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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Notas sobre o ensino de História no Brasil

Por Gerson Nei Lemos Schulz
Reportagem publicada originalmente no jornal Tribuna Amapaense - Amapá onde o autor é colunista desde 2009.


1) Professora Liliane, em sua opinião como se configura hoje a situação do ensino de História no Brasil?

Bom, com relação ao ensino de História hoje no Brasil, vejo que ele está em um processo de busca de identidade porque, apesar de todos as teorias, na tentativa de aproximar o conteúdo da realidade do aluno, precisamos ter cuidado para não perdermos os conceitos básicos para a compreensão da História. Devemos ter cuidado com o reducionismo. Philippe Perrenoud, um teórico da educação, defende que a escola trabalhe com menos conteúdos, mas que os conteúdos trabalhados sejam bem explorados e que o aluno seja desafiado como forma de construção do seu aprendizado, e os alunos gostam de ser desafiados. Em outras palavras, eu penso que o ensino de História tem que ser acessível, mas não superficial.

2) Ainda hoje é importante a História enquanto disciplina e enquanto ciência para a formação de competências e habilidades no aluno? Por quê?

Professora Liliane Pinto - Licenciada em História,
docente na rede pública do município de Viamão - RS - Brasil
A História hoje (e sempre será) importantíssima ferramenta para que o aluno possa compreender os fatos, fazer a relação entre o ontem e o hoje. Fazer a construção das relações de futuro. Eu acho que a História continua sendo importante, também, para a formação de cidadãos críticos, que saibam qual é seu papel na sociedade, que questionem determinadas situações políticas, sociais etc. É importante instrumentalizar o aluno para que este consiga fazer a leitura dos fatos e que possibilite também discernimento dos discursos históricos, pois hoje a informação é extremamente acessível, mas além da informação precisamos de reflexão. Enfim, eu acho que essa é a importância da História hoje, de pensar em como os processos históricos podem ser diferentes e que nós (seres sociais) somos os responsáveis por esta construção.

3) No estado do Amapá temos forte influência da cultura africana nas vestes, vocabulário, alimentação etc, das pessoas. Atualmente há discussões sobre uma disciplina que seria criada como extracurricular sobre a história da África. Qual a sua posição sobre isso?

Eu sou a favor, claro. Porque acho que é uma política de resgate disso que se perdeu ao longo dos séculos. Penso que é muito importante o resgate da história dos povos africanos porque daí, também, vem a nossa história, a História do Brasil. Em relação ao fato dessa disciplina ser algo "a parte" da disciplina de História, como querem algumas pessoas, eu discordo. O importante, na minha visão, é que se trabalhe bem esse conteúdo não olhando apenas para o passado, com uma visão de "vitimização" desses povos. Eu acho que é de suma importância que se reveja a fundo essa história, não apenas como figuração, como conteúdo, mas para que nossos alunos possam compreender a relação que existe entre essa história e o cotidiano das pessoas hoje, o nosso cotidiano cultural. E, para favorecer isso, para que haja um fortalecimento dessa compreensão da história da África, ou seja, para que haja uma interdisciplinaridade na escola com a própria História, com a cultura africana, é que penso que não se deve fragmentar o ensino da História e, sim, que a História da África seja ensinada tanto nas disciplinas de educação artística, literatura e história brasileiras (conforme legislação), mas também a interdisciplinaridade é essencial, que os projetos estejam inseridos em todas as disciplinas.

4) Professora, qual é o nome da escola onde a senhora leciona e como se dá o ensino de História lá? Qual é o perfil dos alunos atendidos?

O nome da escola onde trabalho é Sargento Manuel Raimundo Soares. É uma escola de ensino fundamental que pertence ao município gaúcho de Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre. Bem, quanto ao perfil dos alunos, eles são de classe "D", em geral. Trazem consigo uma cultura da rua, ou seja, gostam do hip-hop, do rapp. E apesar desta cultura de rua passar a imagem de cultura de contestação, na realidade percebemos que os alunos precisam de maior bagagem cultural para poder compreender a sua própria realidade de exclusão, como chegaram a isso e como podem mudar o rumo de sua história. A escola tem o dever de ajudar nesse processo. Voltando ao teórico citado no início da entrevista, (Perrenoud), este defende que os alunos precisam conhecer instâncias políticas e jurídicas a fim de que possam pelo menos conhecer os caminhos possíveis de serem trilhados e poderem saber de quem cobrar, quando assim precisarem fazer. Penso que a História amplia os horizontes desses alunos e realmente mostra a eles a sua importância.

