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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

EM BUSCA DE SENTIDO – UM PSICÓLOGO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE VIKTOR E. FRANKL

RESENHA CRÍTICA


MÁRCIO LIMA DO NASCIMENTO

PROFESSOR NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ - PARÁ - BRASIL
PÓS-DOUTOR EM MATEMÁTICA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - USP




O livro é fantástico do ponto de vista da narrativa, apesar de ser de certa forma um relato autobiográfico de um período da vida do autor, mais especificamente quando esteve em campos de concentração nazistas na Segunda Guerra, porém é muito mais do que isso.

Vejamos primeiro o que o livro não é: não é um livro extremamente triste como sugere o subtítulo, pois em geral o leitor associa essas palavras (campo de concentração, nazismo, livros com a temática do massacre aos judeus) a histórias de muito sofrimento e nem tem vontade de ler esse tipo de literatura, pois seria um texto "para baixo", que pode até deprimir algumas pessoas. Não é o caso. 

Não é um livro apenas para psicólogos e pessoas de áreas afins, pois após o relato de sua experiência e sobrevivência nos campos de concentração, ele apresenta os conceitos fundamentais da logoterapia, que seria uma terapia centrada no sentido (logos = sentido em grego), da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia. Mesmo para alguém leigo no assunto, o texto é perfeitamente crível e de fácil entendimento.

Não é um livro de auto-ajuda mas ajuda muito. Apesar de sabermos que livros de auto-ajuda servem a algumas pessoas, é fato que não podemos esperar muito deles quando os nossos problemas precisam de profissionais qualificados e de muita sensibilidade para nos fazer os questionamentos existenciais que possam mexer com nossas convicções e nos fazer mudar, quando queremos mudar.

Com as informações do que o livro não é, obviamente já temos uma ideia do que ele pode ser. É impressionante observar a forma como o doutor Frankl lida com as pessoas e encara os problemas. Realmente o texto contém inúmeras tragédias passadas pelos judeus nos campos de concentração, mas logo em seguida o que temos é uma saída, uma luz, um sentido a partir daquilo tudo. Essa parte do texto que achei fantástica. Porque acredito que o fato de ele ser psiquiatra e terapeuta ajudou muito na sua jornada, mas o que se percebe é que ele nos ensina uma nova forma de encarar a vida, de lidar com o outro, de tirar aquilo que é essencial e mais difícil na nossa trajetória, que é manter a dignidade diante desse infinitésimo mundinho criado por nós seres humanos, mas tão cheio de conflitos e guerras não bélicas. Guerras silenciosas, conflitos que massacram aos poucos e fazem a vida cada vez mais difícil de ser vivida. Como disse Frankl no início do primeiro capítulo: não vamos descrever os grandes horrores ( já bastante denunciados, embora nem sempre se acredite neles), mas sim as inúmeras pequenas torturas. Em pauta estarão aqui não a paixão e morte dos grandes heróis e mártires, mas das “pequenas”vítimas, a “pequena”morte da grande massa... Não vamos nos ocupar com aquilo que este ou aquele prisioneiro sofreu ou tem pra contar, mas vamos tratar da paixão do prisioneiro comum e desconhecido.

Minhas marcações feitas ao longo dos capítulos:

Num campo de concentração, luta-se sem dó nem piedade pelos próprios interesses, sejam eles do indivíduo ou  do seu grupo mais íntimo de amigos (página 16).

Os capos (prisioneiros que dispunham de privilégios), em sua grande maioria, eram tão ou mais violentos e rigorosos que os guardas da SS. Houve até alguns que nunca se alimentaram tão bem em sua vida. Eles eram resultados de uma seleção negativa. Além dessa seleção ativa, havia ainda uma seleção passiva. Existiam prisioneiros que viviam anos a fio em campos de concentração e eram transferidos de um para o outro, passando às vezes  por dezenas deles. 

Dentre eles, em geral, somente conseguiam manter-se com vida aqueles que não tinham escrúpulos nessa luta pela preservação da vida e que não hesitavam em usar métodos violentos ou mesmo em roubar dos inimigos. Todos nós que escapamos com vida por milhares e milhares de felizes coincidências ou milagre divinos – seja lá como quisermos chamá-los – sabemos e podemos dizer, sem hesitação, que os melhores não voltaram.

Doze cigarros valiam doze sopas. Quando um colega começava a fumar seus poucos cigarros, já  sabíamos que havia perdido a esperança de poder continuar – e de fato, então não aguentava mais.

