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domingo, 16 de novembro de 2014

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E EDUCAÇÃO INTERDISCIPLINAR NA AMAZÔNIA: UM ESTUDO DE CASO NA RESERVA EXTRATIVISTA RIO CAJARI


 
MARIA LÚCIA TEIXEIRA BORGES*

1 Desenvolvimento Sustentável


Este artigo enfoca a análise sistêmica da educação interdisciplinar a partir da crescente criação de reservas extrativistas no Brasil e da política nacional de educação ambiental. A hipótese de trabalho é que não será possível a criação de reservas extrativistas sustentáveis na Amazônia sem, também, a criação de uma política pública que oriente a educação nessas reservas extrativistas. Política que deve ser eminentemente interdisciplinar.

1.1 Conceituando desenvolvimento sustentável


De acordo com a ong World Wide Fund (WWF, 2009), desenvolvimento sustentável é

[...] o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental. (P. 1)

A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que a modernidade realizou uma leitura cartesiana e positivista da natureza acreditando que seus recursos naturais eram infinitos ou renováveis. Construiu-se uma sociedade eminentemente industrial que parte da exploração mineral direta, incluindo-se os recursos hídricos potáveis para construir um modelo altamente consumista de produção de mercadorias chamado capitalismo que, de acordo com Ferreira (2004), é um sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro e empregando trabalho assalariado, e no funcionamento do sistema de preços. Tal sistema, em aproximadamente trezentos anos, se se contar desde a Revolução Industrial por volta de 1750 até hoje, consumiu mais da metade dos recursos naturais do planeta para chegar ao nível técnico-industrial-militar atual. As conseqüências disso são drásticas para o planeta como o degelo das calotas polar e ártica que causará, dentro de dez anos, a elevação do nível dos mares. (FOLHA, 2009, p.1).

O relatório Por um Planeta Vivo 2008 da WWF mostra a dimensão que a exploração dos recursos da Terra já atingiu e a situação que está quase fora do controle, além das conseqüências que isso pode ter no futuro. O documento mostra que a Terra não suporta mais recuperar os recursos que são explorados dela.

A pegada ecológica[1] global excede actualmente a capacidade de regeneração do planeta em cerca de 30%. Se a procura sobre os recursos naturais do Planeta continuar a crescer a esta taxa, em 2030 seriam necessários dois planetas para manter o nosso estilo de vida. O relatório analisa pela primeira vez o impacto do nosso consumo sobre os recursos hidrícos e a vulnerabilidade de muitas áreas do planeta à escassez de água. (WWF, 2008, p. 2)

Então, se se quer garantir um planeta saudável para as gerações futuras, é fato que não se pode mais usar o atual modelo de exploração de recursos naturais clássico. É preciso partir para outro modelo, o modelo sustentável que é

[...] o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental. (WWF, 2009, p. 2)

Por isso, para ser alcançado, acredita-se que o desenvolvimento sustentável depende de planejamento e do reconhecimento de que os recursos naturais são finitos. E que essa idéia representa uma nova forma de desenvolvimento econômico, que leva em conta o meio ambiente. Muitas vezes, desenvolvimento é confundido com crescimento econômico, que depende do consumo crescente de energia e recursos naturais. Constata-se que esse tipo de desenvolvimento tende a ser insustentável, pois leva ao esgotamento dos recursos naturais dos quais a humanidade depende. Também as atividades econômicas podem ser encorajadas em detrimento da base de recursos naturais dos países. Logo, desses recursos depende não só a existência humana e a diversidade biológica, como o próprio crescimento econômico. Assim, o desenvolvimento sustentável sugere, de fato, qualidade em vez de quantidade, com a redução do uso de matérias-primas e produtos e o aumento da reutilização e da reciclagem.

