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quinta-feira, 29 de maio de 2014

FILOSOFIA "ENTRE MUROS"


Prof. David Rodrigues

Docente de Filosofia

Fortaleza, 15 de Maio de 2014

Gerson Nei Lemos Schulz
Editor do Blog



Prof. David Rodrigues
Atualmente leciono aulas de filosofia e sociologia para o supletivo do ensino médio na rede privada no turno da noite com bastante entusiasmo na cidade de Fortaleza, estado do Ceará. E é justamente com base nessa experiência pessoal que desenvolvi esse texto a fim de relatar a curiosa e intrigante reação dos alunos do supletivo ao ensino de sociologia e, principalmente, ao de filosofia.

Ao realizarmos uma comparação entre os alunos do supletivo e os alunos que estão, de algum modo, "dentro do padrão", podemos notar em vários aspectos que existem diferenças no que tange à aquisição do conhecimento. Isto é, me parece que a educação é mais assimilável a uns e mais difícil a outros. Isso se dá, talvez, por uma simples questão de prática. Enquanto os alunos do supletivo não praticam mais ou deixaram de praticar o exercício da educação, os que estão "dentro do padrão", devido ao costume da prática, tendem a assimilar com mais facilidade determinados conhecimentos. Levando em consideração, é claro, o pressuposto de que tais alunos, tanto do supletivo quanto do ensino padrão, estão em plenas condições de aprender.

Essa, portanto, é a problemática do texto: algumas dificuldades e facilidades na obtenção do conhecimento na disciplina de filosofia dos alunos do supletivo em que leciono.

Há, em alguns, a "desfamiliarização" com a filosofia, pois muitos estão há quase dez anos sem vê-la. Outros não fazem a mínima ideia do que ela seja. E há também aqueles que alegam que ela, a filosofia, é coisa de louco! – De uma maneira irônica, estes últimos, talvez estejam mais próximos daquilo que a filosofia possa ser.

Para os que se lembram vagamente, a filosofia é algo remoto ministrado por aquele professor um tanto "estranho". Porém, penso que naqueles que dizem que "é coisa de louco", a filosofia está mais viva em seus espíritos, pois "suas verdades" foram questionadas e colocadas à prova. Já os que não fazem a mínima idéia do que signifique, a filosofia transforma fortemente sua visão de mundo no decorrer das aulas!

A cultura, os costumes, as ideologias, as crenças são alguns dos exemplos que engessou o homem de tal modo que este se tornou um "fantoche". E o condicionamento humano hoje seja, talvez, bem maior do que a busca do sentido da vida como era no mundo antigo, por exemplo. E na medida em que esse condicionamento vai se intensificando, nos distanciamos cada vez mais de nós mesmos!

Hoje, como sugere Zygmunt Bauman (2009) em seu livro Vida Líquida em que, Bauman – sociólogo polonês e um dos maiores expoentes sobre a teoria da globalização – afirma que "liquidez" é a essência máxima do ser humano atual devido à exagerada rapidez das transformações que ocorrem nas relações humanas, o que contribui para a fragilidade e a incerteza para com a peremptoriedade dos atos humanos. Tudo é tão rápido e ínfimo que nos tornamos líquidos em sua teoria. Não temos uma essência fixada. Dissolvemos-nos rapidamente. No entanto, mesmo líquidos, estamos engessados nessa liquidez e não conseguimos obter autonomia de vida e assim, nadamos nas ideologias em direção às fragilidades e incertezas da rotina. E cá estamos nós, automatizados pelos costumes...


Sociólogo Zygmunt Bauman
Tomo, assim, por base para minhas análises, essa teoria social. Os alunos do supletivo, que me parecem mais "engessados" pelos costumes, ao se depararem com a filosofia, tomam-na como um absurdo. "Como pode, isso, a filosofia querer destruir tudo aquilo no qual acredito?" é o que dizem os olhares atônitos de alguns alunos! Houve uma aluna que fez a seguinte pergunta: "Professor, esses filósofos querem ser mais do que Deus?" E ainda houve outra que – preocupada com as contradições entre os opostos – disse: "Professor, o melhor é não pensar!" Essas indagações se deram em uma determinada discussão acerca de assuntos filosóficos associados ao método dialético.

Para quem tem uma única referencia na vida, outras perspectivas são ignoradas. Principalmente quando se trata de assuntos religiosos. Em outros exemplos, as concepções políticas, éticas e morais são individualizadas de tal modo que muitos pensam como Jean-Paul Sartre: "o inferno são os outros." E eu acrescentaria: "e suas opiniões que diferem das minhas."

A primazia do "eu" é incutida pelo sistema econômico consumista que vivemos e que se reproduz de forma poderosa por meio dos profissionais de marketing, das redes sociais e midiáticas. A política instável e corrupta; as religiões caducas; a prioridade do consumismo; o gigantes volume de informações da internet; a "hipnotização" pelas redes sociais; tudo vai contribuindo, a meu ver, para uma única finalidade: o controle das massas e o pensamento único.


Dentro dessa "globalização" a filosofia é uma vilã no quesito "controle da humanidade". E como nós estamos cada vez mais bebendo dessa fonte dos costumes vigentes, nossa vida se automatiza. Em contrapartida, a filosofia, no que tange à vida, é talvez a que tem maior capacidade de resignificar nossa humanidade. Porque a filosofia nada tem que ver com ideologia. Ela não é pretensiosa. Não há uma predeterminação em seu início. Como nos diz Heidegger (1987) em sua obra "Que É Uma Coisa?" "[...] Na filosofia não há domínios, porque ela também não é um domínio [...]". Desse modo, por meio dela, utilizando-se de seus métodos, damos o ponta pé inicial numa tentativa de se chegar a um conhecimento cada vez mais seguro. Porém, é justamente por sua característica despreocupada que a filosofia ainda sofre resistências.


Queremos um chão. Queremos um norte, uma base. Contudo, esse nosso querer deve passar pelo olhar crítico desinteressadamente para que não haja a predominância da pretensão porque não somos uma ilha. A filosofia não deveria ficar "entre muros", entre os muros da escola, da sala de aula, dos gabinetes dos intelectuais... Isto é, vivemos em uma sociedade onde há inúmeras diferenças. Concordamos com Aristóteles, quando este afirma que o bem comum a todos é a justa medida de todas as coisas.
Por fim, quando nós professores de filosofia estivermos diante de pessoas ideologicamente engessadas, sempre vamos nos deparar com reações bastante curiosas, como por exemplo, o conformismo em dizer que "o melhor é não pensar!"