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segunda-feira, 18 de março de 2013

NIETZSCHE: na visão do Prof. Dr. Clademir Luís Araldi - UFPEL

Seção Entre-Vista



Tema: A recepção das ideias de Nietzsche no Brasil
Entrevistador: Gerson N. L. Schulz
Matéria publicada originalmente na revista de circulação nacional "Guias de Filosofia - Nietzsche" volume IV, em março de 2012, Editora Escala.
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1) Prof. Clademir, o senhor poderia contar a nossos leitores quando as idéias de Nietzsche chegaram ao Brasil? Quem as trouxe? Que obras foram traduzidas para os brasileiros?

Prof. Dr. Clademir Luís Araldi
UFPEL
Essa é uma pergunta importante. E eu quero dizer que hoje nós devemos muito à profa. Scarlett Marton da Universidade de São Paulo (USP) porque ela resgatou a história da recepção de Nietzsche aqui no Brasil. Então eu seguirei a linha de raciocínio dela. A profa. Scarlett divide essa história em três momentos. O primeiro é o do início do século XX, e o nosso cenário reflete o europeu. Nietzsche, ainda quando estava louco no final do século XIX e logo após sua morte, foi recebido na arte e na literatura. Na Alemanha, especificamente, no contexto do neo-romantismo. Havia nesse período verdadeiras peregrinações aos Arquivos Nietzsche em Weimar que era administrado pela irmã do filósofo, Elisabeth Förster Nietzsche.
Vários artistas plásticos e literatos de peso foram influenciados por ele. No Brasil foi semelhante. Os anarquistas espanhóis, principalmente, vieram ao Brasil e podemos ver as marcas dessa leitura em romances e contos anarquistas. Nesses contos podemos ver a leitura de um "Nietzsche" revolucionário, libertário. Então temos aqui Nietzsche numa visão mais política. Nesse período, tanto na Europa quanto aqui no Brasil, a obra mais lida era "Assim falou Zaratustra". Isso porque é nessa obra que transparece um Nietzsche com estilo, mais genial. Além disso, é importante dizer que em 1945 aparece a tradução de "Vontade de Potência", em 1947 surge em português "Além do bem e do mal", "Aurora" vem em 1947. Essas traduções são obra do autor paulista Mário Ferreira dos Santos que nasceu em 1907 em Tietê, mas ainda criança se mudou para a cidade de Pelotas no Rio Grande do Sul onde foi educado e começou sua vida intelectual como escritor. Quando se mudou para Porto Alegre publicou pela editora Globo de lá estas obras.
 Friedrich Nietzsche (1844-1900)
Em um segundo momento na década de 1930 a 1940 a situação se inverte. Nietzsche passa a ser visto como um pensador de "direita". Aparecem citações de seu pensamento em várias revistas e jornais ideológicos de cunho fascista aqui no Brasil e isso coincide com a deflagração da Segunda Guerra Mundial. É nessa época que ele é associado ao nazismo alemão. Mas eu gostaria de contrapor isso citando o artigo de Antônio Cândido chamado "O Portador" que é publicado em um jornal de São Paulo em 1946 onde ele critica essa imagem de Nietzsche precursor do Nazismo e mostra as técnicas de pensamento inovadoras do filósofo alemão que são críticas, justamente, e impedem qualquer apropriação de suas ideias por qualquer denominação política extremista, seja de "direita" ou de "esquerda".
Na década de 1960 nós temos o terceiro momento que é quando Foucault e Deleuze escrevem importantes textos sobre Nietzsche. As ideias dele são apropriadas pela extrema esquerda francesa no "Maio de 1968" e aí temos a imagem do "Nietzsche" que subverte as formas habituais de pensar. Foucault relaciona Nietzsche a Freud e a Marx e o põe como um mestre da "Escola da Suspeita". Aqui no Brasil a USP, que sempre teve uma influência francesa, pois Foucault visitou o Brasil duas vezes, constrói a imagem do "Nietzsche iconoclasta". É valorizado o aspecto crítico, destrutivo do pensamento de Nietzsche. Em 1970 Nietzsche entra nas universidades. No sul do Brasil, especialmente, Nietzsche penetra por causa da leitura da igreja Católica, pois para os cristãos católicos Nietzsche era e é visto como um irracionalista, um crítico do cristianismo e como alguém que não teria compreendido bem o que é ser cristão. Assim, na visão dos religiosos, Nietzsche devia ser estudado para ser combatido pelos futuros sacerdotes.