Segundo o WWF (2009), se os países do hemisfério sul copiassem o modelo dos países desenvolvidos, o consumo de combustíveis fósseis aumentaria 10 vezes e o de recursos minerais, 200 vezes. E embora os países do Hemisfério Norte possuam apenas um quinto da população do planeta, eles detêm quatro quintos dos rendimentos mundiais e consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da produção de madeira mundial. (WWF, 2009, p. 2).

2 A Educação Interdisciplinar


Interdisciplinaridade é um termo que não tem significado único, pois possui diferentes interpretações, mas em todas elas está implícita uma nova postura diante do conhecimento, uma mudança de atitude em busca da unidade do pensamento. Dessa forma, a interdisciplinaridade difere da concepção de pluri ou multidisciplinaridade, as quais apenas justapõem conteúdos.

Nesse sentido, não se refere aqui à interdisciplinaridade como uma teoria geral e absoluta do conhecimento, nem se compreende como uma ciência aplicada, mas sim como o estudo do desenvolvimento de um processo dinâmico, integrador e dialógico. Baseado em Fazenda (1988), caracteriza-se a interdisciplinaridade pela intensidade das trocas entre os especialistas e pela integração das disciplinas num mesmo projeto de pesquisa. Então, em termos de interdisciplinaridade, ter-se-ia uma relação de reciprocidade, de mutualidade ou um regime de co-propriedade, de interação, que possibilitará o diálogo entre os interessados. "A interdisciplinaridade depende então, basicamente, de uma mudança de atitude perante o problema do conhecimento, da substituição de uma concepção fragmentária pela unitária do ser humano" (FAZENDA, 1888, p. 31).



Após os estudos da relação entre o conceito de Fazenda (1988) e a sustentabilidade, percebe-se que o ponto de partida e de chegada de uma prática interdisciplinar está na ação. Dessa forma, por meio do diálogo que se estabelece entre as disciplinas e entre os sujeitos das ações, a interdisciplinaridade devolve a identidade às disciplinas, fortalecendo-as e evidenciando uma mudança de postura na prática pedagógica. Tal atitude embasa-se no reconhecimento da 'provisoriedade do conhecimento', no questionamento constante das próprias posições assumidas e dos procedimentos adotados, no respeito à individualidade e na abertura à investigação em busca da totalidade do conhecimento.

Não se trata de propor a eliminação de disciplinas, mas sim, da criação de movimentos que propiciem o estabelecimento de relações entre elas, tendo como ponto de convergência a ação que se desenvolve num trabalho cooperativo e reflexivo. Desta forma, alunos e professores – sujeitos de sua própria ação – se engajam num processo de investigação, re-descoberta e construção coletiva de conhecimento, que ignora a divisão do conhecimento em disciplinas.

Ao compartilhar idéias, ações e reflexões, cada participante é, ao mesmo tempo, "ator" e "autor" do processo. A partir destes referenciais, é importante que os conteúdos das disciplinas sejam vistos como instrumentos culturais, necessários para que os alunos avancem na formação global e não como fim em si mesmo.

Ainda, de acordo com Fazenda (1998), a interdisciplinaridade favorecerá que as ações se traduzam na intenção educativa de ampliar a capacidade do aluno de expressar-se por meio de múltiplas linguagens e novas tecnologias, também de posicionar-se diante da informação, interagir, de forma crítica e ativa, com o meio físico e social. Tem-se, então, o desafio de assegurar a abordagem global da realidade com uma perspectiva holística, transdisciplinar onde a valorização seja centrada, não no que é transmitido, e sim no que é construído. Assim, a prática interdisciplinar envolve os "atores" no processo de aprender a aprender.

Para Fazenda, a postura interdisciplinar incita o pensamento em direção ao enfrentamento de tensões que se criam durante o seu processo de elucidação, o que possibilita a superação de dicotomias tradicionais da visão de mundo positivista, tais como: homem-mundo: o homem se revela ao mundo por meio da linguagem, quer seja ela natural, quer seja artificial.

