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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

FIÓDOR DOSTOIÉVSKI: SOBRE "CRIME E CASTIGO"



SEÇÃO: LITERÁRIA



DAVID RODRIGUES

Edição:

Gerson N. L. Schulz




Dostoiévski
Você já leu a obra "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski? Não? Então leia e leia logo! Digo isso porque quero te provocar. Fazer-te perguntar sobre quando é que, em sua mente, pode surgir uma ideia que pode te levar a cometer um crime, mesmo sabendo que poderás sofrer o pior dos castigos.


É isso que acontece com o personagem Raskolnikov na obra "Crime e Castigo". Nosso personagem estava convicto de que ele, enquanto ex-estudante universitário tinha por direito se sobrepor aos demais, já que "esses demais" não estavam em condições de opinarem ou mesmo apontarem as soluções necessárias para uma sociedade decadente como a de sua cidade, a São Petersburgo do século XIX na Rússia.


Em outras palavras para Raskolnikov, os ignorantes e analfabetos seriam pessoas inúteis para a sociedade, já que (para ele) esses não podiam em nada contribuir. Aliás, esses inúteis seriam a escória social; seria o motivo pelos quais todos sofrem com a escassez de comida, direitos, liberdade, moradias e uma infinidade de descasos. E o Governo no universo de Raskolnikov? É alheio e indiferente a essa insignificância sobre a qual cruza os braços pela convicção de que os miseráveis são o que são pela aptidão de ser.


Alimentado por esse egocentrismo e ideologias de supremacia humana, Raskolnikov acreditava que ele era igual a essas pessoas que mudam a História, como por exemplo, Napoleão Bonaparte. Mas que significa ser um homem como Bonaparte para nosso personagem? Segundo suas ideias, essas pessoas surgem no mundo para mudar o próprio mundo. Elas nascem com o objetivo de agir da maneira que lhes convém. Isto é, se acaso se perceba que para melhorar o mundo é necessário qualquer tipo de intervenção, até mesmo sendo uma guerra, essa pessoa tem o direito de assim agir já que sua missão no mundo é justamente promover uma transformação para melhor.


Sim, Raskolnikov partia do princípio de que existem dois tipos de homem: o medíocre (pobres, analfabetos e ignorantes) e o gênio (Napoleão, Jesus Cristo e etc.). O primeiro deve manter-se tal qual sua condição determina (medíocre) e exercer sua função de indivíduo inútil. Ao passo que o segundo, esse sim, pode e deve mudar todo o curso da História caso lhe seja conveniente. Essa seria, portanto, a ideologia que habitava a mente de Raskolnikov.


E assim vai vivendo Raskolnikov, um ex-estudante que exerce sua contribuição em prol da sociedade por meio de seus textos e, de vez em quando, suas orientações universitárias, mas que mesmo assim, vive uma vida igual a dos "inúteis". E desse modo, a todo instante, lhe assaltam a mente inúmeras indagações indignadas, cujas perguntas ficam sem resposta. Como podem pessoas socialmente úteis e inteligentes viverem nas mesmas condições em que pessoas miseráveis? Por que ele, um ex-estudante e, portanto, um homem disposto a contribuir socialmente, vive em condições de extrema pobreza? O choque entre suas ideologias e crenças com a realidade o torna cada vez mais recluso, solitário e entristecido. Mas principalmente, é aí, também, que ele vai preparando em seu espírito a vontade de agir como agira Napoleão; modificando por completo sua condição de vida.


Em determinado momento, depois de perceber que havia algo de errado em sua vida e tendo a sua mente já alimentada e convicta de ideias sobre homens livres e superiores, Raskolnikov chega à conclusão de que é chegado o momento de por em prática suas convicções acerca de sua superioridade.

Lisavieta, uma senhora agiota, possuidora de prédios para alugar – de onde provém sua aposentadoria mais ou menos digna – é, para nosso personagem, a escória da sociedade. A pessoa que – segundo ele – é completamente inútil. E entre tantas vezes sua mente profunda mantém uma sinistra conversa com sua consciência se perguntando: – como pode uma velha inútil ser tão rica, ao passo que eu, um cavalheiro, ser tão pobre? (Claro que não é exatamente com essas palavras que Dostoievski problematiza as inquietações de Raskolnikov, contudo, a ideia gira em torno dessa problemática). E entre indignações e indecisões, entre atitudes racionais e emocionais, Raskolnikov comete o ato que ao ser ver é absolutamente normal e necessário.


Por fim, não queremos de forma alguma tirar toda a mágica da leitura do grande clássico da literatura universal Crime e Castigo, escrito em 1866. O que nos interessa é expor a magnitude e a interessante estória, cuja influência soa em grandes nomes como, por exemplo, Sigmund Freud, Nietzsche e Machado de Assis, além de influenciar a doutrina existencialista. Leia a obra e descubra se há alguma semelhança entre Dostoievski e você.



Referência:

DOSTOIEVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. Porto Alegre: L&M Pocket, 2007.