2) É possível então afirmar que na mesma medida em que Nietzsche é visto como um pensador de "direita" nos anos 1940 pela "esquerda" brasileira, nos anos 1960 essa mesma "esquerda" se apropria das ideias de Nietzsche para combater a Ditadura Militar que estava no poder?

Sem dúvida. Nietzsche tem esse caráter crítico. Ou ele é apreciado ou é odiado. E veja como é cíclico: em um primeiro momento ele é o pensador libertário, como diziam os anarquistas. Em um segundo momento ele é o precursor do Nazismo e depois temos uma reviravolta na década de 1960 quando ele é tomado como um pensador crítico, destruidor dos ídolos, dos preconceitos e também é visto como o pensador do excesso e do transbordamento dionisíaco. A revolução sexual da década de 1960, o movimento estudantil, todas essas revoltas coincidem com a Ditadura Militar no Brasil. Aí Nietzsche é visto sob o aspecto do pensador adepto do inconformismo, da rebeldia. E nesse período aqui no Brasil nós tivemos movimentos revolucionários que associaram a política a uma leitura de Nietzsche como aquele que defendia o extravasamento das pulsões eróticas, assim renasce um Nietzsche libertário. Já nos anos 1980, conforme a professora Scarlett pesquisou bem, enfatizam-se os efeitos desastrosos do pensamento político de Nietzsche pelo viés do "Nietzsche precursor do Nazismo". Ele passa a ser descrito como irracionalista. Torna-se grande a influência dos marxistas, especialmente de George Lukács que vê Nietzsche como representante da burguesia, e de uma burguesia decadente. Por outro lado, temos a crítica de pensadores conservadores cristãos que apresentam Nietzsche como um pensador contraditório, irracionalista. Eu sempre lembro que ouvi de um velho professor de filosofia que Nietzsche queria, na visão desse professor, estabelecer o império da irracionalidade. Então até a década de 1980 estamos entre os extremos: ou Nietzsche provoca aversão ou fascínio. É nos anos de 1980 então que a academia começa de fato a estudar as obras desse autor com mais profundidade sem considerar o aspecto ideológico anterior.


3) Em 2002 o senhor escreveu e apresentou sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo intitulada "A radicalização do niilismo na obra de Nietzsche: acerca da posição de um novo sentido de criação e de aniquilamento" e em 2008 o senhor realizou seu pós-doutoramento no Technische Universität em Berlin/Alemanha, poderia falar um pouco sobre suas pesquisas?

Bem, eu procurei investigar na minha tese, depois saiu o livro "Niilismo, criação, aniquilamento: Nietzsche e a filosofia dos extremos" dentro da Coleção Sendas e Veredas, ligada ao Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) da USP, publicada pela Discurso Editorial e pela editora da Unijuí em 2004, mostrar que o pensamento nietzschiano se move entre dois extremos: vai de uma crítica radical à moral, aos valores e à perspectiva de estabelecer um projeto de criação inovador. Mais do que isso, não só ele propõe a criação de novos valores, mas de um novo modo de vida.
Eu valorizei não só o Nietzsche artista, mas criador em sentido amplo. Mostro um Nietzsche que quer dar novo peso, novo sentido para a existência. Assim nós temos o Nietzsche crítico que passa pelo extremo do niilismo e o Nietzsche artista, aquele que defende uma criação "dionisíaca" no final de sua obra. Essa perspectiva eu continuei investigando quando fiz o pós-doutorado em Berlim só que aí a minha pesquisa parte do pensamento do jovem Nietzsche onde busquei saber que sentido de criação estética, de subjetividade, havia nas obras de sua juventude e de que forma esse sentido evoluiu no pensamento do autor nos anos seguintes. Eu também escrevi sobre um tema bastante atual que é o niilismo para dar subsídios ao tema da crise de valores do nosso mundo "hiper-moderno". Esse tema causou em mim muitas inquietações, muitas discussões tanto na academia quanto no ensino médio com alunos de diversas origens. Esse ainda hoje é um tema bastante recorrente no mundo em que vivemos.


4) Quais são e onde se localizam atualmente no Brasil os principais grupos que estudam as obras de Nietzsche?