A partir disso entende-se que, ao formalizar o seu pensamento para outrem, o homem apropria-se da palavra, atribuindo-lhe um significado segundo sua própria experiência, reelaborando-a e revelando-se ao outro. A manifestação do ser por meio da linguagem traz subjacentes os valores intrínsecos a um contexto. Ao mesmo tempo em que se expressa, o homem toma consciência de si mesmo como um ser singular no mundo, com potencialidades e limitações próprias. A "palavra própria" de cada ser manifesta o sentido que ele dá a si mesmo e ao mundo. Assim, a palavra está sempre em ato constituindo a essência do mundo e a essência do homem.


Para Fazenda, todo encontro com o outro supõe um confronto de idéias onde cada qual traz seu testemunho e busca o testemunho do outro. Cada ser é responsável pela introdução de um ponto de descontinuidade, cujas contradições devem ser discutidas e compartilhadas com os demais membros do grupo, buscando-se um equilíbrio em um novo patamar.

Portanto, a interdisciplinaridade transforma-se num campo aberto para que, de uma prática fragmentada por especialidades, possam-se estabelecer novas competências e habilidades através de uma postura pautada em uma visão holística do conhecimento. Num âmbito mais geral, a interdisciplinaridade poderia ser uma união das culturas.

A interdisciplinaridade, aventura, ciência do ano 2000, pode chegar a ser uma forma de comunicação com as diversas culturas. É assim que propõe Shirley Bartel que sugere um modelo para que através da interdisciplinaridade, pessoas oriundas de diversas culturas compartilhem uma cultura comum. Trata-se, enfim, de encontrar, ao estudar os indígenas dos E.U.A., quão parecidos são em relação aos do Brasil, por exemplo, na arquitetura, alimentação ou na geografia ocupada em cada caso[2] (FOLLARI, 1995, p. 122).

A disjunção sujeito-objeto promovida pela modernidade é um dos aspectos essenciais de um paradigma mais geral de disjunção-redução, pelo qual o pensamento científico "disjunta" realidades inseparáveis sem poder encarar a sua relação, ou identifica-as por redução da realidade mais complexa à realidade menos complexa, conforme diz Morin (1982, p. 219). No entanto, a atitude interdisciplinar permite o desenvolvimento do sujeito como um todo, de acordo com suas condições, possibilidades e entendimento. Em síntese, de acordo com Bernbaum, Lindas, Epton, Payne e Pearson (1983) apud Lattuca (1990), a

[...] pesquisa interdisciplinar implica continuadamente a pesquisa integrada 'na qual a contribuição específica de cada pesquisador tende a ser obscurecida pela junção do produto', outras definições enfatizaram o processo além do produto. Russe (1983), por exemplo, enfatizou a natureza colaborativa da pesquisa interdisciplinar: 'em geral o termo interdisciplinar refere-se a um plano específico, aproxima-se ou fixa-se de esforço que se misturam duas ou mais unidades administrativas dentro de uma mesma universidade ou entre um cenário de colegas, desenhado em uma variedade de um cenário institucional. Tradução da autora deste artigo[3] (P. 12).

Mapa do estado do Amapá com destaque para a RESEX
RIO CAJARI
.


É nessa perspectiva, e a partir da experiência das Reservas Extrativistas (RESEX) do sul do estado do Amapá, mais especificamente da Reserva Extrativista do Rio Cajari, criada pelo Decreto 99.145 de 12 de março de 1990, que se decidiu estabelecer a temática da auto-sustentabilidade e sua relação com a educação interdisciplinar como mote de pesquisa de uma tese de doutorado (ainda em andamento) desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), em convênio com a Universidade Federal do AmapáUNIFAP. Esse contexto norteia o objetivo dessa pesquisa que tem por base uma reflexão sobre a trajetória da educação na RESEX Cajari, no período de 1990 a 2008, tendo como método de pesquisa o estudo de caso múltiplo. Este, segundo Yin (2005, p. 26), "[...] permite examinar acontecimentos contemporâneos [...]".

