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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O FILÓSOFO?

SEÇÃO 
ENSAIO




Doriedson Alves

Prof. de Física da Rede Pública do Estado do Amapá
Acadêmico do curso de Filosofia em Macapá


São laços de sangue transubstanciado que unem os homens em sua divina, torpe e vazia vaidade delirante, entre as torres das imagens emuladas como apelos insensatos de mentes enganadas, sobretudo pela manipulação de seus desejos, onde emergem obscuramente as falas demagógicas, pautadas em discursos frustrantes de uma existência inventada: flutuantes sonhos de um devaneio que mascara a vida, burlando os anseios vociferantes de sua musicalidade, enquanto mata o filósofo morto com a própria palavra declamada.

Lá se vão às aspirações de uma vida genuína, aquela que se basta a si mesma na afetividade de um mundo que viu o homem nascer humanidade, referendando os anos de existência entre as bestas que seguem o caminho, anonimamente: o infausto sem amor à humanidade. A desilusão bate a porta desse sujeito esquecido de si, encostado entre as vigas de um templo de fé caduca, professando uma crença mistificada, repleta de insinuações sem fundamento, corrompidas pelo medo que ele nutre ante a morte de sua vida. Ele se esconde diante do mundo, a se descortinar aos seus olhos míopes, enquanto definha como ser imundo de fina desilusão afetiva, solitário e disposto a imolar o corpo em tributo à ignorância que o gerou filho bastardo, cuja paternidade foi divinamente construída, como apologia ao estado estúpido-ignorante de sua vivência.

Mas o filósofo caminha pelo mundo, mesmo sendo andarilho de outras paragens. Ele sonha, canta, ama, sofre, em letras e livros a desafiar o tempo, a vida, as limitações de um pensar conservador. É na libertação de seu intelecto que nascem novos mundos, realidades, emoções, enquanto brotam proposições que reinterpretam a realidade humana, declamando o homem como ser multifacetado, controverso, sereno e, fundamentalmente, como ser que é puro devir. Ele pinta, em cores diversas a alma, sem sujar as mãos com o sangue escarlate da inocência perdida de quem não vê a concretude factual do tempo-espaço, mas apenas espasmos de inverdades alucinógenas.

O Andarilho Sobre o Mar de Neblina (1818)

Fonte: www.oglobo.com
Os pés calejados desse nobre louco desafiam a dor de quem não se limita a celebrar as migalhas assassinadas pela vaidade do espírito deslumbrado ante a própria imagem desfigurada pelo espelho da vocação narcisista. Eis uma representação imprópria de si mesmo, tal qual resto impuro da alegria que fere o espírito translúcido a se banhar nas águas corrompidas de um ser que escapa ao seu destino, sua sina, a finitude do canto apoético dos fidalgos da antevida, na fortuna destinada aos covardes. Eles migram de um lugar para lugar nenhum, perambulando pelas falsas opiniões de seus senhores; sim, os deuses da manipulação.

Quebrado o muro da ignorância, rompendo as amarras do obscurantismo das fórmulas irresponsáveis, de fuga das mazelas do ser-estar-no-mundo, se pode reconstruir o indivíduo a partir daquilo que ele é: mortal destituído do gozo da versificação filosófica, preso ao absurdo. E nessas ações, quase não intencionais, há contínuo vai e vem de intenções, declamações, encenações, quando o prazer da palavra reedificara a existência em novas investiduras. Desse modo, ele (o homem anoréxico) dará a luz seu filho primogênito, em berço gramatical, entre os sussurros da musicalidade das rimas líricas (ou épicas) de um sujeito que corre desnudo pelos lixões do submundo, pelas ruas vazias, onde crianças brincam perdidas no tempo inautêntico de sua inocência, a recitar apologias à fome das palavras. Elas veem tudo: os carros, as pessoas, a angústia que se faz presente como genuína opressão galopante, como arauto de um mal ainda maior: o preconceito das palavras inconsequentes. Contudo, os caminhos seguem as batidas ternas do coração das esperanças juvenis, quando tudo ainda parece possível. A voz que se ouve na imensidão das casas amotinadas pela ausência da filosófica felicidade-afetividade é aquela a tremer com o revoar dos pássaros do casebre, velhos, o mesmo que presenciou (e presencia) o alvorecer de tantas juventudes, algumas já ceifadas pelo tempo da violência.

O filósofo ama a liberdade criativa de seus versos, como quem ama incondicionalmente a vida, na fugacidade das emanações amorosas. As relações de sua alma, embora promíscuas (são tantos amores), enobrecem a musicalidade do sentimento exalado, codificado, entrelaçado entre as alocuções da imagem que ele reflete de si mesmo, nas terminações ontológicas do mágico poder de manipular de forma rítmica as palavras, tal qual um grande maestro, entre as altas expressões de seu irreverente pensamento – sobretudo ao se projetar como ser inacabado, a frente da estupenda proliferação do encantamento artístico – que flui dos poros incansáveis das verbalizações do mundo interior, nascido nele como aurora reveladora da alma humana. Então, ele pode petulantemente abrir os braços e sentir a fluidez da vida recriada, em filosofia autêntica e legítima, na performática natureza emanante do todo: ele versifica a razão, despojando-a do caos de sua desordem, eternizando as nuanças e percalços do viver do homem. Eis ele: o filósofo.