O que é interessante hoje em nosso país é que a leitura, a pesquisa, a discussão sobre Nietzsche está bem descentralizada. Nós tivemos inicialmente a USP, a Unicamp, algumas universidades do sul do Brasil. No Rio de Janeiro. Hoje Nietzsche é um pensador que está na moda. É discutido muito em cafés filosóficos. Temos também grupos no Paraná, em Curitiba, em Toledo. Na Bahia. No Ceará. No Rio Grande do Sul temos o grupo de Pelotas aqui da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) que foi fundado em 1998. O nosso grupo aqui é coordenado por mim e pelo meu colega, professor Luis Eduardo Xavier Rubira e é aberto a todos os interessados. A nossa dinâmica é a cada ano estudar uma obra de Nietzsche. Por exemplo, ano passado estudamos "Assim falou Zaratustra" e este ano estamos estudando "Humano, Demasiado Humano". Também é importante citar um grupo que é pioneiro no Brasil, que tem uma sólida tradição (do qual sou integrante) que é o GEN da USP e da UNIFESP (Grupo de Estudos Nietzsche) que foi fundado em 1996 pela professora Scarlett Marton e que publica trabalhos de autores nacionais e estrangeiros.
Prof. Clademir Araldi
Ao fundo, o mapa da Alemanha

 onde ele morou
durante o doutorado

e o pós-doc.
Temos os "Encontros Nietzsche" que são semestrais em São Paulo e em outros lugares como aqui em Pelotas onde já se realizaram duas vezes. O GEN ainda coordena a "Coleção Sendas e Veredas" que todo ano publica pesquisas relevantes sobre Nietzsche. Temos também vários programas de pós-graduação que pesquisam Nietzsche em forma de dissertações e teses de doutorado. Até mesmo no ensino médio, agora com o retorno da Filosofia a esse segmento, Nietzsche é um autor bem popular ente os jovens porque ele é um pensador que provocativamente propõe que cada um tenha uma forma ousada e rebelde de encarar a sua existência. Ele incita que cada um busque uma forma singular, autônoma de vida. Que cada um busque seus próprios valores de modo audaz, com esse caráter do excesso dionisíaco.

5) O senhor foi seminarista da igreja Católica, mas trabalhou Nietzsche em sua monografia de conclusão de curso de graduação; no mestrado; no doutorado e no pós-doutorado. Como surgiu seu interesse pelo autor alemão? E como administrou o conflito entre as premissas nietzschianas e a fé?

Como eu disse antes, no Sul do Brasil muitas faculdades católicas estudavam Nietzsche então eu comecei a cursar a Faculdade em Viamão em 1989, na região metropolitana de Porto Alegre, e eu descobri Nietzsche no primeiro ano do curso de Filosofia por meio de Jung, naquele texto dele sobre "Wotan", em que discute a condição do homem antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Aquele texto me fez repensar minhas convicções e desde então leio Nietzsche a partir das obras "Assim falou Zaratustra", "O Nascimento da Tragédia". Assim Nietzsche tem sido meu companheiro de pesquisas. É o autor que mais me motiva a investigar, pensar e produzir Filosofia. Em relação à segunda parte da tua pergunta, eu diria que Nietzsche veio para radicalizar as dúvidas e também instalar e aprofundar essa crise a que a Filosofia leva seus alunos, isso me fez optar por uma Filosofia sem convicções religiosas.


6) Para o senhor, o fato de Nietzsche ser hoje um dos autores mais lidos no Brasil é um sinal de que os brasileiros estão mais interessados pelos temas da Filosofia ou será apenas uma espécie de modismo já que temos por meio de Irvin Yalom a associação de algumas ideias de Nietzsche com a psicanálise em seu romance "Quando Nietzsche chorou" ou ainda as obras de auto-ajuda como "Nietzsche para estressados" de Allan Percy?

Nietzsche é um autor que está na moda, sem dúvida. Mas desde a década de 1980 nós temos no Brasil um interesse sólido pelo autor. Então "modismos" passam mas o interesse por Nietzsche permanecerá. É uma grande riqueza os vários modos que nós temos de nos aproximar de Nietzsche. Por exemplo, essa perspectiva que você citou de Yalom é um ponto de vista interessante por aproximar Nietzsche da psicanálise. Nesse romance ele trata o período conturbado e anterior à elaboração de "Assim falou Zaratustra". Temos também a sua ligação com Lou Salomé, há uma crise que é trazida para a ficção numa perspectiva que pode levar a uma saída criativa. Sem dúvida, Nietzsche quer fornecer ajuda para que o indivíduo supere sua crise de valores, mas pondo isso em nível superficial nós temos uma literatura abundante que serve como auto-ajuda para resolver, não propriamente o conflito do ser humano atual, mas apenas questões circunstanciais. É nesse sentido que o modismo passará. Por outro lado, o modo como Nietzsche leva o indivíduo a se confrontar com sua existência, esse, penso eu, não passará. E para compreender esse Nietzsche requer-se uma leitura contínua, aprofundada que não se detenha apenas a "chavões", restrita a alguns textos, esporádica.

