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segunda-feira, 15 de junho de 2015

A OBRA DE ARTE COMO REDENTORA E SALVADORA DO ARTISTA



Wemerson de Brito Oliveira

Graduado em Filosofia pelo
Instituto de Ensino Superior do
Amapá - IESAP



"O Grito"
Obra do pintor norueguês expressionista

Edvard Munch
As discussões sobre arte e produção artística revelaram diversos meandros aos quais o fluxo de gestação criativa perfaz e refaz até escapar à impressão em obra de arte. Como o desaguar de um rio tortuoso, depressivo, ora raso ora profundo, num mar que espelha e fixa a quietude do céu, o artista dá vazão às correntes violentas que revolvem em seu interior.

O artista em relação a sua produção é o criador de sua redenção e salvação. Não num sentido da dialética cristã, – se é que cabe aqui tal expressão – onde há ignorância do criador que acredita ser criatura, usando uma sentença feuerbachiana, mas numa relação consciente e de extrema necessidade, ele, o artista, transfigura um estágio de seu ser em algo sensível ao expectador. Nisso consiste sua tragédia, reconhece sua finitude e passagem e a aceita e ostenta como destino querido e conquistado. Penso que o artista é aquele que, inquieto pelo sentimento que traz no peito, abre as comportas de seu eu e permite transformá-lo em sons, imagens, cores, pedras, palavras, etc.

Uma escultura, uma música, revela muito da natureza do escultor e do compositor, até mais se nos fosse permitido um diálogo com eles. A obra de arte nos atinge por aquilo que ela carrega de sentimento e concepção de mundo, e isso se configura atualmente como característica que vem se desenvolvendo com a própria história. A arte egípcia é um monumento de exposição em que vigora a tradição e o culto à vida eterna. As menores alterações possíveis com as técnicas de produção de geração a geração de artistas e o fim último religioso a que devia ser fiel.

"A Esfinge"
           Cairo, Egito

Na Grécia, a Beleza é o fim supremo da obra de arte, num momento em que padrões de equilíbrio, serenidade e justa distribuição no espaço compõem o que se entende por clássico. Finalmente o indivíduo é chamado à baila, com sua inserção política e reconhecimento social, exigindo direitos e liberdade de pintar o mundo a partir de seus olhos, de suas inconstâncias e angústias internas.

Nessas dimensões da forma como a arte se apresenta aos olhos dos expectadores e a intencionalidade daquele que a produz vigora um jogo de atrito entre sensibilidade/estética e sensação. As condições sociais e ideológicas estão inerentemente ligadas ao ato do criar artisticamente e o artista é aquele que direciona sua poesis a fim de por a frente, ao alcance dos olhos, na maioria das vezes metaforicamente, toda uma estrutura contextual na qual ele se entende e se constrói enquanto ser existente, seja pra difundi-la ou subverte-la a gosto de suas ânsias e desígnios.

O famoso "Partenon"
em Atenas, Grécia
A produção artística, sendo um aglomerado ordenado a gosto do autor, as impressões ali postas são partes concretas de uma etapa da metamorfose de seu eu, da qual precisa expurgar-se, eliminar, expressar. A obra de arte é produto de um excesso, de uma ameaça. O artista externaliza, faz vir à tona, à superfície algo que o aflige num processo de criatividade. Criar é um ato vital de necessidade. Uma expressão pictórica é um canal sintetizador de estilhaços daquilo que num determinado momento fez parte da personalidade do artista, cada pincelada, cada traço e linha denuncia e apresenta resíduos mortais de esperança, paixão, desgraça e frustração.

Na obra de arte se encerra toda uma contextura psíquica e social e todo um vasto campo do qual a incitação dos sentidos e imaginação são capazes de explorar e sentir. Ao contempla-la somos levados a vislumbrar a unidade atemporal divina, a incessante epopeia rumo a Perfeição, os lampejos psicodélicos alucinantes. São estruturas fixadas, que escaparam de uma mente perturbada, que ameaçavam sua existência. O sofrimento é o codinome do artista, e sua satisfação é consequência, se não toda mas em boa parte, restrita ao produto de seu trabalho. No fundo ele é filho dos extremos, das intempéries do ambiente hostil à sua caminhada. Viver é uma constante conquista que sem sua arte se tornaria insuportável, aprendeu a morrer sucessivamente ao longo da vida, a transmutação de parte de sua ipseidade constituem o resultado de sua criatividade artística, enterra nela uma parte de si pra ver o sol nascer em mais uma manhã de sua peregrina jornada existencial.

Enfim, penso que a obra de arte redime e salva o artista não por ser um parto do novo, do belo ou manifestação dum gênio criativo, mas por ser um túmulo aberto à exposição.

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