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sábado, 31 de outubro de 2015

O GRITO DAS MULHERES DE PELOTAS QUE "ESCANDALIZOU" A HIPOCRISIA DA SOCIEDADE PATRIARCAL GAÚCHA E DO BRASIL


"NOVA" SEÇÃO NO BLOG:
SEÇÃO COLETIVOS




Este blog nasceu com a intenção de publicar textos a respeito das teorias da educação e das filosofias que a embasam ao longo da história ocidental e também para divulgar a ciências em geral. Mas ao longo dos seus poucos anos de existência e graças à ação da internet, os textos aqui publicados são lidos por pessoas que estão em outros noventa países (e isso pode ser comprovado no relatório interno a que os editores têm acesso dentro do blogspot). Nesses anos (2009-2015) muitos colaboradores têm se manifestado, outros têm sido convidados a escrever aqui.

Os editores do blog também estão atentos a alguns fenômenos culturais e sociais que despertam no Brasil e no mundo. Com uma postura eclética, dialética, publicamos textos (às vezes sobre os mesmos temas, mas com leituras diferentes, no âmbito político, social, filosófico e etc., destes temas). Também, ao longo de nossa pequena história temos tentado ser imparciais (algo que se sabe, em Filosofia, ser impossível), mas dentro dessa perspectiva, exceto nos textos assinados pelo editor, damos ênfase a textos filosóficos e educacionais sempre com embasamento em autores. Mas também publicamos trabalhos das áreas de História, Arte, Sociologia e Matemática e Engenharias.

Hoje, no texto que segue abaixo, o blog está mais que publicando o trabalho, está apoiando a luta das mulheres do Brasil que clamam pela eliminação da violência contra elas. Nosso país é um país violento. No Brasil:

48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência; no caso dos homens, apenas 14% foram agredidos no interior de suas casas (PNAD/IBGE, 2009). ... em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos, aponta pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (nov/2014). ... 56% dos homens admitem que já cometeram alguma dessas formas de agressão: xingou, empurrou, agrediu com palavras, deu tapa, deu soco, impediu de sair de casa, obrigou a fazer sexo. Saiba mais sobre as "Percepções do Homem sobre a Violência Contra a Mulher" (Data Popular/Instituto Avon 2013). ... 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR). ... Pesquisa apoiada pela Campanha Compromisso e Atitude, em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, revela 98% da população brasileira já ouviu falar na Lei Maria da Penha e 70% consideram que a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasil. Saiba mais: Pesquisa Percepção da Sociedade sobre Violência e Assassinatos de Mulheres (Data Popular/Instituto Patrícia Galvão, 2013) (FONTE:<http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-e-estatisticas-sobre-violencia-contra-as-mulheres/#>).

Aos que dizem que nosso país é um lugar pacífico – lamento informar –, não é! E essa violência toda precisa acabar. E foi para denunciar a violência contra as mulheres, especialmente, que no dia 26 de outubro de 2015, na cidade de Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil, na Universidade Federal de Pelotas, um grupo de mulheres realizou uma manifestação em forma de performance contra este tipo de violência. Com a palavra, elas:

MANIFESTO DO GRUPO AUTO-ORGANIZADO DE MULHERES DA UFPEL

Autoras:


Grupo Auto-Organizado de Mulheres da UFPEL

Este texto foi republicado aqui sob autorização por escrito do GRUPO AUTO-ORGANIZADO DE MULHERES DA UFPEL. O original encontra-se em: https://www.facebook.com/feministasufpel/posts/753878724735020:0




Frame da Performance na Universidade Federal de Pelotas - 2015
Todos os direitos sobre esta foto
reservados ao Grupo Auto-Organizado de Mulheres da UFPEL
A Performance é reconhecida como meio de expressão artística independente desde a década de 70. Segundo Roselee Goldberg, em contato direto com o público, esse meio de expressão possui uma definição maleável, pois necessita que transcenda a simples afirmação de que se trata de uma arte feita ao vivo pelos artistas e portanto, viva, dinâmica e transcendente, sendo o artista o instrumento da arte, seu corpo a própria arte.

A expressão de mulheres com corpos aparentemente frágeis e desprotegidos que seminus, dançavam e cantavam no hall de entrada do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da UFPEL no dia 26 de outubro de 2015, causou estranheza, perplexidade e desconforto. O som das vozes de mulheres que gritavam descrições de violências reais, estupros, espancamentos, feminicídios, provocou desconforto em alguns, êxtase em outros e raiva - expressas em deboches, xingamentos e agressões físicas, (pois alguns empurravam as artistas e até mesmo, um homem desceu de uma moto para agredir uma das meninas.).

