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segunda-feira, 29 de julho de 2013

A GREVE DE 2012 NA UNIPAMPA E A EDUCAÇÃO FEDERAL


Ana Lucia Simões Cardoso


Ibner Barbosa Lucena


Kátia dos Santos Corrêa

Acadêmicos do curso de Pedagogia
Unipampa

Orientador:

Prof. Gerson N. L. Schulz


Este artigo faz considerações entre a visão de "Humanitas" romana e os novos cenários da educação brasileira e seu problema de pesquisa é: em que medida a greve de 2012 deflagrada nas universidades e institutos federais do Brasil possibilitou o desenvolvimento da autonomia, da reflexão e das relações éticas no âmbito institucional?
Para se entender melhor o contexto atual parte-se da compreensão da palavra latina "humanitas". Ela significa o "espírito" de uma cultura ou o cultivo da cultura e da educação universais. Em seu sentido ipsi literis, significa: humanidade. O cultivo de um "espírito" humanitário para e com todos.
É daí que se pode inferir que uma educação baseada na "humanitas" busca potencializar as capacidades autônomas e autocorretivas pelo exercício da reflexão, investigação crítica, criatividade e o compromisso com a ética, a cidadania e a democracia.
Em 2012, ocorreu uma das maiores greves nas Universidades Federais do Brasil, onde aproximadamente 95% das instituições paralisaram as atividades de ensino, pesquisa e extensão. Foram quase quatro meses sem aulas.
Não há dúvidas de que a greve teve forte adesão nacional em poucos dias. Quarenta universidades aderiram e mais de cem mil alunos foram atingidos. Dentro desse tempo, houve protestos tanto da parte dos alunos quanto dos professores objetivando com isso melhorar a educação no país, torná-la mais próxima daquilo que se pode chamar "humanitas".
Mas na prática e tomando o nosso exemplo mais próximo para analisar o caso que é o da Universidade Federal do Pampa (especialmente no Campus Jaguarão), em certo sentido, nós, alunos fomos prejudicados. Apenas para se ter uma ideia de que o processo pós-greve não atendeu minimamente a ética que é propagada pela "humanitas" latina, o calendário foi refeito pela instituição sem a presença dos alunos. Embora, reconhecemos, que os acadêmicos têm voz por meio de um representante, é notório lembrar que a maioria dos estudantes não compareceu à reunião marcada por este para contrapor a proposta.
Outro fato que salientamos é que as algumas turmas foram divididas em duas partes entre professores novos (contratados temporariamente) e professores efetivos. Assim, metade ficou com o professor efetivo e a outra metade com o professor temporário em salas separadas. Quer dizer, em uma turma de cinquenta alunos, vinte e cinco foram para outra sala e vinte e cinco permaneceram com o professor que com elas iniciou o semestre. Fato curioso e controverso que aconteceu à revelia dos alunos, pois como pode uma turma que inicia o ano letivo com um professor terminar o semestre com dois e em salas separadas?
A partir destes episódios e do fato de os grevistas não terem conseguido seus objetivos, fica a pergunta: será que teremos greve novamente em 2013?
O não comparecimento por parte da maioria dos alunos à reunião de reconhecimento do calendário acadêmico, em nossa opinião, denota a falta de reflexão do próprio destino político de quem deveria se preocupar mais com sua carreira acadêmica, os alunos. E quanto à ética dos grevistas, pensamos que não levaram em consideração o tempo de aprendizagem de cada um de nós porque o conteúdo que seria ministrado em quatro meses, em alguns casos, foi compactado em dois meses após o fim da greve.
Assim, parece que a resposta ao nosso problema de pesquisa é negativa. Não houve o desenvolvimento da autonomia, da reflexão e das relações éticas no âmbito institucional nem por parte dos alunos que pouco ou nada sabem sobre os reais problemas da educação no Brasil e nem por parte dos grevistas porque mais uma vez usaram o processo educativo e os alunos como forma de barganha para implementar conquistas em suas carreiras que lhe servirão para o resto da vida enquanto aos alunos que fizeram também um concurso público (ENEM ou vestibular) será imputada a obrigação de terminar mais tarde do que o planejado seus cursos.
De forma alguma estamos contra os professores, porém pensamos que os alunos não foram ouvidos o suficiente. Tanto o Ministério da Educação quanto os professores foram insensíveis para conosco! Os problemas da educação no Brasil são muito mais graves que apenas os baixos salários. A educação, no nosso ponto de vista, é sempre tida como despesa e nunca como investimento.
Fonte da charge:
www.presoporfora.blogspot.com
Por fim, percebemos que não chegamos nem perto da verdadeira noção da "humanitas" latina que é um conceito ainda do mundo antigo. Nossa educação universitária hoje forma-nos para enfrentar uma sala de aula de escola pública com sua diversidade cultural? Para o mercado de trabalho bastante defasado onde, no Brasil, poucos querem ser professores? Nos forma pessoas mais críticas para "ler o mundo" com autonomia, conforme nos disse Paulo Freire? Nos torna mais sujeitos em um mundo em que o poder econômico, como dizia Marx, oprime o mais pobre? É provável que não; e, senão responde afirmativamente a estas questões, então nossa educação não segue uma "humanitas" em termos de cultivo de uma cultura!