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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

FÉ NA CIÊNCIA



David De Souza Rodrigues
Filósofo, formado pelo IESAP - Instituto de Ensino Superior do Amapá

Orientador e editor:

Prof. Gerson Nei Lemos Schulz




David Rodrigues - Filósofo
No texto "Neolíticos e Modernos" de José A. de Lacerda Júnior (In: "Formação de professores: uma crítica à razão e à política hegemônicas" da editora DP & A do Rio de Janeiro, 2004) aborda-se o tema que trata da nossa conduta frente ao acúmulo de conhecimentos construído pelo caráter científico da Modernidade. Todavia, nos é comum que o cientificismo sempre fora o instrumento mais utilizado para se compreender o mundo. Mas não seria, pois, em função disso que estamos caminhando rumo a uma desestruturação social? Ao caos? Vejamos, portanto, em linhas gerais, os porquês dessas questões.


Formação de Professores: uma crítica à razão
e à política hegemônicas - Célia Linhares e
Maria Leal (Orgs.)
No livro "A Dialética do Esclarecimento" (1947), Adorno (1903-1969) e Horkeheimer (1895-1973) também criticavam a Modernidade por depositar todos os créditos na Ciência como detentora do saber universal. Para estes filósofos a pretensão científica não se deu no início da Modernidade juntamente com René Descartes (1596-1650) e nem no Iluminismo, mas já é possível encontrarmos o germe dessa aspiração nos poemas de Homero no séc. XIII a.C.



Os filósofos de Frankfurt expõem o que Homero narra no Canto XII da Odisséia, como Ulisses se utiliza da razão (Ciência) para não cair nos encantos das sereias que desorientavam os navegantes. Nessa passagem, após ordenar que se pusesse cera no ouvido dos tripulantes, Ulisses pede que alguém o amarre ao mastro do navio mas, no entanto, deixando apenas seus ouvidos livres para que possa conhecer a música delas. Amarrado, Ulisses se encanta com a melodia sem ser seduzidos pelas "sereias" e não é tragado pelo mar. Nesse sentido, parece-nos que Ulisses, embora tenha usado sua razão (Ciência), queria conhecer o "mistério" das sereias.


Theodor Adorno e Max Horkheimer
Filósofos da "Escola" de Frankfurt
Fonte: blog-do-escriba.blogspot.com
Não negamos que a sociedade do conhecimento é hoje um reflexo da cientificidade. E a partir disso, percebemos que o método científico utilizado na intenção de compreender o mundo sempre caminhou por estradas nebulosas ocasionando cada vez mais distanciamento entre o homem e o seu objetivo. Entretanto, que objetivo é esse? O que é que estamos buscando afinal de contas nessa jornada científica?

A sociedade atual se denomina detentora da Ciência e busca compreender os mistérios da natureza e do homem: a "verdade". Contudo, o problema está no fato de que, mesmo não sabendo o que é a "verdade", tal qual Ulisses, estamos em busca dela numa expedição que já conta com mais de dois mil anos, no ocidente, ao menos.


Não estará essa jornada científica causando a subtração dos recursos naturais do planeta em função da parafernália que criamos para tentar compreender as dificuldades criadas por nós mesmos? Por que se extrair tanto da Terra em busca de uma verdade transcendente? Não é "fé" a Ciência acreditar que um dia alcançará o conhecimento absoluto e o controle total?


Por fim, será que deixamos de ser "mitológicos" mesmo acreditando que "cientificamente" encontraremos a resposta para todas as perguntas um dia? Concordamos com Immanuel Kant (1724-1804) que durante o Iluminismo afirmou: "não temos total capacidade de conhecimento, pois somos limitados." É também o que pensa Lacerda quando afirma que nos tornamos presunçosos ao desacreditar totalmente nos mitos, isto é, a forma de ver o mundo dos antigos esperando e "acreditando" que a nossa é sempre a melhor.