Já a técnica para coleta de dados adotará os procedimentos da observação participante, história oral e de vida e entrevistas abertas pautadas em Marconi e Lakatos (2004), que permitem, de acordo com Lüdke e André (1986, p. 28), "[...] uma imersão total na realidade [...]", permitindo melhor compreensão dos fatos e, assim, estabelecendo condições mais favoráveis para a compreensão e análise dos dados de campo, considerando os critérios de Banerjee (2003, p. 86) que diz: "a nova linguagem do desenvolvimento sustentável – a compreensão científica, a cidadania, os direitos das espécies, a equidade intergeracional obscurecem as desigualdades e distinções culturais que cercam os recursos ambientais". E, assim, tentar desvendar a sustentabilidade das culturas presentes na RESEX, relativas ao fortalecimento dessa população no que diz respeito às políticas públicas de preservação dessa Unidade de Conservação Federal, bem como das políticas educacionais pensadas e implantadas nas escolas que integram essa RESEX.

3 Uma perspectiva de desenvolvimento para a região amazônica a partir da educação auto-sustentável


Ao longo de décadas, no norte do Brasil, ocorre o esgotamento dos solos, a concentração de terras por parte de grandes empresas que causaram a expulsão de famílias e comunidades inteiras das áreas rurais, enquanto a poluição dos rios, lagos e da costa marítima está destruindo os recursos naturais que são a base de sobrevivência das populações de pescadores. Além disso, a razão de desmatamento em 2008, segundo o portal Globo.com (2009, p. 1) foi em média de 13.000 (treze mil) quilômetros quadrados, o que representa o lançamento na atmosfera global de 2,5 % de gases do efeito estufa.

Tais informações são alarmantes, pois permitem refletir sobre o futuro possivelmente catastrófico que aguarda as gerações do porvir. Assim, a educação e o desenvolvimento sustentável é uma das questões que está a merecer a atenção de pesquisadores, políticos e da sociedade em geral. Parte-se aqui da ideia de que o desenvolvimento sustentável não é centrado na relação produção/lucro, é centrado na relação pessoas/subsistência. Logo, o desenvolvimento sustentável não é explorar por explorar, é viver em simbiose com a natureza. E, ao pensar na Amazônia brasileira, Simonian (2001) revelou essa questão junto aos extrativistas e Ferreira (2002) analisou a educação no contexto da Reserva Extrativista Marinha de Soure (Resex Soure). Os autores demonstraram o quanto as políticas públicas os desconsideram, em especial quanto à sustentabilidade socioambiental. Em 2004, em reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Belém, debateu-se essa relação, tendo as conclusões evidenciado uma realidade similar, assim, persiste a incúria do Estado[4]. Nessa direção e com esta proposta de pesquisa, pretende-se discutir a racionalidade e os avanços da educação nas Unidades de Conservação (UC) de uso sustentável.

Aspecto da Floresta Amazônica
Foto divulgação.

Neste ponto, importa que se esclareça em que consistem os paradigmas envolvendo políticas públicas e desenvolvimento sustentável. E, quanto a essa modalidade de desenvolvimento pensa-se que ela deve não apenas promover crescimento econômico e bem-estar social, mas, principalmente, combinar progresso técnico-científico com preservação do ambiente. Entretanto, tal possibilidade mostra-se muitas vezes inviável uma vez que a população, em especial a rural, é negligenciada pela política educacional quanto aos direitos constitucionais relativos à formação integral do ser humano, o que inclui a questão ambiental. Especificamente quanto à RESEX do Rio Cajari, os estudos que envolvem maior profundidade são de Benjamin (2004) que reforçam a importância de se retomar a discussão sobre a educação viabilizada nessa Unidade de Conservação (UC). Entretanto, conforme se detectou nos estudos sobre a Reserva Survey, há poucos estudos realizados.

