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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A ARTE DE SER IGNORANTE

SEÇÃO OPINIÃO

Por:

David Rodrigues
Filósofo    



David Rodrigues
Todos os políticos que estão executando suas atividades nesse momento, seja em Brasília ou em cada parte do Brasil, merecem de fato o cargo que exercem. Todos, sem exceção! Porém sabemos evidentemente que alguns – a minoria – estão de alguma forma tentando permanecer distante da tentação de se tornar corrupto. Claro que isso para nós, subalternos do conhecimento político ou desinteressados ou quem sabe, "zumbizados" pela mídia?

Fica difícil de acreditar na bondade política diante de tamanha corrupção. No entanto, como a honestidade política é rara como um diamante, e que por esse aspecto fugaz de bondade, políticos bonzinhos merecem uma colher de chá, o que mais importa não é evidenciar que o politicamente correto merece ter seu cargo público (isso soa até como algo sem graça), mas sim ressaltar que o corrupto também deve se vangloriar e sorrir para os holofotes do sucesso.

Dentre as boas novas da política brasileira, uma delas relaciona-se à hipocrisia do decoro parlamentar que tem como objetivo teatral de comportamentos éticos dignos de nobreza, decência e tudo o mais que não corresponde à realidade da nossa política. Em um exemplo de decoro nossa presidenta Dilma Rousseff, após seu regresso da cidade de Belém do Pará "parabenizou" o novo presidente do senado Renan Calheiros – PMDB-AL (In: o Estadão www.estadao.com.br/noticias/nacional).

Diante das acusações feitas contra Calheiros, e mesmo assim a presidenta agiu de tal forma, fica um tanto estranho para nós entendermos como ela pode parabeniza aquele que é acusado de corrupção "debaixo de seu nariz".

Na verdade, tal atitude presidencial torna-se impossível de ser analisada como algo falso ou verdadeiro do ponto de vista do senso comum. Nossa subjetividade não alcança esse fato. Não dá para saber se as congratulações foram devidamente em virtude do teatral decoro parlamentar ou se foram realmente expressas por sentimentos sinceros. No entanto, fazendo uma analogia ao período carnavalesco, essa atitude de congratulações entre políticos é pequena diante de tamanha folia de Brasília.

A vitória do novo presidente do Senado é um dos vários motivos que contribuem para que cada político tenha seus méritos. Pois nós, como eleitores, merecemos justamente o que nos convém, já que nossa ignorância política é sempre superior às questões socialmente importantes. Os realities shows, por exemplo, recebem muito mais ligações de pessoas despreocupadas com a política do que um movimento contra a corrupção. Isso mescla uma série de fatores que contribuem para que tais manifestações contra o sistema de corrupção sejam varridas para debaixo do tapete. Dentre esses fatores, podemos destacar um como o principal, o dinheiro. Nesse aspecto, palavras como: mensalão; Cachoeira; reality show; lavagem de dinheiro; violência; programas de TV; Calheiros; Sarney; paredão; mulheres frutas; milícias; dentre outras coisas violentas que enchem os olhos de crianças atônitas diante da mídia, vão se tornando cada vez mais familiares. Pois tudo isso é sinônimo da nossa falta de interesse social. A arte de ser ignorante, perante uma sociedade, consiste justamente em lapidarmos apenas nossas atitudes individuais na qual menosprezamos egoisticamente o social.

Contudo, doravante, desconsiderando a discrepância da subjetividade como argumento plausível para se fazer críticas, vale ressaltar que a ciência, possui suas explicações acerca desses atos corruptos e que tais políticos agem de acordo com o inevitável. Ou seja, existe uma explicação científica para justificar os atos de interesse individual, portanto, numa sociedade, um ato corrupto.