Aterrorizadas as pessoas não compreendiam, porque "meninas" sem roupas, gritavam e urinavam em baldes - cena deprimente - ouvíamos a todo instante. Deprimente é a realidade dos fatos que apontam que nós mulheres somos expostas diariamente à homens urinando em público, mas isso é normativo em uma sociedade da normose, da doença da normalidade. Homem urinar nas ruas, em frente à nossas meninas, é normal; mulheres que urinam em público é anormal.

Outras pessoas chocavam-se com o fato de algumas das artistas, intencionalmente, terem consumido bebida alcoólica durante a performance, - Mais uma vez a fala do lugar comum se fez ouvir: Dentro da Universidade, que horror! - Desnecessário! - outros diziam.

Não é segredo que dentro da universidade alunos dos mais
diferentes cursos comemoram suas aprovações e suas formaturas bebendo, fazendo "corredor polonês" e agarrando as colegas à força. Neste caso, vejam bem, são homens, e a eles é dado o direito. Aos homens é permitido, até mesmo, o descontrole com o álcool ou sem álcool; com eles é assim mesmo!

Sim, é assim! Tem sido assim há muitas gerações, faz muito tempo que sofremos com medo todos os dias de nossas vidas, quando nossos companheiros, amigos, colegas e, até mesmo, alguns estranhos fazem o uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias. Entretanto, a nós mulheres do rebanho supostamente conduzido pela lei do pai, nos cabe a pudice, a decência e o recato, antes, durante e depois de ingerimos qualquer coisa.

Uma mulher não deve vacilar jamais no protocolo do bom comportamento construído por séculos de patriarcado. Neste modelo nos cabe apenas um papel e não suporta outras possibilidades, manuais de bom comportamento feminino, redigido por séculos de civilização androcêntrica. Cabe a nós a entrega, jamais a resistência.

Na sociedade dos homens as mulheres devem saber seu lugar, e este lugar não é de protagonista. Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) não é diferente, não esqueçamos que a Universidade é uma invenção dos séculos medievais, uma sociedade misógina dirigida por homens que, de uma forma, ou de outra, se afastaram muito cedo do feminino. Foi preciso muita coragem para adentrar os muros das universidades pelo mundo a fora, o que nos surpreende e nos choca, é que em pleno século vinte e um, ainda sejamos vistas com tanto desrespeito e com tanta raiva.

Assim é de se pensar sobre o significado das reações que a manifestação de 26 de outubro gerou observamos que a medida que a performance chegava ao seu ápice, com os elementos, intencionalmente, jogados ao ato, as pessoas que ali estavam, alunos, professores, funcionários, sentiram-se cerceados, coagidos, desprotegidos frente a 10 mulheres que, teatralizavam, a inversão do status quo, retiravam as mulheres do papel destinado à elas, submissas, cordatas, afáveis, provocou incômodo, desconforto. Quem viveu este experimento social jamais poderá esquecê-lo. A sensação de não saber como agir, o que pensar e quais decisões tomar frente ao contexto exposto gerou medo, insegurança e incapacidade. Sentimentos experimentados há séculos pelas mulheres.

A intervenção contou com tambores que ritmados davam o tom das expressões de dor, de raiva, de clemência ao sagrado e de redenção. Mais do que corpos encarniçados, haviam almas encarniçadas que evocavam as dores das Cláudias, Isabelas, Marias, Renatas, Joanas… Que horror - diziam, - evocar os santos de nossa devoção!, - como se atrevem a chamar o sagrado para este ato?

- Contudo, é flagrante entre brasileiros de todas as baladas: o uso profano de "Mamãe Oxum" de Zeca Baleiro e Chico César nas festas. E, para além destes moralismos religiosos, uma pergunta se impõe, de que sagrado mesmo estamos falando?

Que escória somos nós, mulheres, que não temos o direito de evocar as santidades, porque assim estamos profanando seu sagrado? Iansã, senhora dos ventos, jamais desceria ao nível daquelas que, histéricas, rasgavam suas vestes em forma de dor? Para que serve o sagrado? Não é para nós? Não é por nós e muito menos conosco; dizem alguns, pelo simples fato de sermos indignas?

Pois então, que a nossa indignidade seja exposta, assim como a nossa vagina, assim como nosso sexo, assim como nosso êxtase, nosso gozo, nosso orgasmo. -Não! Não! Não! Mulher não goza! Mulher não! - Calem já essa nega!,- Tirem essas sapatas daqui! - Chamem a polícia! - Chamem a Reitoria! - Como ousamos tamanho insulto? Quem elas pensam que são?

