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sábado, 20 de junho de 2015

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL

SEÇÃO OPINIÃO POLÍTICA


DORIEDSON ALVES
Professor da Rede Pública do Estado do Amapá



Em meio a tantos escândalos, envolvendo os mais variados setores da administração pública brasileira, acreditar em boas intenções é algo extremamente raro. Nunca se furtou tanto neste país, de forma tão explícita: o patrimônio público foi esfacelado entre quadrilhas de gabinetes. Chegou-se, infelizmente, a um estágio tal que ninguém mais se envergonha: a única vergonha é ser pego.

Os criminosos, ainda que sejam presos com base em fortes e indiscutíveis provas, não apenas circunstanciais, zombam de nossa inteligência, do poder judiciário, da legislação penal, afirmando serem vítimas de perseguição, engano, falhas processuais, ou até falta de provas contundentes. Esses larápios estão matando a dignidade do povo brasileiro já, desde sua história de constituição, tão sofrido, enganado, explorado. Oh gente mau-caráter! É como se nosso país tivesse se convertido em "um antro de devassidão moral e roubalheira", sem heróis a enaltecer, mas apenas bandidos espertalhões a capturar. Onde está a virtude cívica (interesse público), prerrogativa fundamental para o homem público realmente comprometido com a dignidade de seu povo?

O homem público digno foi condenado ao ostracismo pela impunidade de muitos usurpadores, inescrupulosos da moralidade. Ora, a política perde inteiramente sua funcionalidade, e valor, se, como orientação diretiva, não houver disposição para o bem comum. Nesse caso, qual a verdade por trás disso tudo? O Estado brasileiro, em sua frágil história recente, assumiu a forma de uma "terra sem lei" – há séculos, é bem verdade, somos lesados das mais variadas maneiras, nos mais diversos graus – onde a espoliação de suas atribuições sociais, econômicas, jurídicas, políticas, destruiu qualquer perspectiva, por menor que seja, de uma organização político-administrativa com certa legitimidade cívica, como é o Estado Democrático de Direito, pelo menos teoricamente, nas suas expectativas e projeções mais otimistas.

O cinismo vai ditando o tom das relações políticas, legais, representativas, revelando o completo descaso com os direitos individuais mais fundamentais – direitos civis, sociais, políticos – assegurados constitucionalmente pelo Estado em sua "Constituição Cidadã", a de 1988. As leis não intimidam nem suas sanções ou penalidades, principalmente por estarem restritas ao engodo de um falso legalismo: a lei e as instituições a muito foram saqueadas de qualquer mínima legalidade funcional, prática, efetiva, passando a defender simplesmente a exclusividade de determinados interesses setoriais. Com o passar dos anos, entretanto, a coisa vem ficando ainda pior em razão do desenvolvimento de um forte sentimento de conformismo, sustentado em sua sempre dilatada capacidade de "tolerar o errado": é isso que nos faz aceitar, "compreensiva", absurdamente – e até com certa cumplicidade e, portanto, também numa configuração de culpa – a corrupção de nossos ideais mais basilares: equidade, participação política, justiça social, isonomia, autonomia, liberdade.



Muito provavelmente se não fôssemos tão condescendentes e omissos, nossa condição econômica, política, social e cidadã, não estaria comprometida de forma tão calamitosa e desesperadora. Na verdade, o comportamento típico é o de aceitação conformada das mazelas decorrentes dos desmandos dos agentes políticos institucionais, isto é, de parlamentares regionais, governantes, congressistas, corrompendo a via inalienável da representatividade. Por isso, projetos destinados ao favorecimento de segmentos economicamente influentes, importantes – financiamento de obras executadas por grandes empreiteiras, por exemplo – são discutidos com tanto afinco, enquanto questões relacionadas às demandas emergenciais da população – como a construção e ampliação de centros médicos de referência – são abandonados ou tratados com o mais descarado desprezo.

Há, portanto, no distanciamento injustificado e antagônico entre governos e governados, a constituição de doloroso processo de implosão da natureza mesma do Estado: o estabelecimento, manutenção e promoção, da ordem e equilíbrio, sobretudo ao nível social, coletivo, estabelecendo pretensões de igualdade. Então, o que esperar de uma estrutura político-administrativa como essa? A sujeição indiscriminada a grupos hegemônicos, ou melhor, a grandes empresas, grupos corporativos, multinacionais etc., suprimindo qualquer ideal que implique a melhoria real e efetiva da qualidade de vida dos governados. Nada mais justo, portanto, que responsabilizar criminalmente quem gere o Estado – personificando, de certo modo, seu governo, administração, condução – pelos resultados insatisfatórios e desastrosos de suas políticas, em qualquer esfera de atuação.