5) Em que séries a senhora trabalha a disciplina História e qual a média de alunos atendidos?

Bom, eu já tive turmas de quinta a oitava séries do ensino fundamental. Também já tive experiência com turmas de adultos lecionando em cursos pré-vestibulares. Na escola onde estou atualmente são 250 alunos por ano que nós atendemos na disciplina de História.

6) No estado do Amapá há uma grande preocupação com o resgate e a preservação da cultura local, das identidades das comunidades tradicionais. Nesse sentido, buscando algo em comum entre o ensino de História no RS e no Amapá, temos o uso de livros, que até os anos 1980 tinham forte cunho positivista, graças, em parte, à Ditadura Militar, mas e hoje, quais são os livros que são usados em sua escola no Rio Grande do Sul? Eles ainda são "positivistas" ou fazem uma leitura mais crítica da História?

Em minha opinião, os livros didáticos estão melhorando no sentido de trabalhar com conceitos. Mas, em geral, eu percebo que ainda existe influência do Positivismo, sim. Principalmente em autores que insistem em descrever a História, os fatos históricos, como algo pronto e acabado. Eu não sei como é tratada a disciplina de História no Amapá, mas imagino que lá os professores tenham os mesmos problemas que nós aqui no sul, ou seja, eu acredito que hoje em dia o desinteresse pela escola em geral seja nacional. Aliás, no Rio Grande do Sul, pelo menos na escola onde eu trabalho, os professores não se atêm ao uso de livro didático, ele é usado de forma complementar a outros materiais. Nós somos obrigados, até pela falta de condição econômica de nossos alunos, a não exigir que comprem livros. E também acontece que o número de livros que são encaminhados para a escola normalmente não são suficiente para todos (o número de alunos se alterada de um ano para o outro etc.); então, por isso, costumamos usar xerox, ou escrever nossos próprios textos para lecionar na sala de aula. Hoje a disciplina de História nos permite o uso de diversos materiais como jornais, internet, fotografias, História oral e muitos outros materiais, pois a vida é história e esta pode ser contada pelas mais diversas manifestações.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

TEOLOGIA CRISTÃ FEMINISTA

Por Gerson Nei Lemos Schulz

Entrevista publicada originalmente no Jornal Tribuna Amapaense da cidade de Macapá


Prof. Mestre em Teologia, Jones Mendes
Você sabe o que é Teologia Feminista? Você sabia que vários textos bíblicos foram adulterados sob a ótica machista, excluindo as mulheres de uma maior participação na igreja cristã? Para investigar estas e outras questões o Blog entrevistou o coordenador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos do Rio Grande do Sul – CEBI/RS, que também é mestre em Teologia pela PUC/RS e professor de Teologia Sistemática no Seminário Anglicano de Estudos Teológicos de Porto Alegre, Jones Talai da Rosa Mendes.


1) Professor, o que é Teologia Feminista?


A teologia feminista é uma forma específica de se produzir teologia. É uma teologia feita a partir da ótica do feminino e se manifesta também como teologia crítica. A teologia feminista re-lê toda a teologia, escrituras, tradições, a partir do compromisso de propor uma teologia que tenha relevância social e eclesial mais ampla e menos vinculada aos valores patriarcais em que tradicionalmente foi gestada. Não se trata de uma teologia exclusivamente feita por mulheres ou somente para mulheres, mas de uma forma de pensar as categorias do sagrado que resgatem os valores, os mitos, as narrativas, e a sensibilidades femininas permitindo o enriquecimento de toda a humanidade. A Teologia Feminista, tal como a conhecemos hoje começou na década de 1960.

2) A Teologia Feminista é católica ou protestante?