A criação da RESEX CAJARI fez parte do processo inicial de implantação dessa modalidade de UC na Amazônia brasileira,[5] o que ocorreu a partir de 1990, tendo sido a do Cajari, uma das três primeiras criadas (ALLEGRETTI, 1989, 1994). Ela se situa no sul do estado do Amapá onde muitos são os projetos já implementados quanto à produção, beneficiamento e comercialização dos recursos naturais e/ou de outros bens, pois, ao longo dos anos, a preocupação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA, 2009) e das três associações locais que a administram têm priorizado a economia (BENJAMIN, 2004). Entretanto, a existência de 35 escolas de ensino fundamental, sendo que duas dentre elas mantêm o ensino médio, apontam para uma realidade que está a demandar pesquisa[6], em especial por sugerir uma diversidade sócio-educacional ampla, mas também porque se insere em contexto em que a biodiversidade é exemplar pelos diversos ecossistemas ali encontrados.

Nesse contexto, o estudo parte do questionamento quanto à prática educacional das escolas da reserva, precisamente que tem favorecido a preservação do meio ambiente e a formação política do cidadão quanto à manutenção do bem natural e, assim, impedido o êxodo rural. No estado do Amapá, a fim de cumprir a legislação ambiental, o poder público já assinala sua preocupação com a questão ambiental do território nacional, no entanto, entende-se que não é suficiente criar UCs por decreto. O que mais importa, por certo, é o estabelecimento de políticas públicas que viabilizem a formação das pessoas que residam em áreas transformadas em UC. A perspectiva educacional a ser considerada nestes casos teria que promover condições técnicas e educativas e trabalharem no sentido da sustentabilidade, o que, certamente, pode assegurar direitos básicos como saúde, educação e moradia.

E, conseqüentemente, é de se priorizar a discussão quanto às políticas públicas. No entanto, de acordo com Coelho (2000, p. 119), "[...] a abordagem de políticas públicas integradas com vistas a soluções de problemas ambientais tem sido apenas retórica [...]". Desse modo, verifica-se que "[...] a ausência de uma visão de totalidade tem conduzido a uma falta de coerência e efetividade na formulação e implantação de políticas públicas que visem promover o desenvolvimento regional, a geração regional, local, de renda e proteção de seu patrimônio material e cultural [...]" (Id., ibid.). Entende-se, portanto, que minimamente há a necessidade de se refletir sobre as questões ora explicitadas.

Na perspectiva teórica, a educação brasileira tem sido, ao longo de sua história, objeto de estudos de muitos pesquisadores e de promessas de políticos em períodos eleitorais, focalizando, principalmente, a educação formal urbana, em detrimento da Educação Rural (ER). Petty et. all (1981, p. 31-163) define esta modalidade de educação tomando como ponto de partida o sujeito a que se destina o esforço educativo. É de ressaltar-se, portanto, a importância de caracterizar esses sujeitos com a máxima precisão. Em linhas gerais, afirma que o destinatário da ER é a população agrícola, constituída por aquelas pessoas para as quais a agricultura representa o principal meio de subsistência.

Entretanto, eles mesmos se esquecem de que outras categorias de trabalhadores vivem nesse meio, a exemplo dos extrativistas e dos agroextrativistas, que em muitas áreas são expressivas em termos demográficos e que têm sua cidadania negada a partir do conceito de Sorj (2001, p. 25) quando afirma que "a cidadania refere-se sempre a uma forma particular de pertencer a uma comunidade e dar acesso a uma série de direitos." Nesse sentido, Demartini (1998, p. 25) adota um conceito amplo de "rural" que é definido segundo a natureza do trabalho. Deste modo, a autora considera "rurais" aqueles grupos da sociedade que estão diretamente ligados à produção agropecuária, considerando-se ainda as diferenciações existentes entre as categorias de agroextrativistas em função da posse ou não dos meios de produção. E, de maneira especial, a mesma privilegia a relação com a terra, bem como a posição ocupada no sistema de relações sociais de produção.

