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sábado, 6 de outubro de 2012

POSITIVISMO E ESPIRITISMO




Gerson Nei Lemos Schulz
Fernando Bilhalva Vitória

Artigo publicado há doze anos no jornal Diário da Manhã de Pelotas - RS
Revisto e ampliado além da versão para o jornal.

A miséria no mundo é uma discussão antiga. Muitas são as respostas para essa calamidade e fazem sucesso as que, principalmente, justificam com doutrinas transcendentais sua existência. Mas talvez a única que mereça o título de "resposta" seja a idéia da transmigração das almas.
Hipólytte Rivail (codinome Allan Kardec)
1804-1869
Doutrina filosófica de origem indo-européia que veio da Índia e foi estudada na Grécia por Pitágoras (570 a.C.) e depois tornada mundialmente conhecida pelas ideias de Sócrates (469 a.C.) e pelos escritos do filósofo Platão (347 a.C.), ela foi "relida" pelo francês Hipólytte Rivail (codinome Allan Kardec), tornando-se o espiritismo moderno que prega que o homem tem uma "alma" imortal que pode migrar para outro corpo ou não, de acordo com uma "permissão" divina após a morte. Para defender sua posição, Kardec, dentro do Positivismo de sua época, reinterpretou os evangelhos cristãos.

Nas palavras de Herbert Spencer (1820-1903), no Positivismo "a evolução só pode terminar com o  estabelecimento da mais elevada perfeição e da mais completa felicidade". Spencer é também o autor da ideia de que "na sociedade como na natureza, somente o mais apto sobrevive". Além disso, o Positivismo em geral pensa que cada indivíduo é responsável por sua condição moral e esta sujeita sua condição material. Na prática, uma pessoa pobre para provar que tem "boas" qualidades morais deve lutar pelo progresso material e técnico. Caso uma pessoa pobre receba ajuda de outrem ou do Estado isso não é justo para com as pessoas que trabalharam e enriqueceram sozinhas porque privilegiaria aqueles que não foram "espertos e capazes" de enriquecer também.

Mas o Positivismo se fundamenta por uma abrangente lei universal: a lei da evolução de todas as coisas para um estágio mais alto e melhor que o anterior. Quer dizer, o progresso da humanidade se dá por uma condição de "esclarecimento" moral onde é "moral" aquele que luta para alcançar para si a riqueza, o conhecimento. O pensamento positivista acredita que se cada indivíduo na sociedade agir assim, toda a sociedade sairá lucrando com o progresso técnico.

Comte (1798-1857)

Comte em seu Positivismo sonha com uma sociedade altamente técnica e perfeita possivelmente porque ele foi aluno da Escola Politécnica francesa do século XIX, e viveu em uma França com alto desenvolvimento industrial, com a ascenção de tecnologias nunca antes vistas como o trem, o navio de aço, as máquinas pesadas movidas pela força do vapor, a recente energia elétrica e etc. Em uma Europa que dominava a Ásia, parte das Américas e a África. Isso levou-o a estabelecer que o modelo de ciência deveria ser a física porque ela consegue prever o que irá acontecer no escopo do fenômenos da natureza. O físico consegue descobrir as "leis" fundamentais por trás dos fenômenos e controlá-los, assim também deve fazer a "física social", primeiro nome daquilo que mais tarde Émile Dürkheim (1858-1917) chamaria de "sociologia".

A partir da interpretação de que a natureza é primordialmente todo poderosa, o Positivismo deu abertura para outros autores aplicarem esse conceito ao homem. Por isso César Lombroso (1836-1909) realizou estudos no crânio de um criminoso para comprovar a tese de que todos os criminosos não são criminosos por desejo, mas porque nascem fisicamente condicionados assim. Em outros termos, uma pessoa será aquilo que as condições naturais que lhe são inerentes permitem que ela seja e nada mais.

Em relação à epistemologia, afirma Roberto Ardigò (1828-1920) que o conhecimento está no "fato". Este tem, para ele, "realidade própria em si mesmo e é imutável". Logo, o que advém dos fatos é a interpretação humana. Então, o homem deve se submeter à natureza das coisas porque se estabelece uma relação causa-efeito indelével e natural. Quer dizer, Ardigò considera a ciência e a técnica como se fossem algo perfeito e constrói sobre esses pilares duvidosos sua filosofia.

Já no campo moral pode-se dizer que a partir daí a pobreza é algo natural à condição humana e mesmo que traga sofrimento ela é "boa", pois impelirá o homem ao trabalho para acumular riquezas e deixar "naturalmente" de ser pobre.

Uma relação possível entre espiritismo e Positivismo é que o Positivismo estava na "moda" na França dos anos de Kardec porque privilegiava a demostração científica pelo estudo dos fatos e o prognóstico sobre a realidade, e qualquer nova doutrina que quisesse respeito deveria seguir tal modelo para ser aceita como "científica". É comum a ambas doutrinas a ideia de progresso. No Positivismo o homem deve praticar o progresso material, no espiritismo o progresso espiritual. A ideia de "evolução" também é comum. O ser humano em geral é fruto da natureza para os positivistas. Para o espiritismo de Kardec, embora de origem material, o homem tem uma "alma" imortal que carrega consigo a índole e o caráter moral, além de uma capacidade de sobrevier sem corpo. Para o espiritismo kardecista o homem nasce imperfeito e precisa, cada vez mais, para evoluir, livrar-se das "prisões" da matéria como os desejos corporais, a inveja, a mesquinharia, a maldade e outros, todos estes considerados impuros e motivo de atraso para o espírito encarnado.


