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quinta-feira, 3 de julho de 2014

PENSO, LOGO ENLOUQUEÇO?




Prof. David Rodrigues

Fortaleza, 10 de junho de 2014





Curiosamente a anedota que a maioria das pessoas faz em relação à Filosofia – de que ela é coisa de louco ou algo do gênero – ganhou força numa recente explicação científica publicada aqui no Brasil (veja no site: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/pessoas-desconfiadas-tem-risco-maior-de-apresentar-demencia-diz-estudo). Assim, utilizando-se do mesmo gracejo, podemos dizer que, salvo aqueles que tiveram a vida interrompida brusca e acidentalmente, como é o caso de Albert Camus, todos os filósofos morreram loucos.  O "viver no mundo da lua" dos filósofos, afirmada por gente com os "pés no chão" ganhou, a partir da pesquisa publicada um aliado teórico-científico?

Esse estudo foi elaborado na Universidade do Leste da Finlândia, em Kuopio, e ele revela que "ser desconfiado demais" pode causar demência. É a chamado "desconfiança cínica". Segundo a pesquisadora Anna Miaja Tolppanen, principal autora do estudo, ter a desconfiança de que os outros agem em benefício próprio pode nos tornar dementes. Tal pesquisa foi publicada na revista Neorology, onde quase 1500 pessoas fizeram testes de diagnóstico de demência.

A metodologia da pesquisa consistiu em submeter 1.449 pessoas com idade média de 71 anos a testes para o diagnóstico de demência e a um questionário que media o nível de cinismo. Nele se perguntou aos participantes se eles estavam de acordo com declarações tais como: "acho que a maioria das pessoas mente para tirar vantagens". Em resumo, o resultado revela que mesmo levando em consideração outras possíveis causas da demência, tal como o colesterol ou tabagismo, aqueles que apresentavam maior nível de desconfiança atingiram um nível de demência mais avançado. Eis, portanto, uma explicação científica para os gracejos dos confiantes e seguros em relação à postura dos desconfiados e preocupados como é o caráter dos filósofos!

Mas será que ser filósofo é ser desconfiado? A filosofia proporciona àqueles que a tomam como uma postura de vida ou para os profissionais mesmo, um espírito crítico, uma postura questionadora. Desse modo a dúvida, o receio, a desconfiança, os questionamentos em geral são hábitos dos filósofos. Mas esses hábitos podem levar à loucura?

Erasmo de Rotterdam (1465-1536), talvez o mais "louco" de todos, escreveu em 1511, uma de suas principais obras O Elogio Da Loucura, livro onde expressa sua crítica mordaz à sociedade, cuja constituição tem como alicerce a loucura, para ele, a mãe de todas as coisas. Nessa obra, Erasmo cita um trecho de Sófocles que diz: "quanto menos sabedoria, maior a felicidade".

Mas seria a filosofia uma vilã? Penso que sim para os que veem a vida em completa harmonia cuja política, a saúde, a educação, as relações familiares, a segurança, as religiões da forma que vive-se hoje em dia são harmoniosas, seus representantes justos e sérios! E para que não enlouqueçamos é dever de todo cidadão não pensar, não ser "desconfiado", não questionar as coisas... mas cobrir com mentiras as crueldades da realidade. Uma missão assumida por filósofos que nada questionam como os jornalistas (talvez dos filósofos do mundo contemporâneo) que nos dão na televisão os fatos nus, crus, sem interpretação, aparentemente neutros. É isso que faz a todos pensar que temos garantida uma "boa" saúde mental, então, se é mesmo assim: que sejamos confiantes uns nos outros. Que tenhamos confiança no futuro do país! E para aqueles que não pensam assim só resta o quê? Serem taxados de "louco"! Livrem-se por fim, da desconfiança cínica, dirão nossos discursos oficiais!

O filósofo F. Nietzsche, demente após
o colapso em Turim em 1889.
A pesquisa que citei tem caráter científico, logo quer merecer o caráter da verdade. Portanto, meus amigos, tenham cuidado com a desconfiança! Não penseis muito em relação àquilo que pode ser ilícito. Sejam mais confiantes!

Para quê ser especulativo, desconfiado e crítico se assim se corre o risco de "enlouquecer?" É o que nos alerta o governo, o sistema ou seja lá qual for o nome da ordem coercitiva sobre a vida de cada um de nós pela qual gostam de ser chamados nossos "representantes" desde o padre, o pastor, o pai de santo, o juiz, o prefeito, o governador, o deputado ou o presidente da República. Então para que o cidadão seja feliz e não seja jogado aos manicômios, quanto menos sabedoria melhor... Vamos desencantar o mundo cada vez mais! Tomemos como exemplo Nietzsche, Schopenhauer, Kieekegard, Kant: esse excêntrico ao extremo! Santo Agostinho, Heidegger, Tales de Mileto – que de tanto querer ser sabedor das estrelas – caíra num poço. Loucura, loucura?

Por fim, tomando como referência a recente pesquisa sobre a loucura, já tenho a certeza de meu futuro como professor de Filosofia: "– vou morrer enlouquecido!"