Por sua vez, a política para ER, assim como toda a educação básica hoje existente no país é idealizada no meio urbano, conforme o modo de vida desse meio, sem considerar as peculiaridades do meio rural e sem levar em conta os conhecimentos dos homens e mulheres do campo. Contudo, e apesar da distância existente entre a realidade do campo e o ensino rural veiculado pelo sistema educacional oficial, inclusive conforme posto por Ferreira (2002) ao analisar a relação entre políticas educacionais e desenvolvimento na RESEX Marinha de Soure, no Pará, observa-se que a escola tem o papel importante no projeto de vida da população da realidade em que está inserida. Nestes termos, Gatti e Davis (1993, p. 148), analisando a representação da escola pela comunidade rural, afirmam que:

A escola representa para a sua clientela a única oportunidade de aprendizagem sistemática de bens universais, como a leitura, a escrita, a contagem básica e os conceitos científicos iniciais sobre a realidade. No entanto, seu modo de operar, impede o efetivo cumprimento daquilo que dela se espera: fornecem, a duras penas, tão somente fragmentos de conhecimentos que não podem ser úteis nem para a vida no campo, nem para o projeto de vida urbana.

Assim sendo, a educação formal realizada nas escolas rurais, não atende adequadamente às necessidades e expectativas dos seres humanos do campo, principalmente por desconsiderar as especificidades da sua realidade socioeconômica e cultural. E, nesse contexto, entende-se que o desafio maior consiste em permitir que populações que vivam em áreas rurais protagonizem a construção de seu próprio território, ou seja, possam ser atores sociais locais nas atividades econômicas e culturais para a conquista de melhores condições de acesso aos bens materiais e culturais de direitos enquanto cidadãos.

Um dos problemas do meio rural no Brasil, hoje, é a ausência de políticas públicas que garantam seu desenvolvimento em programas adequados à melhoria da qualidade de vida das pessoas que ali vivem e trabalham. No contexto atual do país, defender políticas públicas específicas para o meio rural não implica discriminá-lo ou pretender insistir numa postura dicotômica entre rural e urbana. Ao contrário, políticas públicas específicas para romper o processo de discriminação situam-se como fundamentais no sentido de fortalecer o processo de identidade cultural negada aos grupos de pessoas que vivem no campo e, para garantir atendimento diferenciado ao que é distinto, elas não precisam ser desiguais. Nessa direção, Wanderley (1997, p. 92-93) afirma que "[...] muitos estudiosos se desinteressaram pelo 'rural', como se ele tivesse perdido toda consciência histórica e social, como se o fim do 'rural' fosse desejável à modernização da sociedade". E, dentre os problemas que a ER apresenta, está o da escassez de dados e análises sobre este tema, o que já aponta para o tipo de tratamento que a questão tem merecido, tanto pelos órgãos governamentais como pelos pesquisadores.

Ainda nesse sentido, dados do IBGE (BRASIL, 2007) evidenciam que 14.000.000 (quatorze milhões de pessoas) no meio rural, acima de 15 anos, é analfabeta[7]. Porém, note-se que estes dados são relativos porque não foram incluídas nesse censo as populações rurais do Acre, Amapá, Pará, Rondônia e Roraima. Esses percentuais podem ser maiores, considerando-se a realidade desses estados. Não basta, no entender de Fernandes et. al. (2004, p. 35), dizer que "[...] o índice de analfabetismo está baixando. É preciso uma política pública efetivamente comprometida com a educação da grande maioria da população rural que continua analfabeta [...]".