7) Zygmunt Bauman, autor de "O mal-estar na Pós-modernidade" e "Amor Líquido" entre outros, no capítulo sobre sexualidade afirma, grosso modo, que no mundo contemporâneo considera-se importante experimentar o maior número possível de relacionamentos sexuais e buscar-se o prazer a qualquer custo. Ele não concorda com essa tese e estabelece uma critica a ela em "Amor Líquido", mas muitas pessoas pensam que essa busca pelo prazer sexual que, inclusive, parece que a juventude pratica quando vai a uma boate por meio do conhecido "ficar" assemelha-se à visão dionisíaca de mundo proposta por Nietzsche. Buscar o prazer por meio do máximo de relacionamentos sexuais no mínimo de tempo possível é ser dionisíaco? O senhor concorda com essa tese?

Eu não concordo. Por um lado Bauman faz um diagnóstico certeiro, o indivíduo contemporâneo do início do século XXI é hedonista, é individualista, é egocêntrico. Isso implica que as relações amorosas entre as pessoas, como tudo é "líquido", como tudo é fugaz, sejam passageiras, transitórias porque o indivíduo quer o máximo de prazer e as relações não são mais estáveis, tendem ao "marasmo" e etc.
Até aí tudo bem, o diagnóstico é esse! Em relação a Nietzsche posso afirmar que ele põe a ênfase não na razão, mas nos impulsos. Mas para ele não é qualquer forma de prazer que deve ser extravasada, aqui está o problema. Hoje se usa Nietzsche para dizer: "bom, o dionisíaco é simplesmente dar uma vazão qualquer a seus impulsos e buscar o máximo de prazer em qualquer circunstância". Essa leitura é totalmente equivocada da obra nietzschiana. Isso porque nos últimos anos de sua produção filosófica ele apresentou um projeto que é a "espiritualização da paixão" ou a "sublimação dos impulsos". Sendo assim, ele propõe uma hierarquia dos impulsos. Quer dizer, ele pergunta: "quais impulsos devem preponderar?" Diz que não se deve dar vazão a uma paixão qualquer. A pergunta é: "qual é a paixão que deve ter primazia?" "Qual impulso deve se sobrepor aos outros impulsos?" Nesse sentido, de modo algum, Nietzsche é defensor desse hedonismo superficial e completamente, eu diria, vazio em que cai o homem contemporâneo. Somente uma análise bastante superficial concluiria que no mundo de hoje o homem é completamente dionisíaco. A intensidade do prazer, dos impulsos não é simplesmente esse extravasamento, essa banalização contemporânea com a qual muitas vezes se vive os prazeres. Em Nietzsche temos o aspecto qualitativo de uma relação amorosa que prevalece sobre o quantitativo.

8) Bem professor, a Revista Conhecimento Prático Filosofia agradece sua entrevista exclusiva e aproveita para pedir algumas palavras finais aos leitores brasileiros de Nietzsche.

Um dos primeiros livros de Nietzsche
(em italiano) a chegar ao Brasil

em 1906, na cidade de
Pelotas - RS.
Certo, eu quero concluir apontando o aspecto positivo sobre a obra de Nietzsche. Nós vivemos hoje no Brasil uma liberdade de pensamento, afinal a Filosofia tem muitos canais, muitas formas de ser produzida, discutida, comunicada, publicizada. Nós temos livros, revistas, jornais, as mídias digitais (blogs, redes sociais), todos estes canais propiciam a discussão sobre a filosofia de Nietzsche. 
Eu analiso que tudo isso é muito bom, mas também penso que é preciso aprofundar os estudos. Estimular os jovens à leitura das principais obras e temas e realizar um estudo crítico e sério de seu pensamento. Então, a tarefa acadêmica necessariamente não contradiz, mas aprofunda aquilo que em nosso meio cultural tende a certa superficialidade. É preciso que a academia analise as obras, o pensamento, as traduções e vincule isso aos meios de cultura da sociedade. Sendo assim, eu quero dizer que se Nietzsche chegou às universidades nos anos 1960 hoje a universidade deve se abrir à sociedade e não ficar apenas com produções formais e eruditas e fazer com que essas provocações, desafios propostos por Nietzsche sejam, para as novas gerações, não apenas mera curiosidade filosófica, intelectual, mas um modo produtivo e interessante de se ver diante de sua própria existência. Que sua filosofia sirva para que cada um analise sua própria vida neste mundo e assuma as rédeas de seu destino, dos valores, do seu modo de vida, dos traços típicos do seu caráter. É esse o principal desafio que Nietzsche nos deixa.