Enfim, ao titular do Poder Executivo, e não apenas a ele, cabe assumir publicamente a culpabilidade de seus atos, especialmente quando for fruto de incompetência, omissão, conivência. Contudo, se existir envolvimento ético efetivo, e não somente demagógico, por parte do governante, seu empenho estará no ideal do "bem comum", baseado nos princípios que regem a cidadania, de acordo com as diretrizes constitucionais, sem que sejam negados ou abandonados quaisquer direitos individuais. Caso contrário, a máxima do pensador norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862) – desenvolvida no livro "A Desobediência Civil", de 1849 – ao afirmar que "todos os homens reconhecem o direito de revolução; isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e de resistir a ele, quando sua tirania ou ineficiência são grandes e intoleráveis", passa a fazer enorme sentido, principalmente se considerarmos o propósito das muitas manifestações públicas, encenadas nas grades capitais deste país, nos últimos meses. "A gente brasileira", em sua inata obstinação pela vida, merece heróis, humanos, com a dignidade de quem reivindica, a duras penas, a justa alegria de ser cidadão honrado.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A OBRA DE ARTE COMO REDENTORA E SALVADORA DO ARTISTA



Wemerson de Brito Oliveira

Graduado em Filosofia pelo
Instituto de Ensino Superior do
Amapá - IESAP



"O Grito"
Obra do pintor norueguês expressionista

Edvard Munch
As discussões sobre arte e produção artística revelaram diversos meandros aos quais o fluxo de gestação criativa perfaz e refaz até escapar à impressão em obra de arte. Como o desaguar de um rio tortuoso, depressivo, ora raso ora profundo, num mar que espelha e fixa a quietude do céu, o artista dá vazão às correntes violentas que revolvem em seu interior.

O artista em relação a sua produção é o criador de sua redenção e salvação. Não num sentido da dialética cristã, – se é que cabe aqui tal expressão – onde há ignorância do criador que acredita ser criatura, usando uma sentença feuerbachiana, mas numa relação consciente e de extrema necessidade, ele, o artista, transfigura um estágio de seu ser em algo sensível ao expectador. Nisso consiste sua tragédia, reconhece sua finitude e passagem e a aceita e ostenta como destino querido e conquistado. Penso que o artista é aquele que, inquieto pelo sentimento que traz no peito, abre as comportas de seu eu e permite transformá-lo em sons, imagens, cores, pedras, palavras, etc.

Uma escultura, uma música, revela muito da natureza do escultor e do compositor, até mais se nos fosse permitido um diálogo com eles. A obra de arte nos atinge por aquilo que ela carrega de sentimento e concepção de mundo, e isso se configura atualmente como característica que vem se desenvolvendo com a própria história. A arte egípcia é um monumento de exposição em que vigora a tradição e o culto à vida eterna. As menores alterações possíveis com as técnicas de produção de geração a geração de artistas e o fim último religioso a que devia ser fiel.

"A Esfinge"
           Cairo, Egito

Na Grécia, a Beleza é o fim supremo da obra de arte, num momento em que padrões de equilíbrio, serenidade e justa distribuição no espaço compõem o que se entende por clássico. Finalmente o indivíduo é chamado à baila, com sua inserção política e reconhecimento social, exigindo direitos e liberdade de pintar o mundo a partir de seus olhos, de suas inconstâncias e angústias internas.

Nessas dimensões da forma como a arte se apresenta aos olhos dos expectadores e a intencionalidade daquele que a produz vigora um jogo de atrito entre sensibilidade/estética e sensação. As condições sociais e ideológicas estão inerentemente ligadas ao ato do criar artisticamente e o artista é aquele que direciona sua poesis a fim de por a frente, ao alcance dos olhos, na maioria das vezes metaforicamente, toda uma estrutura contextual na qual ele se entende e se constrói enquanto ser existente, seja pra difundi-la ou subverte-la a gosto de suas ânsias e desígnios.

O famoso "Partenon"
em Atenas, Grécia
A produção artística, sendo um aglomerado ordenado a gosto do autor, as impressões ali postas são partes concretas de uma etapa da metamorfose de seu eu, da qual precisa expurgar-se, eliminar, expressar. A obra de arte é produto de um excesso, de uma ameaça. O artista externaliza, faz vir à tona, à superfície algo que o aflige num processo de criatividade. Criar é um ato vital de necessidade. Uma expressão pictórica é um canal sintetizador de estilhaços daquilo que num determinado momento fez parte da personalidade do artista, cada pincelada, cada traço e linha denuncia e apresenta resíduos mortais de esperança, paixão, desgraça e frustração.

Na obra de arte se encerra toda uma contextura psíquica e social e todo um vasto campo do qual a incitação dos sentidos e imaginação são capazes de explorar e sentir. Ao contempla-la somos levados a vislumbrar a unidade atemporal divina, a incessante epopeia rumo a Perfeição, os lampejos psicodélicos alucinantes. São estruturas fixadas, que escaparam de uma mente perturbada, que ameaçavam sua existência. O sofrimento é o codinome do artista, e sua satisfação é consequência, se não toda mas em boa parte, restrita ao produto de seu trabalho. No fundo ele é filho dos extremos, das intempéries do ambiente hostil à sua caminhada. Viver é uma constante conquista que sem sua arte se tornaria insuportável, aprendeu a morrer sucessivamente ao longo da vida, a transmutação de parte de sua ipseidade constituem o resultado de sua criatividade artística, enterra nela uma parte de si pra ver o sol nascer em mais uma manhã de sua peregrina jornada existencial.

Enfim, penso que a obra de arte redime e salva o artista não por ser um parto do novo, do belo ou manifestação dum gênio criativo, mas por ser um túmulo aberto à exposição.