As condições morais do Positivismo são semelhantes na doutrina espírita quando, na reinterpretação da 'parábola dos talentos', Kardec, em seu "O Evangelho Segundo o Espiritismo", diz que os homens não são todos ricos porque não são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar. E continua, afirmando que se o fossem, a humanidade não progrediria, já que o seu destino é o progresso (ideia típica do Positivismo comtiano). O mesmo afirma sobre a riqueza das nações (capital), justificando que Deus a derrama em alguns países centrais para que haja distribuição conforme a necessidade. Contrariamente, na história, em momento algum a França dos tempos de Kardec, que era uma nação capitalista poderosa e rica, derramou suas riquezas para outras nações do globo!
  
Em termos éticos e econômicos é também curioso que no espiritismo kardecista a única frase que console aquele que é miserável hoje é ele "saber" que já foi rico ou será noutra reencarnação. Quer dizer: mesmo que uma pessoa muito pobre saiba que é extremamente difícil enriquecer em condições de competitividade com aqueles que já nasceram ricos, ela deve se conformar com sua condição porque se não tem riquezas nesta vida já a teve ou terá na próxima!

Há fundamento histórico e científico em tais idéias? Será que elas não fazem pensar que a vida na Terra é um castigo? Deixam que a vida seja um lugar de encontro, gratuidade e esperança? Ainda hoje as riquezas se acumulam na Europa e E.U.A., mas se derramam para África e América Latina?


Ernest Mandel (1923-1995)
Fonte: www.ernestmandel.org

O historiador Ernest Mandel afirma que a desigualdade social deu-se historicamente. Portanto, ela foi construída. Veja-se alguns momentos da história humana onde não havia desigualdade e o que permitiu o aparecimento desta.
 
Há dez mil anos, com o surgimento da agricultura, era desconhecido qualquer tipo de riqueza privada porque tudo era em comum. Para a antropóloga Margaret Mead (1901-1978), havia a "festa da abundância" onde se distribuía o excedente para impedir que o produtor acumulasse riquezas. Entretanto, ao passo que as técnicas agrícolas se aprimoraram, aumentou a produção de excedente e os indivíduos semitas e indo-europeus, especialmente, organizaram-se nas primeiras grandes civilizações com forte divisão do trabalho e acumulação de riquezas nas mãos de poucas pessoas.

Quando os indivíduos alienaram suas vontades a um chefe, surgiu o Estado e a propriedade privada. Nasceu assim a divisão de classes, predominando a força econômica. Foi o caso de Grécia e Roma antigas (aristocratas x escravos), da Idade Média (senhores feudais x servos da gleba) e capitalistas e proletários na era industrial. Destarte, na era moderna, a desigualdade acentuou-se porque as classes detentoras do capital, graças à exploração da força de trabalho dos que nada tinham, acumularam os excedentes para si, causando o aparecimento da desigualdade econômica que gerou a desigualdade social.
   
Margaret Mead
Enfim, será que os trabalhadores são pobres porque não são previdentes? É o desejo de algum deus que uns sejam milionários e outros miseráveis?

A resposta é outra pergunta: "será que se algum deus existe e ama todos os homens, por que dividiria desigualmente a riqueza?".

Os autores consultados nos autorizam a afirmar que a pobreza é uma construção histórica e material. A é desigualdade fruto da má distribuição da renda pelo Estado que permite que pequenos grupos da iniciativa privada controlem os meios de produção. Então, é falacioso o argumento que diz que uma pessoa é pobre por causa de suas condições morais, pois as próprias "condições morais" são construções históricas e material de determinado período histórico.
Logo, é muito difícil superar o âmbito da fé para demostrar a veracidade dessa doutrina uma vez que ela ressurgiu na modernidade depois dos escritos de Comte. Ou seja, Kardec não consegue cumprir  o que promete: justificar uma religiosidade nos moldes da ciência. E mais, embora o tom aqui seja de uma pergunta: por que, se as lições que estão no "Evangelho Segundo o Espiritismo" são oriundas de seres de "outra esfera" mais avançada, estas foram, necessariamente, escritas com base em uma filosofia humana daquele período histórico hoje praticamente superada, como é o caso do Positivismo? Não haveria outras filosofias mais avançadas? Assim, não seria esse fato uma evidência (apesar de não ter o status de prova) de que o próprio Espiritismo Moderno de Kardec é também uma construção histórica e, portanto, temporal?
Não queremos ofender nem afrontar ninguém com estas perguntas e não é objeto aqui se criticar as obras de caridade praticadas por espíritas e espiritualistas porque essa reflexões são meramente acadêmicas e filosóficas e não teológicas. Aqui fecha-se o círculo: será o "espiritismo" de Kardec um "positivismo espiritual"? O que questionamos são as consequências para a vida cotidiana das pessoas quando alguns adeptos - às vezes ingenuamente - propagam estes slogans (evolução, progresso, penalidades, justiça/injustiça divina) sem a devida visão crítica.

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