobilização Social."

O contato com a atual diretora corroborou para fortalecer a hipótese de que a violência escolar é uma realidade nas escolas de Macapá e os educadores têm consciência disso. Fica bem claro que, quando existe o apoio de órgãos governamentais, as ações de combate ao fenômeno podem contabilizar resultados bastante positivos, visto que a própria administração reconhece a diminuição substancial da violência no interior da escola Barão do Rio Branco, pelos menos nos dois últimos anos. Entretanto, pelo contato mantido com outros estabelecimentos, constata-se que o Barão é uma exceção, que pode servir de referência para outras instituições.

Do universo de docentes (150 professores) da escola Barão do Rio Branco, 100% admitiu a existência da violência escolar no Brasil, em Macapá e no Barão do Rio Branco. Com a ressalva de que, até bem recentemente, a situação era crítica, mas a partir de 2006 e 2007, os índices voltaram à normalidade. Por outro lado, todos os entrevistados reconheceram os trabalhos de combate à violência realizados pelas quatro últimas gestões (incluindo a atual), para que se chegasse a esses resultados positivos.

Entre os docentes, destaca-se a ponto de vista de um professor:

Já foi muito grave, mas, hoje, considero tudo dentro do tolerável. São brigas de alunas por causa de namorados, por exemplo, fatos plenamente contornáveis. Hoje eu me sinto confiante e seguro, mas no passado, mais precisamente em 1993, tive que fugir pelos fundos da escola para não ser linchado por pais e alunos. Reprovei mais ou menos 08 alunos e eles, junto com os seus pais, não se conformaram e partiram para a agressão. Se eu não tivesse fugido a coisa teria sido terrível e, quem sabe, eu tinha morrido.

Não parece que esses resultados obtidos na escola Barão do Rio Branco tenham fugido das expectativas, pois os técnicos e os funcionários do estabelecimento comungam da mesma opinião de administradores, docentes e discentes. A partir disso, tem-se a convicção de quem pesquisar a violência na Amazônia, como em qualquer região do Brasil nos dias atuais, encontrará uma resposta óbvia: a violência existe, afinal, aí estão os noticiários e os próprios fatos para comprovar facilmente qualquer hipótese, a ponto até de se falar em sua banalização. No caso específico da violência escolar, que é o objeto desse trabalho, pode-se afirmar que ela não só existe como é grave e necessita ser enfrentada com seriedade e urgência, pois corre o risco, em alguns casos, de escapar do controle e promover estragos irreparáveis. Assim, "é importante que se caminhe para a promoção da organização de espaços de aprendizagem entre os pares, de trocas e de partilhas" (NÓVOA, 2008, p. 231).

Percebe-se, às vezes, certa desilusão ou impotência dos professores, mas também se encontra uma incrível disposição de reverter a situação, principalmente entre aqueles docentes que se declaram conscientes de seu papel profissional e social e se dizem "apaixonados" por aquilo que fazem. Não se encontrou um único docente que tenha falado em desistir da profissão.

A maioria dos agentes considera que a maior responsabilidade pelo estado de violência é a família, que, no dizer de muitos, está desarticulada ou, no mínimo, desatenta em relação ao verdadeiro papel que ela desempenha na formação da cidadania e na garantia do futuro das novas gerações, por ser o primeiro grupo na vida de qualquer ser humano. Segundo a opinião de vários educadores, a autoridade dos pais está desgastada, e muitos valores éticos e morais que anteriormente eram transmitidos e garantidos no interior da família, foram invertidos ou esquecidos.

Chamar as famílias para dentro das escolas poderá ser a primeira iniciativa, a fim de que pais, avôs, tios e outros parentes que tenham disponibilidade, atuem como voluntários no acompanhamento, no apoio e na proteção dos meninos e meninas que realmente desejam estudar. É claro que esses voluntários deverão ser antecipadamente orientados a respeito do papel que vão desempenhar no interior da escola para que não venham atrapalhar ao invés de ajudar.