No Amapá, as políticas voltadas para a ER consistem em extensões de práticas educativas do meio urbano, como acontece na maioria dos demais estados brasileiros. Mas, se vive um novo movimento da história da humanidade e a escola, em especial, a rural, tem que se adequar ao mesmo, que é, segundo Arroyo e Caldart (2004, p. 73), "[...] o movimento do direito [...]". As sociedades organizadas por categorias de trabalhadores e a sociedade civil organizada estão em busca do direito à saúde, ao trabalho, à educação e, em especial, conforme Simonian et. all. (2000, p. 44), "[...] as populações tradicionais que residem no meio rural [...]". Nesse sentido, a mesma autora revela que "[...] as comunidades da RESEX do Cajari – AP, também se organizaram através de cooperativas e associações [...] (Simonian, 2001, p. 50)", para melhor reivindicarem seus direitos estabelecidos constitucionalmente.

Por fim, nessa mesma RESEX, têm-se três organizações que agregam pessoas com o objetivo de discutir o melhor modo de comercializar a produção e de manter a natureza preservada. Entre elas, estão: a Cooperativa de Castanheiros do Amapá (COOCAP), que agrega todos os coletores de castanha da Amazônia; Cooperativa de Produtores de Palmito (COOPP); Associação dos Produtores Agroextrativistas do Médio-Baixo Cajari (APAEMBC), que agrega os produtores agroextrativistas. A partir desse contexto, é de considerar-se a proposta de Delgado (2003, p. 19) que entende que "[...] o dano ambiental se consuma nos entornos econômico-sociais como realização da idéia do domínio dos seres humanos sobre a natureza". Precisamente, entende-se que refletir sobre a sustentabilidade e a educação requer uma compreensão clara do significado que se dá a esses termos/conceitos, bem como explicar o papel da educação na contemporaneidade com destaque para a ER. E ainda se refletir sobre as influências das práticas educativas das escolas e a relação com a sustentabilidade.


REFERÊNCIAS

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* Professora da Universidade Federal do Amapá/Unifap. Pedagoga, Mestre em educação, doutora em Desenvolvimento Regional Sustentável pelo Programa de Pós-graduação do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos/NAEA/Universidade Federal do Pará/UFPA.
[1] Pegada Ecológica (Ecological Footprint) mede a pressão humana sobre os recursos naturais.
[2] La interdisciplina, aventura, ciência del año 2000, puede llegar a ser una forma de comunicación intercultural! Así no los propone Shirley Bartel quién sugiere un modelo para que a través de lo interdisciplinario, personas provenientes de diversas culturas compartan uma cultura comum. Se trata en fim, de encontrar, al estudiar los indígenas de EE.UU, cuán parecidos resultan a los de Brasil, p. ej. em la arquitectura, la alimentación ou la geografia ocupada em cada caso. (FOLLARI, 1995, p. 122)
[3] [...] interdisciplinary research implies continuously integrated research 'in which the specific contribuitions of each researcher tendo to be obscured by the joint product'. Others definitions emphasized process over product. Russe (1983) for example, stressed the collaborative nature of interdisciplinary research: 'in general the term interdisciplinary refers to a specific plan, approach or set of efforts which blends the components of to or more administrative units within a university or among a set of colleagues draw from a variety of institutional settings[3]' (LATTUCA, 1990, p. 12).
[4] Conforme informação verbal de L. Simonian, que inclusive coordenou duas mesas redondas sobre essa problemática.
[5] Através do Decreto nº. 98.897 de 30 de janeiro de 1990, o governo federal cria as Reservas Extrativistas, estabelecendo que as mesmas “[...] são espaços territoriais destinados à exploração auto-sustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista” (Brasil, 1990, art. 1º.).
[6] Entrevista realizada informalmente com o presidente da Associação da RESEX Cajari.
[7] Nesse levantamento, a taxa de analfabetismo é de 11,4%, o que pressupõe um total de 15,6% da população total do país, o que quer dizer, na prática, aproximadamente, vinte milhões de pessoas.

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