Somos mulheres, porque assim nos tornamos ou nos tornaram, - Mas não são feministas! - Não representam o feminismo! - Prestam um desserviço a causa! - Feministas raivosas, feminazis, femiloucas, que horror! - Novamente o padrão estético a nos dizer que nas passarelas do feminismo só se aceita um tipo de corpo e um tipo de comportamento, mais uma vez, dizem como devemos sentar, nos portar e como devemos chorar nossas dores.



Não vamos recuar. Aos desavisados, novamente dizemos: NÃO VAMOS RECUAR! Vamos resistir, VAMOS RESISTIR, assim EXISTIR será nossa luta.

Agradecemos a todas e todos que a partir de agora sabem que EXISTIMOS e que RESISTIMOS. Agora vocês nos conhecem, prazer - Somos o GRUPO AUTO ORGANIZADO DE MULHERES.

domingo, 25 de outubro de 2015

O UNIVERSO DE FRANZ KAFKA

Wemerson de Brito Oliveira




O universo literário de Kafka (1883 - 1924) é permeado por uma gama de imagens e arquétipos que refletem seu modo de percepção e entendimento de uma sociedade sufocante e maquinal, bem como a posição do indivíduo no emaranhado das obrigações sociais. Em "A Metamorfose" o escritor apresenta sua indignação com a arbitrariedade e o pouco espaço que o indivíduo possui para ser o que "é". A sociedade parece algo a exigir que o indivíduo adote uma máscara estranha, que aniquile seu apetite e sufoque as suas idiossincrasias em favor do bom funcionamento das instituições, e estas, na reprodução do "status quo", apresentam a justiça e o bem coletivo, pelo menos aparentemente ou ideologicamente, como resultado lógico e invariavelmente alcançado por seu sistema burocrático. Nessa perspectiva, a posição do indivíduo deve ser de submissão e admissão perante essa força teleológica.

Kafka trabalha seus personagens de forma a denunciar, explícita ou implicitamente, o grau de degeneração moral que a sociedade vive. Na busca pela autopromoção social as pessoas assumem uma postura divergente de seu próprio "eu" para tornarem-se aceitáveis. Absorvem códigos e tendências que as elevem a um status. Gregor Samsa, após metaforsear-se em um inseto gigantesco, é rejeitado e agredido por seus familiares, pois não é capaz de se enquadrar em um sistema de exploração de força, seu "ser" não pode ser induzido a uma relação visando um fim prático de utilidade, e sua fisionomia causa repulsa por fugir do modelo estético convencional.

A escrita de Kafka nos leva muitas vezes a um labirinto de ideias que se entrelaçam atomicamente na configuração plástica das imagens, e estas, muitas vezes, tornam-se translúcidas, deixando escapar à superfície do texto todo um contexto sentimental a qual o autor e leitor se inserem, como se num lapso pudéssemos vislumbrar o fluxo de movimento conceptivo da obra. Trata-se de uma mente angustiada que caminha entre as mais obscuras vielas do pensamento colhendo e lapidando, aqui e ali, elementos para a produção conceitual de seus estados emotivos. A crise dos clímaces configura-se menos como um sintoma patológico mental que uma pungente constatação da pequenez e insignificância diante das inexoráveis engrenagens metálicas da alegórica máquina de "A Colônia Penal".

A perda de referencial e saída possível torna o plano psicológico vulnerável a uma dor torturante: a importância de estar vivo reside na disposição física e mental para o trabalho e manutenção da ordem. Subjuga-se a totalidade humana à sua restrita funcionalidade social. O sentido da vida, sob esse prisma, é algo preestabelecido socialmente, uma dádiva amarga e irrecusável, dado pronto e acabado como algo concreto e objetivo, normatizado e impositivo. Tudo isso turva e obsta uma construção, reconhecimento e aceitação da própria identidade por parte do indivíduo.

As expressões dos personagens de Kafka muitas vezes entram em consonância com nossa própria experiência. Daí sua atualidade, e ao construir um emaranhado de lampejos de consciência inconformada, flerta magistralmente com a irracionalidade dos sentimentos abissais que habitam o coração humano. A plasticidade de seus escritos é sintomática do seu contexto histórico que caminha para a Primeira Grande Guerra e que não deixaria de influenciar as diversas vertentes literárias, artísticas e mesmo filosóficas que surgiriam no decorrer do século XX.


Portanto, Kafka nos remete a uma análise da condição do homem enquanto ser que vive e que sente, que caminha entre os outros e entre si mesmo; que, consciente do mundo insondável que existe dentro de si, não condene tiranamente aquilo que é peculiar ao "eu" do outro.