Professores, alunos e demais integrantes da comunidade escolar falaram da religião como instrumento da educação, com uma surpreendente naturalidade, o que significa dizer que entendem e aceitam, até com certa urgência, a necessidade de um contato maior da juventude com os princípios e as práticas religiosas. De alguma maneira é bom refletir sobre esse posicionamento das pessoas, afinal o Brasil é um país historicamente cristão e, apesar das mudanças que se constatam e na rotatividade de fiéis entre as diferentes igrejas, as estatísticas continuam comprovando que a maioria absoluta dos habitantes, mesmo diante de liberdade religiosa que a Constituição garante, continua cristã.


Outra atitude poderá ser a utilização das quadras e demais espaços disponíveis na escola para desenvolver práticas esportivas e culturais que ofereçam oportunidades não só aos alunos, mas, também aos seus familiares e demais moradores do bairro, a oportunidade de cultivar o respeito e o amor pela escola, a fim de que essas próprias pessoas colaborem na preservação do patrimônio.

Finalmente, há de se considerar que em Macapá, como em todo o Brasil, continua enraizada a idéia de que todas as iniciativas devem vir do poder público, e as pessoas falaram muito nisso durante a pesquisa. Sabe-se, inclusive, que sempre houve um acomodamento ou descaso por parte das "autoridades" sobre a busca de soluções para os vários problemas de ordem social e que somente sob pressão cerrada do povo as providências têm sido tomadas, isso quando a mídia abre espaço nos noticiários. Mas é necessário, pois, uma mobilização da sociedade por meio da imprensa, de sindicatos, de grêmios estudantis e associações de pais e de moradores, no sentido de exigir do poder público uma atitude séria e urgente sobre a problemática da violência escolar.                     

REFERÊNCIAS

ABROVOVAY, M. et al. Violência nas Escolas. Brasília: UNESCO/Instituto Ayrton Sena/Unaids/Banco Mundial/ USAID/Fundação Ford/CONSED/UNDIME, 2004.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1999.
CARLOS, Elder. Agressão a professor causa tumulto. In: Jornal Diário do Amapá. Macapá: Diário do Amapá, 2007, dia 6 de setembro, p. 10.
CORREA, Oliseth Sarmento. Relatório de Atividades da Escola Estadual Barão do Rio Branco. Macapá: Escola Estadual Barão do Rio Branco, 2004.
MARQUES, Stefany. Criminalidade afeta as escolas de Macapá. In: Jornal do Dia. Macapá: Jornal do Dia, 2007, dia 7 de setembro, p. 7 et. seq.
MELMAN, C.. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.
MUNIZ, Denise. Jornal Diário do Amapá. Macapá: Diário do Amapá, 2006, dia 26 de abril, p. 8.
NÓVOA, A. Os professores e o “novo” espaço público da educação. In: TARDIF, M; LESSARD, C (Orgs.). O ofício de professor: história, perspectivas e desafios internacionais. Petrópolis: Vozes, 2008.



* Professor do ensino básico em Belém do Pará - Pará - Brasil. Graduado em História e especialista em Metodologia do Ensino Superior. E-mail: matiasprimeiro@gmail.com
[1] A cidade de Macapá tem uma geografia característica sendo sua área urbana, na maior parte, composta por terra firme. Mas por situar-se às margens do rio Amazonas, é composta também por áreas de "ressaca" (grandes áreas inundadas) sobre as quais se formam favelas. Assim, as pessoas que moram nessas "ressacas" constroem passarelas de madeira conhecidas popularmente por "pontes" porque ligam as casas umas às outras sobre a área de inundação permanente e também à parte de terra firme.
[2] Instituição que trabalha no sentido de recuperar jovens e adultos com dependência química.
[3] No ano de 2003, o professor Júlio Cardoso foi assassinado por um aluno quando retornava para sua casa, em Macapá.