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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

IMPÉRIO MUÇULMANO: UMA ANÁLISE DA IDENTIDADE SOCIAL ANDALUZA

Por Gilson Lemos Schulz

Acadêmico de História da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL/RS



Árabes conquistam a Europa




Pesquisador Gilson Lemos Schulz
A expansão do Império Muçulmano se inicia no século VII, ainda ao tempo do Profeta Maomé. Baseados na ideia de Guerra Santa, os muçulmanos apaziguam a Arábia e estendem seu império da China até a Cordilheira dos Pirineus. Posteriormente, sob a liderança dos Califas Perfeitos, o Império domina as regiões onde hoje se situam a Síria, o Egito, o Iraque, o Irã e a Índia. Também seriam anexados o Turquestão e a Península Ibérica ainda no mesmo século.

Para o historiador Ruy Andrade Filho em "Os muçulmanos na península Ibérica, 1994", ao invadir a Península, aproveitando-se da fragilidade dos Visigodos, os Árabes encontram um Sudoeste europeu em estado pré-feudal, em plena decadência política, cultural, comercial e social. A população autóctone não oferece grande resistência ao processo de ocupação. Ao contrário, muitos tomam os conquistadores como libertadores. Enquanto uma minoria cristã foge para o Norte, a grande maioria permanece na região ocupada.



Uma fusão de culturas


Ao adentrarem na Península Ibérica, os Muçulmanos se deparam com duas culturas diferentes: a cristã e a hebraica. A essas duas viria se somar a sua própria, a islâmica. Forma-se, então, uma civilização com características particulares na Península, que passaria a ser conhecida por Al-Andalus.
Ao contrário do que se poderia pensar, no entanto, a cultura que se desenvolve ali não é a mesma do resto do mundo islâmico. Na Península Ibérica ela adquire características que não se encontram no restante da cultura do islã.

De acordo com a historiadora Adeline Rucquoi (História Medieval da Península Ibérica, 1995), "a civilização extremamente original que resultou desta fusão não pode nem deve, em caso algum, ser confundida com o resto do mundo islâmico, e seria vão apresentar Córdova do século X como o paradigma do Islão medieval."

Mas, quem são os muçulmanos? Muçulmano é todo aquele que pratica o Islamismo. Mas isso não implica, necessariamente, que todo árabe seja muçulmano. Além disso, os muçulmanos, também, tem outro entendimento acerca da religião. Segundo o historiador Bernard Lewis, para "os muçulmanos o Islã não é somente um sistema de fé e de culto [...], isto indica, sobretudo, a complexidade da vida e das suas normas que compreendem elementos de direito civil, de direito penal e daquilo que chamamos de direito constitucional" (Revista Signum, n. 3, 2001).
Então a cultura que se formou ali era composta por Muçulmanos de variadas origens (árabe, síria, berbere), Judeus, Cristãos, estrangeiros e escravos. Considerando que cada etnia ainda mantinha minimamente suas origens culturais, teria sido possível, em curto ou longo prazo, o estabelecimento de uma identidade social própria da fusão dessas culturas naquele local?

A (re) criação de uma identidade social

Numa primeira análise é necessário estabelecer que o conceito de identidade talvez não sirva para explicar a fusão de culturas ocorrida na Península Ibérica. A identidade social de um povo é formada ao longo dos séculos e envolve uma série de características que ali não se encontram. Tampouco se poderia falar em aculturação, já que o Islã, naquele momento, não é suficientemente forte e atraente para impor a todos o seu modo de viver e sua cultura.
Para Ruy Andrade Filho (Idem) "Como em outras regiões, não houve imposição da religião dos conquistadores aos vencidos. Cristãos e Judeus, reconhecidos pelo Al-Corão como estando (sic) entre os 'Homens do Livro', não sofriam pressões para uma conversão imediata. Poderiam continuar professando suas religiões, mas sujeitos ao pagamento de impostos especiais. Para os que quisessem se converter ao Islã, havia a vantagem de passarem a desfrutar do mesmo status de um muçulmano de nascimento”.
A relação existente entre religião, regramento social e direito civil no Islamismo sugere que não houve um desvirtuamento das Leis muçulmanas por parte de seus praticantes diretos, nesse caso os Muçulmanos vindos da Arábia. O Islã teria se mantido intacto, apesar da convivência com outras etnias ou culturas.
O problema reside diretamente na atuação dos convertidos para quem o Islã trazia vantagens econômicas. Estes de modo algum deixaram por completo as suas culturas para praticar a religião muçulmana. Logo, não se poderia criar uma unidade entre islã e povos autóctones que suscitasse uma identidade. Para essa relação, talvez fosse mais correto falar-se em assimilação cultural. Cada cultura adaptando-se às outras sem, no entanto, abandonar suas particularidades.
A que conclusão se chega, então? Conclui-se que tantas culturas diferentes não foram capazes de fundir-se em uma só. Isso, por conseguinte, inibe de forma crucial o estabelecimento de uma única identidade social na Península Ibérica. Cada povo, ainda que em menor escala, continua praticando seus ritos, dentro de um processo lento de assimilação cultural.

Al-Andalus no Brasil

Concluindo, ao analisar-se a história da sociedade brasileira, percebe-se que existem grandes culturas que permeiam a formação de sua identidade social: portugueses, espanhóis, japoneses, italianos, indígenas, holandeses e árabes. E a contribuição dessas culturas à formação identitária brasileira é percebida na linguagem, no modo de vestir, na comida, na arquitetura, na música, no teatro. Há também de lembrar-se que as duas principais nações que colonizaram o Brasil, Portugal e Espanha, estão localizadas na Península Ibérica. Logo, toda cultura que se desenvolveu naquela região também chegou ao Brasil por meio dos espanhóis ou portugueses que aportaram por aqui ao longo dos últimos séculos.