Do ponto de vista individual estamos cercados de pessoas das quais não temos a mínima ideia de quem são. Vivemos numa competitividade tão grande que todos os passos apressados de milhares de pessoas são pequenos diante de tamanha busca pela satisfação do bem individual. Todas as propagandas luminosas e psicodélicas que enchem a cidade expressam profundamente uma ilusão de que necessitamos daquilo que estão nos oferecendo e que isso é imprescindível para vivermos melhor. Não suportamos filas, não "aturamos" demoras. Na busca de um emprego, todos os concorrentes são pessoas estranhas que de alguma maneira querem nos deixar para trás como se nossa vida não fosse importante. Às vezes voltamos tão cansados de um dia intenso de trabalho que o simples e desejado banco do transporte coletivo onde conseguimos nos sentar torna-se tão importante que quando alguém com necessidade especial ou idoso/idosa surgem, nos sentimos divididos entre uma fadiga ainda maior e certo menosprezo, como se nunca fôssemos um dia envelhecer.

É gritante a evidência de que estamos cada vez mais desprovidos de comportamentos eticamente passivos. Claro que não devemos esquecer que numa sociedade violenta ou nos tornamos como tal ou nos tornamos cada vez mais medrosos, reclusos e individualistas. Mas jamais devemos desconsiderar que para que tudo isso, hoje, esteja de tal forma, ouve um início. Isto é, existe sim a possibilidade de coibir os desconfortos de uma sociedade. E essa redução de desconforto começa pela Ética. Antes, porém, de voltarmos ao argumento inicial no qual dissemos que cada político merece tudo que possui é necessário que utilizemo-nos da Ciência para tentarmos entender os porquês dessa questão sem que caiamos nas armadilhas da subjetividade do senso comum.

Assim como Sigmund Freud (1856-1939) tinha conhecimento de que todos nós somos regidos pelo conflito entre Id, Ego e Superego e que, portanto, tendo o Id o que mais predomina em nossa estrutura cerebral, os bons políticos também sabem muito bem desse fato científico. Para Freud, em nossa mente existem três divisões que determinam nossa essência. O maior e mais obscuro é o Id. Para o fundador da Psicanálise, o Id corresponde às nossas emoções. Está mais vinculado a nós enquanto essência porque além de ser intrinsecamente humana, em sentido literal, não esta atrelada às coisas externas. O Id se preserva na parte funda de nossa mente mantendo-se como tal, nos caracterizando essencialmente como pessoas. Logo em seguida sucede o Ego. Este tem como objetivo apaziguar a luta entre os desejos livres do homem (Id) e a normas estabelecidas (Superego). Desse modo, Ego e Superego conflitam-se constantemente em virtude dos desejos constantes do Id. Enquanto que o Id tudo deseja, o Superego estabelece as regras; o Ego abranda essa dicotomia.

Sigmund Freud
Foto: Max Halberstadt, em 1922.
Dentro desse aspecto psicanalítico de Sigmund Freud torna-se evidente que hoje, o Superego não exerce mais a tamanha força que exercia. Em outras palavras, as regras foram quebradas para dar margens ao engrandecimento do Id de cada um. E por qual motivo nossos desejos estão sendo tratados de "forma livre"? Por que as propagandas de cervejas bombardeiam mais ainda quando há um jogo por vir? Por que as mercadorias aumentam em final de ano? Por que todas as coisas estão atreladas aos nossos desejos? Porque, pela lógica, há mais lucro em milhares de pessoas comprando cada um a sua maneira do que milhares de pessoas comprando algo em comum. Ou seja, andar de ônibus é menos lucrativo para o sistema do que todo mundo comprar seu próprio veículo.

Tudo está associado aos nossos desejos. O nosso Id está mais aflorado do que nunca. E os políticos – aqueles que merecem onde estão – parece saber tão bem desse fato que com um saco de arroz, um botijão de gás de cozinha, um emprego mediano e uma série de ilusões, ludibriam aqueles que estão com o Id à flor da pele. Mas sabemos que essa excitação do Id não é provocada por nós mesmo, mas pela união entre os poderes. Dissemos anteriormente que um dos principais fatores é o dinheiro. Esse potencializa a maquina de eliminação da Ética. Não faz sentido os poderosos investirem cada vez mais em nossa educação de modo que possamos entender as engrenagens do sistema se é justamente com a nossa ignorância que eles lucram. Por fim, quando dissemos que todos os políticos merecem seus cargos é justamente por obterem a arte da falácia e por terem conhecimento panorâmico aplicado a seu bel prazer. Enquanto que nós, interessados apenas em nossa individualidade, permanecemos nesse aspecto da arte de ser ignorantes e enganados.