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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NIETZSCHE E PAULO FREIRE: UMA LUTA CONTRA A EDUCAÇÃO HEGEMÔNICA


Gerson Nei Lemos Schulz



Hoje reflito sobre o pensamento de dois autores um pouco distantes no tempo, mas próximos sob dois aspectos: a crítica ao modelo educacional e a visão que a educação deve permitir a formação da autonomia. Um é Paulo Freire (1921-1997), o outro é Friedrich Nietzsche (1844-1900).

O educador Paulo Freire
Freire, de modo geral, se preocupava em mostrar que a educação tradicional é memorista e transmite conhecimentos já prontos não permitindo que o aluno construa seu próprio saber. Afora isso, ele diz que o conhecimento tradicional despreza os conhecimentos prévios que cada aluno traz de sua casa, de sua cultura (algo que Nietzsche também afirma na obra "O futuro de nossos estabelecimentos de ensino"). Freire diz que a educação tradicional é "bancária", pois trata apenas de acumular na mente do estudante, como se ele fosse uma tábula rasa, um banco onde se deposita dinheiro, saberes já consolidados pelos valores vigentes.

Em "Pedagogia do Oprimido" ele mostra que isso implica que o aluno que detém mais conhecimento "vale mais". Então, os melhores são aqueles que conseguem memorizar o conhecimento do professor e provar (na prova) que sabem ipsis litteris o que o professor disse. Em Freire esse tipo de educação não permite a autonomia do aluno, ao contrário, afirma que o conhecimento escolar é "de ouro" e que os estudantes que os retêm são "os melhores", é o mito que a educação garante o sucesso no mercado de trabalho, pois se afirma que os "melhores" conseguirão os melhores empregos.

Nietzsche afirma que a educação não deve ser ferramenta para o mercado; ela é uma possibilidade de se desenvolver a autonomia para que as pessoas não sejam ingênuas, emancipação e diálogo criativo com a cultura para transformar-se e transformá-la. Nietzsche, que vivia na Alemanha dominada pelo modelo positivista de educação, criticava a escola de sua época afirmando que ela se preocupava com a memorização dos saberes acreditando que isso tornaria o homem uma ferramenta mais útil para a produção capitalista. Ele abominava essa ideia que afirmava que o homem só é útil por causa de sua força de trabalho (intelectual ou braçal). Em "O futuro de nossos estabelecimentos de ensino" ele antevê um fato muito comum hoje, a superespecialização dos professores, isto é, ele preconiza que no futuro a educação seria meramente técnica e o professor seria "o especialista", especialista em um único assunto não sabendo mais dialogar com os demais saberes, transformando-se em um autômato da cultura. A educação estaria, neste cenário, voltada para ganhar dinheiro. E não é o que ocorre hoje onde é bem pago o mestre mais graduado?

O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche
Assim, enquanto Nietzsche afirma que a escola forma pessoas reprodutoras de um sistema que se pensa perfeito, eterno e imutável e despreza a cultura, Freire diz que a escola deve ser diálogo permanente com a cultura. O mesmo se dá com a ideia de autonomia: para Nietzsche ela é a crítica firme aos moldes educacionais artificiais, preocupados com a reprodução de valores tradicionais que são tradicionais porque aqueles que os seguem pensam que eles são naturais, que existem desde sempre sem se dar conta de que estes valores, as crenças, os mitos são construções culturais. Para Freire, que lança mão da palavra "conscientização" - como forma para se tomar consciência daquilo que está a nossa volta, do que está "escondido" por trás de determinadas ações, discursos - os efeitos dessa palavra devem nascer da educação que, por sua vez, deve lutar para formar indivíduos que não sejam ingênuos, que não reproduzam o sistema dominante mas o critiquem. Apesar da distância no tempo e das discordâncias entre eles em vários outros pontos, ambos concordariam sobre o argumento de que a educação não pode matar a criatividade, aquilo que é diferente, o novo e fazer do homem mais do mesmo!



domingo, 3 de outubro de 2010

GOMERCINDO GHIGGI: A AUTORIDADE EM PAULO FREIRE ESTÁ A SERVIÇO DA LIBERDADE

Gerson Nei Lemos Schulz



O objetivo deste artigo é discutir três conceitos que são: autoridade, autonomia e liberdade a partir das obras de Paulo Freire. Como comentador tomou-se por base bibliográfica a obra "A pedagogia da autoridade a serviço da liberdade" do professor gaúcho, Dr. Gomercindo Ghiggi, da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL.


Prof. Dr. Gomercindo Ghiggi - UFPEL

Para Ghiggi não existe liberdade sem autoridade. Mas o que ele, à luz dos escritos freirianos, chama de autoridade?

Na interpretação de Ghiggi a autoridade existe na família, na escola e na sociedade. Segundo ele, Freire se preocupa em analisar a autoridade do professor. Freire reconhece que o poder é uma relação e é relação conflituosa porque aí dentro existe a subalternidade entre opressores e oprimidos. Sob essa perspectiva Ghiggi desenha, em sua tese, o panorama da escola pública em várias cidades do interior gaúcho a partir do contato com seus/as alunos/as professores/as em um Programa de Formação de Professores ofertado pela UFPEL. É neste contato e no debate em sala de aula - onde se faz realmente a prática docente - que Ghiggi vai desvelando a contradição entre o discurso destes professores/as e sua prática. Então Ghiggi argumenta com Freire que a autoridade deve existir porque ela é o limite entre as liberdades particulares (individuais), ou seja, o que interessa para Freire é desvelar o limite para compreender e conscientizar o educando da existência da própria liberdade. Em outras palavras, a autoridade não se trata de autoritarismo - que é coagir doutrinariamente alguém -, autoridade é reconhecer a subjetividade do outro auxiliando-o a construir sua autonomia.


Quanto à autonomia em Freire, para Ghiggi, inicialmente é preciso a heteronomia, isto é, os valores que vem de fora (de acordo com Kant), da cultura, da família. Somente aí se pode falar de uma autoridade. É o que se conclui ao ler a tese de Ghiggi. Ghiggi também aponta as críticas de Freire à falsa autonomia que é aquela que serve ao mercado (onde tudo é mercadoria, inclusive o homem), que valoriza o consumismo, a produção, aumenta o tempo de permanência na escola para "qualificar" o aluno, aumenta as atividades complementares fora de sala de aula como se isso garantisse padrões de qualidade.


A verdadeira autonomia em Freire, para Ghiggi, é coletiva, ou seja, ela é crítica quando realiza a dialética entre os valores e a própria subjetividade mas também quando se preocupa em transformar a realidade, é aí que aparece a liberdade. Nesse sentido, a autonomia freiriana critica a pós-modernidade com seus conceitos relativistas como o fim da história (propagado por Fukuyama), o fatalismo que acredita que a história se resume à economia e que o mercado define todas as relações entre indivíduos e instituições e onde a cultura se reduz a mero entretenimento.

Logo, não existe, segundo Freire, liberdade sem autonomia e nenhuma dessas sem a autoridade (que é diferente de autoritarismo) porque ela define os limites da liberdade (dos indivíduos) e faz ter consciência da coletividade. A liberdade, em Freire, é sempre construção da autonomia em um processo dialético de conscientização da liberdade do outro na busca da transformação social.