A Teologia Feminista tem o grande mérito de ser ecumênica. Não é propriedade de nenhuma igreja. É um valor que é partilhado por muitas delas. Na medida em que o discurso feminista pensa a religião, ou seja, transforma a fé em linguagem, a Teologia Feminista também se torna inter-religiosa porque todos que querem valorizar a mulher e promover uma sociedade igualitária nas relações entre homens e mulheres nutrem simpatia natural pela teologia feminista, pois ela repensa todo o Sagrado a partir de símbolos e categorias femininas, e nesse sentido pode ser uma teologia partilhada por muitas religiões e denominações cristãs, sejam elas católicas ou protestantes.


3) O senhor pode dar um exemplo de como a Teologia
Feminista re-significa a Teologia Tradicional?


Em primeiro lugar, por ser uma teologia crítica, a teologia feminista insiste em afirmar que cada teologia, enquanto discurso religioso sobre a fé, é tributário de seu tempo e de suas circunstâncias sociais, políticas, econômicas e culturais. Sabemos que a cultura bíblica é uma cultura androcêntrica, marcada pelos valores do patriarcalismo, onde ser homem significava ser superior a mulher. Mesmo os autores bíblicos não podiam superar essas circunstâncias que formavam suas consciências. Enfatizar esse fato, em si mesmo, significa partir da chamada "hermenêutica da suspeita" que significa de fato suspeitar metodologicamente do texto. Suspeitar daquilo que está escrito. É necessário elaborar uma desconstrução do texto, que não quer dizer "destruir" um texto, mas desmontar para ver de que é feito e refazê-lo percebendo seus elementos internos. Para fazer isso é preciso suprimir qualquer forma de fundamentalismo teológico. É necessário promover uma interpretação saudável que considere a palavra bíblica uma palavra viva e, exatamente por isso, capaz de falar para todas as épocas históricas. Se alguém procurar ler, por exemplo, o capítulo 15 do evangelho de Lucas verá que ali há três parábolas que falam do Reino de Deus: a parábola da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo. São três parábolas que tem uma estrutura similar. Algo é perdido, é encontrado, reúnem-se os amigos e terminam com festa. Todos nós já vimos vitrais e ícones com imagens do Pastor com uma ovelhinha nos ombros, todos já vimos imagens do filho voltando para casa sendo recebido pelo velho pai. Mas a parábola central que é a da moeda perdida nós jamais vimos. Jamais vimos um vitral ou imagem em nossas igrejas com a imagem de uma mulher procurando a moeda. Por que será? A "hermenêutica da suspeita" nos mostra que isso provavelmente é assim por causa da tradição masculina vigente nas igrejas cristãs. A imagem doméstica da mulher, que representa o Reino da mesma forma que as outras duas, não é valorizada da mesma forma ao representar o sagrado.


4) Percebe-se um conflito entre a Teologia Feminista e a Teologia Tradicional. Então é possível pensar a existência de uma perspectiva escatológica na Teologia Feminista para a mulher homossexual?

É muito importante esse tema para a teologia feminista exatamente porque problematiza um assunto muito polêmico no interior das igrejas que é o tema da homo-afetividade. O texto de Gálatas 3, 27 "já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" fascina a perspectiva de igualdade, integridade e liberdade. A teologia feminista deduz sua legitimação da visão escatológica de liberdade e salvação, e seu radicalismo, da compreensão de que a igreja cristã não é idêntica ao Reino de Deus. O Reino é maior que a igreja e não se identifica com ela; portanto, a igreja deve repensar todo o discurso que promove exclusão de pessoas a partir da constituição da sua sexualidade. Para lidar com o tema da homo-afetividade feminina eu aconselho as pessoas a ler as obras de Marcella Althaus-Reid, teóloga argentina que trabalha o conceito de "teologia indecente". Indecente porque mexe com os temas tabus que não são tratados no interior das igrejas. De fato, a teologia feminista entra em conflito com alguns aspectos da teologia tradicional exatamente porque busca re-significar os símbolos, a linguagem e desmascarar as ideologias discriminatórias que estão presentes no discurso teológico tradicional. A perspectiva da teologia feminista abre espaço para que as pessoas homo-afetivas encontrem o sagrado exatamente do jeito que são. Não violenta as pessoas normatizando-as a partir de modelos que se julgam universais para todos. Todos os filhos e filhas de Deus podem ser acolhidos no coração de Deus a partir de suas próprias realidades. Mas sabemos que é um longo caminho a ser percorrido.