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terça-feira, 30 de setembro de 2014

"CONDENADOS" À LIBERDADE?




ANDRÉIA DE SOUZA COSTA

GERSON NEI LEMOS SCHULZ


Professores de Filosofia





O que nos torna responsáveis pelo que fazemos, por nossas escolhas, pelas decisões que tomamos? Porque somos responsáveis mesmo quando estamos diante de situações que parecem nos obrigar a uma ação determinada? Há muitos momentos em nossas vidas em que nos sentimos simplesmente "sem escolha". Por que então a decisão que tomamos nessas horas pode ser considerada nossa responsabilidade? A chave está na idéia de liberdade da forma como a entende Jean-Paul Sartre (1905-1980).

Para o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre a liberdade é total e é a capacidade de escolher entre duas ou mais possibilidades. Para ele nós (enquanto indivíduos) estamos condenados à liberdade. E não há como escapar dela. O homem é livre para escolher o seu caminho e fazer de sua vida um projeto que dê sentido a ela e isso só pode ser realizado se os seus atos articularem-se com os das demais pessoas. Assim, é inescapável escolher até porque não escolher é também escolher.

Estamos lançados no mundo e temos a responsabilidade de projetar com nossas escolhas e ações o que queremos ser. Não há liberdade de um só, diz Sartre, por conseguinte a liberdade de um indivíduo somente pode ser concretizada obtendo-se a liberdade de todos. Não é possível alguém trancar-se ou fechar-se numa redoma e desinteressar-se daquilo que o cerca. É praticamente imoral voltar às costas aos outros, pois para Sartre: "o homem está condenado a ser livre, com outros homens livres". E, "nós estamos sozinhos, sem desculpas"; porque – continua ele – não há nenhum Deus ou qualquer plano divino que determine o que deve acontecer".

Jean-Paul Sartre
1905-1980
O homem não pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que faz. A culpa pelo nosso comportamento não pode ser lançada na contabilidade da sociedade, da família ou da igreja, segundo Sartre. Nós estamos e somos livres porque não podemos confiar em um Deus ou na sociedade para justificar nossa ação ou para nos dizer o que ou quem somos. Nós estamos condenados porque sem diretrizes absolutas, nós devemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a angústia de suas consequências. Isso significa escolher uma possibilidade e abandonar outras que – de certa forma – poderiam ser ou não melhores.

É por isso que Sartre descreve a vida humana como uma "consciência infeliz". Infeliz porque o homem está sempre tentando alcançar um estado em que não restariam possibilidades irrealizadas, no qual poderia dizer: "eu não tinha outra escolha". Situação em que o homem seria um objeto em vez de um ser consciente, com opções e liberdade.

Permitir ser enganados ou mentir para nós mesmos, culpando as circunstâncias, é se eximir da própria responsabilidade de se construir a si mesmo, de fazer escolhas, ou seja, quando fingimos, agimos de má fé. E é denominada má fé quando tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações são determinadas pela nossa personalidade, por nossa situação, ou por qualquer outra coisa fora de nós mesmos. Segundo Sartre, "nenhum motivo ou resolução passada determina o que fazemos agora". "Cada momento requer uma escolha nova ou renovada". Além disso, cada escolha é um compromisso diante das demais pessoas. Um referendo que atesta que aquela escolha – naquele momento – foi para nós a melhor opção, e que as outras pessoas poderiam fazer o mesmo. Isso significa também que os outros com quem convivemos nos observam, mas esse olhar não é neutro. As pessoas nos objetivam, nos retificam e nos definem, tornando-nos – aos seus olhos – objetos, fixando-nos com rótulos e – de certa forma – tratando o ser livre como não livre; como coisa definível, dada, acabada e pronta. Tal atitude é geradora de conflito, por isso Sartre diz que "o inferno são os outros".

Por fim, para Sartre, estamos condenados à liberdade. Sua filosofia era ateísta e por isso Sartre reflete que as teologias estão erradas até então, pois elas sempre disseram que o homem tem uma essência que precede a existência, mas ao considerar que Deus não existe, é ao contrário; é a existência que, para Sartre, gera uma essência que cabe a cada indivíduo. É por isso que na filosofia sartreana o ser é irrepetível. Assim como também cada momento da existência é importante, pois um determinado fato (por exemplo, um encontro com um amigo; entre familiares) nunca mais se repetirá da mesma forma, nunca mais as pessoas envolvidas terão as mesmas ideias, falarão da mesma forma sobre os assuntos ali tratados. A existência não se repete, segundo Sartre. É por isso que, a fim de evitar a infelicidade, cabe a cada um de nós, respeitar a liberdade do outro, viver e assumir a responsabilidade pelo próprio caráter e por suas escolhas (mesmo as que considere erradas), pois isso faz que todos assumam a sua liberdade.