Viktor Frankl
90% dos que chegavam a Auschiwitz, quando saiam do trem, seguiam direto para a câmara de gás (achando que era um primeiro banho). O resto seguia para a desinfecção, onde antes tiravam literalmente tudo dos prisioneiros.  "Nada possuímos a não ser, literalmente, nossa existência nua e crua".

"Quem não perde a cabeça com certas coisas é porque não tem cabeça pra perder" (Gotthold Ephraim Lessing).

"A dor psicológica, a revolta pela injustiça ante a falta de qualquer razão é que mais dói numa hora dessas".

"Naquela situação psicológica sem saída e sob a pressão da necessidade de se concentrar na preservação imediata da vida, toda a vida psíquica parece baixar a um nível primitivo". A pessoa sonha com "pão, tortas, cigarros e com uma banheira cheia de água quente". Ou "por mais terrível que fosse o sonho, não seria tão ruim do que acordar para aquela realidade que nos cercava."

Pessoas sensíveis, originalmente habituadas a uma vida intelectual ou culturalmente ativa, dependendo das circunstâncias e a despeito de sua delicada sensibilidade emocional, experimentarão a difícil situação externa no campo de concentração, sem dúvida, dolorosa; essa, não obstante, terá para ela efeitos menos destrutivos em sua existência espiritual. Pois justamente para essas permanece aberta a possibilidade de se retirar daquele ambiente terrível para se refugiar num domínio de liberdade espiritual e riqueza interior.

Quando nada mais resta, aparece à minha frente a imagem de minha esposa. Nem sei se ela ainda está viva. Naquele momento, fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu "ser assim", que sua "presença" e seu "estar-aqui-comigo" podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida.  "Põe-me como selo no teu coração (...) porque o amor é forte como a morte". (Cantares 8.6).

Sentido da Vida: o que se faz necessário é uma reviravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós.


A vida nos dirige perguntas diariamente e cada hora – perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta. Em última análise, viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.

Essa exigência, e com ela o sentido da existência, altera-se de pessoa para pessoa e de um momento para o outro. Jamais, portanto, o sentido da vida humana pode ser definido em termos genéricos. A vida como a entendemos aqui não é nada vago, mas sempre algo concreto, de modo que também as exigências que a vida nos faz sempre são bem concretas. Esta concreticidade está dada pelo destino do ser humano, que para cada um sempre é algo único e singular; nenhuma situação se repete; e em cada situação, a pessoa é chamada a tomar outra atitude.

A pessoa opta assim:

Em dado momento sua situação concreta exige que ela aja, ou seja, que ela procure configurar ativamente o seu destino;

Em outro momento, que ela aproveite uma oportunidade para realizar valores de vivência (por exemplo sentindo prazer ou satisfação);

Outra vez que ela simplesmente assuma seu destino.




Quando um homem descobre que o seu destino lhe reservou um sofrimento, tem que ver nesse sofrimento uma tarefa sua, única e original. Ninguém pode assumir dela o destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular.

Ter consciência do sofrimento, não tentar minimizá-lo. Enfrentá-lo de frente, sem otimismo barato ou artificial. O sofrimento passa a ser uma incumbência, como cumprir uma tarefa e seguir em frente: "compreender a marcha e ir tocando em frente" como diz Renato Teixeira.

"Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora".

Consciência plena de sua própria responsabilidade.

O terapeuta é antes um oculista do que um pintor. O pintor procura transmitir-nos uma imagem do mundo como ele vê; o oftalmologista procura capacitar-nos a enxergar o mundo como ele é na realidade.

Em resumo, podemos descobrir o sentido da vida:

1.    Criando um trabalho um praticando um ato;

2.    Experimentando algo ou encontrando alguém;

3.    Pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento.

Otimismo trágico:

A pessoa é e permanece otimista apesar da tríade trágica: dor, culpa e morte. Como é possível dizer sim à vida apesar de tudo isso?

Transformar aspectos negativos em positivos ou construtivos (tirar o melhor de cada situação):

1.    Transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana;

2.    Extrair da culpa uma oportunidade de mudar a si  mesmo para melhor;

3.    Fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.

Na entrada do campo está escrito em alemão:
"O trabalho liberta".  - Liberta?
Frankl também cita Espinoza: A emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formarmos uma idéia clara e nítida. - Ética, quinta parte, "Do poder do espírito ou a liberdade humana", sentença III.
Frankl também cita Nietzsche: Quem tem "por que viver"  suporta quase todo "como viver".